As palavras são a armadura
da nossa fragilidade
Duras no combate
irresistíveis no amor
Mentem
Mentem sem saber
Mentem por não saber
Mentem por sofrer
Nelas aloja-se
o corte
a ferida, a perda, a busca
o nunca, o silêncio, o não sei
Toda palavra é
irremediavelmente oca
E por isso nelas ecoa
uma promessa de felicidade
Viver talvez se resuma a isso
Habitar o vazio
e fazer ecoar uma promessa
No fim de tudo
restarão palavras
como pedras caídas do templo
Ocas, ocas, ocas!
Mas outrora habitadas
por um amanhã que teremos sempre desejado
e que jamais teremos vivido"
in Diário de um analisando em Paris.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Louco
Só porque quero o tempo
para buscar o meu tempo
vivendo em contra tempo
apelidam-me de louco.
Loucos são os que vivem
fora do seu tempo
apinhados em rebanho
ignorando o seu lugar.
para buscar o meu tempo
vivendo em contra tempo
apelidam-me de louco.
Loucos são os que vivem
fora do seu tempo
apinhados em rebanho
ignorando o seu lugar.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Histórias Simples
"O lume quase apagado. Lá fora, a chuva e a friagem.
Dentro, o silêncio da cozinha era serrado pela respiração da cadela. Começou a descalçar as botas.
Terminou de despir-se no quarto, na penumbra que os olhos conseguiram filtrar na escuridão. Tapada até à ponta do nariz, a mulher era um vulto sob os cobertores. De ceroulas, o velho Justino parou a meio para desabotoar a camisa. Aproveitou para apreciá-la, a sua mulher era uma pequena montanha moldada pela roupa da cama. Existiu esse momento.
Depois, levantou os cobertores pesados de Janeiro e entrou com prudência, atento ao toque nos lençóis, ao ranger da cama de ferro. Instalado, não tardou a adormecer.
Nessa noite, os sonhos incompletos." Tolentino Mendonça
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Espaço Vital
Há uma linha que me separa dos outros.
Guardiã do meu espaço vital.
Delimita o meu lugar.
Percorrendo-a reconheço-me.
Deste lado apenas eu existo.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
domingo, 18 de janeiro de 2015
Depressão
Ansiosamente mais à frente.
Luta-se contra o tempo
não se vive o presente
não se honra a emoção
não se sente o momento
cava-se a depressão.
Luta-se contra o tempo
não se vive o presente
não se honra a emoção
não se sente o momento
cava-se a depressão.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
As palavras fracassam
Cronistas do espírito humano
lutaram com as palavras
Todos tentaram dizer
escrever quem são.
As palavras fracassam
porque nós somos
antes delas.
lutaram com as palavras
Todos tentaram dizer
escrever quem são.
As palavras fracassam
porque nós somos
antes delas.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Malas
O desafio colocado é cada um carregar as suas malas. A viagem segue por vezes em trilhos complicados e exige que sejamos capazes de depurar o seu conteúdo salvaguardando-nos do excesso de peso evitando perigos de esmagamento.
Nesta viagem que dura uma vida é crucial seguirmos inteiros com amortecedores (emoções) que se adaptem à estrada.
Nesta viagem que dura uma vida é crucial seguirmos inteiros com amortecedores (emoções) que se adaptem à estrada.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Apatia
Olhei a vida
de um altar
fantasmático, omnipotente.
Maldita fantasia
triste companheira
sugaste energia
soçobrei na apatia.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Andarilho
Não sou andarilho
que cante na escuridão
para negar o medo.
Sou mais inteiro
se tiver com ele
conversas intimas,
sussurradas.
que cante na escuridão
para negar o medo.
Sou mais inteiro
se tiver com ele
conversas intimas,
sussurradas.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Sem limites
Não serei eu
nem coisa qualquer.
Sem fôrma,
sem limites,
sem liberdade
não serei diferente
nem mesmo gente.
nem coisa qualquer.
Sem fôrma,
sem limites,
sem liberdade
não serei diferente
nem mesmo gente.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Anoitece
Anoitece meu amor.
Já não temo a escuridão,
mas este vazio
traz-me tanto frio.
Preciso do calor das palavras
para me aconchegar esta noite,
certo que ao amanhecer
estarei a teu lado.
Já não temo a escuridão,
mas este vazio
traz-me tanto frio.
Preciso do calor das palavras
para me aconchegar esta noite,
certo que ao amanhecer
estarei a teu lado.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Viv(ó) Ano Novo
À porta do restaurante em frente, pessoas
bem vestidas acotovelam-se na corrida para alcançarem o melhor lugar no
primeiro repasto de 2015. Porque o ano é novo, agonizam pelo velho cabrito
assado e, com sorte, o consommé de camarão das cascas da véspera.
As crianças, alheadas da tensão dos
adultos, queimam calorias acumuladas nas festas perseguindo-se em círculos: “têm
que perder a mania de correr uns atrás dos outros” – vocifera um pai irado.
Aplausos para o primeiro acto de 2015.
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