Discorro lembranças
em compassos livres.
A cada repetição
tons diferentes
na emoção.
Neste processo
expande-se a razão
desvanece-se a aflição,
de forma indelével
dou tréguas ao coração.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Algo de novo.
Apareço agora
diante de mim.
Sinto que me habita
algo de novo.
Talvez seja um espelho,
construído e não achado
no trilho da dor
que se foi fazendo
presente.
diante de mim.
Sinto que me habita
algo de novo.
Talvez seja um espelho,
construído e não achado
no trilho da dor
que se foi fazendo
presente.
domingo, 28 de setembro de 2014
Teus olhos.
Foram teus olhos
que me paralisaram,
meninas do meu desamparo.
Fiquei circunscrito
a esse espelho
de indiferença,
prossegui temerário,
destituído de confiança.
que me paralisaram,
meninas do meu desamparo.
Fiquei circunscrito
a esse espelho
de indiferença,
prossegui temerário,
destituído de confiança.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
A Bolha
Olho para trás,
ainda vejo
aquela bolha,
plena de fantasia,
a revoar nos vazios
daquele precipício
agora dissimulado
pela bruma do tempo.
ainda vejo
aquela bolha,
plena de fantasia,
a revoar nos vazios
daquele precipício
agora dissimulado
pela bruma do tempo.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
No Banco do Jardim.
Os seus dias terão ficado lá
atrás dos bancos de nevoeiros que povoam a memória. Arrastados pela vertigem da
modernidade, os dois velhos sentados no banco do jardim denunciavam estados de
espirito diferentes. Um, mais sereno, quase que dormitava a aproveitar o calor
dos raios de sol outonais que penetravam por entre a folhagem da borracheira. O
outro parecia mais agitado, procurava algo com o olhar.
Quando percebeu que alguém se aproximava
interpelou de forma educada e num tom coloquial e profético: - Por favor, gostava de chamar
a sua atenção para o facto de Deus ser luz, pai e amor – após um compasso de
espera silencioso irrompeu com uma pergunta: - sabe qual das três dimensões é a
primeira? O homem surpreendido olhou para o relógio dando a entender que estava
com pressa, no entanto decidiu responder sem grande convicção para fazer a vontade ao
velho: - Talvez seja a do amor. O velho triunfante disse que não é o amor, mas
sim a luz; - Sem ela o senhor não veria nem o pai nem o amor - rematou com ar
de gozo.quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Tonturas
Não são tontas as tonturas,
porfio com a memória,
oiço os sentidos
dou fio à história.
Artífice de palavras,
faço delas as varas
dos meus instáveis
equilíbrios.
porfio com a memória,
oiço os sentidos
dou fio à história.
Artífice de palavras,
faço delas as varas
dos meus instáveis
equilíbrios.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Ser Só.
Nesta condição,
estou só
e não sinto a solidão.
Repouso nela
como se levitasse
sobre um campo
vestido de manto branco,
longe das aflições
de outrora.
Gosto de estar a meu lado,
espreitar aquele prado,
pelos rigores do inverno,
transformado.
estou só
e não sinto a solidão.
Repouso nela
como se levitasse
sobre um campo
vestido de manto branco,
longe das aflições
de outrora.
Gosto de estar a meu lado,
espreitar aquele prado,
pelos rigores do inverno,
transformado.
domingo, 21 de setembro de 2014
Entender o Amor.
Porque hás-de
querer entender-me
se eu próprio
tenho tamanhas
dificuldades em fazê-lo?
Ficarei feliz
se um dia concluíres
que fui capaz
de me entregar.
querer entender-me
se eu próprio
tenho tamanhas
dificuldades em fazê-lo?
Ficarei feliz
se um dia concluíres
que fui capaz
de me entregar.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
O Agarrado
Procura o que não existe,
preso por arames
agarrado à fantasia,
desconhece a vida
e seus ditames.
Tropeçou no filho
que abandonou.
Agitado rejeita a dor
mascara vida de torpor.
preso por arames
agarrado à fantasia,
desconhece a vida
e seus ditames.
Tropeçou no filho
que abandonou.
Agitado rejeita a dor
mascara vida de torpor.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Contradições
O amor é lugar estranho.
Encontrei-te quando
deixei de te procurar.
Vieste sibilina,
num renovado encanto
sem que te notasse
qualquer espanto.
Talvez sempre
lá tenhas estado
eu é que te procurava
no lugar errado.
Encontrei-te quando
deixei de te procurar.
Vieste sibilina,
num renovado encanto
sem que te notasse
qualquer espanto.
Talvez sempre
lá tenhas estado
eu é que te procurava
no lugar errado.
domingo, 14 de setembro de 2014
Nomear
Voltei a sentir o tempo.
Nomeei dores e vazios
que deixaste.
Sinto o dia a raiar.
Sonho-te amiúde.
Fiz-te presente
e agora deixo-te.
Levo a tua e a minha dor,
preciso de seguir caminho.
Nomeei dores e vazios
que deixaste.
Sinto o dia a raiar.
Sonho-te amiúde.
Fiz-te presente
e agora deixo-te.
