quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Circuncisão

A dificuldade que temos em extrair o gozo dos gestos, das conquistas, dos sucessos, das relações, da vida...A falta de elaboração das nossas vulnerabilidades remete-nos para uma espécie de circuncisão, impedindo-nos de sentir.


                                 F. Goya - Circuncisão

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Cauda de Lagartixa

Nem sempre entendo a linguagem do corpo que habito.
Rompe com aquilo que sei.
São tiques, tremuras, estremecimentos.
Há dias que se agita como a
cauda amputada de uma lagartixa.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Caixas de Ressonância

Não se pode viver vivendo a vida dos outros. Vale mais dizer uns disparates com autoria do próprio do que passar a vida a reproduzir coisas certinhas ditas por outros.
Curiosa a passividade das pessoas que se entretêm a falar dos outros, a dizer coisas sobre os outros e se colocam na vida como caixas de ressonância.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Infância à Banda

Nas bandas da minha infância, os medos lá de casa eram levados muito a sério, de tal forma que todos fugiram deles sem deixar rasto, cada um à sua maneira, cada um com os seus.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Escarra a dor

Uma folha de jornal, talvez do vespertino " A Capital", servia de escarrador do enfermo que noite dentro, volta e meia, punha a cabeça de fora da cama para expelir os excessos. Fazia-o com uma veemência tal que, no quarto do lado oposto da casa, alguém se colocava em vigília com tamanho sobressalto.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Palavras Perdidas

Não as conheço nem sei se sou capaz de as conhecer.
Quando julgo aproximar-me sou empurrado para longe por uma angústia que quase me paralisa os membros. Por vezes parecem debaixo da língua, mas há um nó que se forma que me deixa apenas a respirar e mal.
Se não as consigo nomear, serão palavras sem nome? Talvez qualquer coisa abstracta que vai além do meu conhecimento.
Serão palavras invisíveis, transparentes? Não lhes reconheço a forma nem conteúdo.
Serão palavras perdidas, talvez para sempre, nos passos perdidos da minha existência?


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Lã de Cágado

"Nos meus primeiros anos acreditei ser um extraterrestre. Julgava pertencer a um mundo que os outros desconheciam.
Naqueles anos demorava-me dentro daquilo que para mim era uma espécie de geringonça espacial de onde,  através de uma vidraça, observava a invernia terrena. Talvez aquilo não fosse mais que uma sala de espera onde esperava sem saber o quê.
Naquela terra, à qual não pertencia, nem poderia pertencer, talvez me tenha tornado filho do Hallow Man tão invisível e transparente como a lã de cágado."


domingo, 3 de janeiro de 2016

Sociedade Raspa

Raspar rima com buscar, procurar, porfiar, ansiar, desesperar...
- Arranje-me uma que tenha dinheiro - diz em voz alta a cliente que aguardava na fila para tentar comprar a sorte. Fiquei a pensar  que os jogos que obrigam a uma espera de horas ou dias estarão condenados a desaparecer.
Sinto que a Sociedade Raspa procura o sucesso instantâneo. Já não é possível adiar a sorte.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O Pai saberá o que fazer!

"O Pai saberá o que fazer."
Acreditar num pai que é suposto saber resolver as aflições que se colocam na infância é condição essencial para crescer.
"O Pai saberá o que fazer" - suspiro de alívio de uma criança aflita.
"O Pai saberá o que fazer" - esperança, segurança, tranquilidade.