Levo a tua e a minha dor,
preciso de seguir caminho.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Amarras
Sigo amedrontado, angustiado,
numa espécie de vertigem.
Já não consigo reprimir
este estado descontrolado.
O medo implora que fique parado.
Esbracejo, procuro agarrar-me,
mas como? Quebraram-se as amarras.
Sinto-me a Alice em queda livre,
impossível voltar atrás.
O desastre está iminente.
Pressinto um estrondo,
acordo estremunhado...
Colidi com a realidade.
Percebo estar vivo de verdade.
numa espécie de vertigem.
Já não consigo reprimir
este estado descontrolado.
O medo implora que fique parado.
Esbracejo, procuro agarrar-me,
mas como? Quebraram-se as amarras.
Sinto-me a Alice em queda livre,
impossível voltar atrás.
O desastre está iminente.
Pressinto um estrondo,
acordo estremunhado...
Colidi com a realidade.
Percebo estar vivo de verdade.
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Temporalidade
Quero lá saber deste tempo
que se constrói em linha recta,
dias, meses, anos.
Não é com este tempo
que me entendo.
Só aceito um tempo que passa,
que oiça meus gritos mudos,
que me dê tempo e retire a mordaça
para descobrir o meu tempo,
descobrir a minha história.
que se constrói em linha recta,
dias, meses, anos.
Não é com este tempo
que me entendo.
Só aceito um tempo que passa,
que oiça meus gritos mudos,
que me dê tempo e retire a mordaça
para descobrir o meu tempo,
descobrir a minha história.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Presente
Pretendo viver devagar,
não me chega apenas olhar.
Intento digestão eterna das coisas,
o presente é o meu lugar.
não me chega apenas olhar.
Intento digestão eterna das coisas,
o presente é o meu lugar.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Fantasma
Tenho uma viagem a fazer.
Sigo caminho,
por terra ou ar
talvez não vá sozinho
mesmo sabendo-me singular.
Levo fantasma comigo.
Dou-lhe voz.
Peço que se pronuncie
sobre o que têm escondido
Procuro que se sinta
compreendido.
Sigo caminho,
por terra ou ar
talvez não vá sozinho
mesmo sabendo-me singular.
Levo fantasma comigo.
Dou-lhe voz.
Peço que se pronuncie
sobre o que têm escondido
Procuro que se sinta
compreendido.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Gostava de usar calções.
- Gostava tanto de usar calções. É que eu gosto muito de calções. Tenho muitos na gaveta do meu quarto. Têm padrões diferentes. Uns mais curtos, outros mais compridos.
Muitas vezes fico a pensar como era bom poder usar calções. Sentir o ar fresco nas pernas em pleno Verão. Eu acho que fico bonito de calções.
Era tão bom começar o novo ano lectivo a vestir calções. À noite penso que se o problema se resolvesse era capaz de prometer a mim mesmo que não voltaria a coçar-me, a arranhar-me.
É por causa do problema que eu não me concentro nas aulas. Escondo-o o mais que posso. A minha mãe e outras pessoas dizem-me para mostrar e não me importar com o que os outros dizem, mas não consigo. Quando penso no problema a comichão regressa e fico a transpirar.
Muitas vezes fico a pensar como era bom poder usar calções. Sentir o ar fresco nas pernas em pleno Verão. Eu acho que fico bonito de calções.
Era tão bom começar o novo ano lectivo a vestir calções. À noite penso que se o problema se resolvesse era capaz de prometer a mim mesmo que não voltaria a coçar-me, a arranhar-me.
É por causa do problema que eu não me concentro nas aulas. Escondo-o o mais que posso. A minha mãe e outras pessoas dizem-me para mostrar e não me importar com o que os outros dizem, mas não consigo. Quando penso no problema a comichão regressa e fico a transpirar.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Sorriso
"O sorriso vinha de memórias que camuflavam a dor maior. Talvez fossem memórias ilusórias. Era um sorriso triste, cheio de vontade de falar, de continuar a sorrir até não poder mais. Eu perscrutava a dor daquele menino que me angustiava. Fiz tudo para prolongar aquele sorriso, mas sabia que não era possível.
O sorriso daquele menino foi-se apagando. O queixo começara a tremer, olhos de pânico, mãos que se esmagavam uma à outra. Recebi a sua dor. As suas lágrimas eram agora também minhas.
A avó, com quem passara férias, feriu-o sem lhe tocar. Magoou-o no mais profundo do ser, na sua intimidade.
Agora é preciso chorar para poder voltar a sorrir."
O sorriso daquele menino foi-se apagando. O queixo começara a tremer, olhos de pânico, mãos que se esmagavam uma à outra. Recebi a sua dor. As suas lágrimas eram agora também minhas.
A avó, com quem passara férias, feriu-o sem lhe tocar. Magoou-o no mais profundo do ser, na sua intimidade.
Agora é preciso chorar para poder voltar a sorrir."
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Vadio
É cão vadio,
abandonado.
Estará perdido?
Não se detém em baldio.
Segue uma estrada,
tem esperança
de ser adoptado.
abandonado.
Estará perdido?
Não se detém em baldio.
Segue uma estrada,
tem esperança
de ser adoptado.
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