Viveste tempo demais em mim.
Tomei consciência
que carreguei culpa alheia
todos estes anos.
Zanguei-me a sério contigo e
tornei-te numa memória distante.
Talvez agora te possa perdoar.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
A liberdade de existir
Clausura maior e silenciosa.
Olho-me amorfo, escondido da vida,
amarrado a ti....a mim mesmo.
A tua ausência enredou-me
numa teia de medos.
Apetece-me gritar.
Quero a liberdade de existir.
Olho-me amorfo, escondido da vida,
amarrado a ti....a mim mesmo.
A tua ausência enredou-me
numa teia de medos.
Apetece-me gritar.
Quero a liberdade de existir.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Para ti
Não me olhaste no tempo certo
e o tempo necessário
para que sossegasse.
Sabias lá, a angústia crescente
nos momentos que dei por tua falta.
Acredito que se soubesses
não te ausentavas.
Não fossem os teus intervalos,
talvez conhecesse o amor.
e o tempo necessário
para que sossegasse.
Sabias lá, a angústia crescente
nos momentos que dei por tua falta.
Acredito que se soubesses
não te ausentavas.
Não fossem os teus intervalos,
talvez conhecesse o amor.
domingo, 27 de abril de 2014
O lugar da solidão
Percorro caminho improbo
deixando o foguetório para trás.
Chegado ao lugar de partida...da solidão
encontro-me e repouso.
Agora permito-me sentir a dor
dos vazios inscritos em mim.
É hora de desejar o teu abraço.
deixando o foguetório para trás.
Chegado ao lugar de partida...da solidão
encontro-me e repouso.
Agora permito-me sentir a dor
dos vazios inscritos em mim.
É hora de desejar o teu abraço.
sábado, 26 de abril de 2014
Mãos trémulas
Não sentia este tremer.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Somos dois em um
Poderemos ser um
no dia em que formos dois.
O amor exige este paradoxo.
Só dois seres livres,
autónomos e crescidos
poderão construir
um amor a dois.
Noutros casos será outra coisa.
no dia em que formos dois.
O amor exige este paradoxo.
Só dois seres livres,
autónomos e crescidos
poderão construir
um amor a dois.
Noutros casos será outra coisa.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
O guerreiro
Pedra sobre pedra
construí muralhas
em cima de areia.
Fui guerreiro
contra moinhos de vento.
Como poderia decifrar os medos
duma criança em silêncio?
construí muralhas
em cima de areia.
Fui guerreiro
contra moinhos de vento.
Como poderia decifrar os medos
duma criança em silêncio?
terça-feira, 22 de abril de 2014
Pais
Pensávamos ser dois vértices
de um triângulo por construir.
O terceiro vértice exigiu de nós
o que não poderíamos dar.
Talvez não soubéssemos
o que era um triângulo.
Manuel Campus
de um triângulo por construir.
O terceiro vértice exigiu de nós
o que não poderíamos dar.
Talvez não soubéssemos
o que era um triângulo.
Manuel Campus
segunda-feira, 21 de abril de 2014
A Fábrica
Era
uma espécie de corpo vivo, dinâmico. Em
fundo ouvia-se sempre o ruído continuo de motores.
Vivia
paredes-meias com o pulsar de uma indústria de fiação que empregava mais de
dois mil trabalhadores, na sua maioria mulheres. As mudanças de turno
correspondiam às horas mais agitadas na rua: às 6, às 14 e às 22 horas.
Conheci
a Fábrica já depois de 1974, quando entrara na sua fase descendente. A
concorrência dos mercados estrangeiros estava a instalar-se e o tecido ali
produzido a perder terreno. Chegou a ser
uma das indústrias mais importante do país. Em tempos mais recuados chegara a
ter uma creche, para os filhos dos funcionários, e até uma enfermaria equipada
para fazer partos.
A
Fábrica tinha um aspecto imponente e alguns dos seus edifícios beleza
arquitectónica. Marcava de forma indelével a paisagem da zona e a actividade
económica da comunidade que se instalara à sua volta.
Sentíamos
o pulsar da Fábrica, o seu frenesim transmitia-se ao quotidiano da comunidade,
até porque boa parte das pessoas ali trabalhava. Muitas conversas em família
giravam em torno da actividade da fábrica: a quantidade de veiculos pesados que
entravam e saíam, os acidentes com trabalhadores e a presença da ambulância, avarias
das máquinas, histórias acerca de novos e velhos trabalhadores, relações
profissionais...
A
decadência da Fábrica arrastou quase toda a comunidade. Grande parte do
comércio fechou portas, muitas famílias saíram dali e outras enfrentaram
situações de pobreza, droga e exclusão social.
Quando
ali regresso, observo ainda a Fábrica em escombros, como se fosse uma ferida que
teima em não sarar. Os que ficaram dizem-me: “isto aqui morreu com a Fábrica”.
Manuel Campus
domingo, 20 de abril de 2014
A minha escrita.
Descobri a urgência de escrever.
Tornei-me dependente da minha escrita
e ela amante da minha solidão.
Só escrevo porque me convém
e por uma razão justa.
Percebi que escrevendo
crio um movimento alado,
transformador e libertador
de uma parte da vida
que ficou lá atrás. Manuel Campus
.
Tornei-me dependente da minha escrita
e ela amante da minha solidão.
Só escrevo porque me convém
e por uma razão justa.
Percebi que escrevendo
crio um movimento alado,
transformador e libertador
de uma parte da vida
que ficou lá atrás. Manuel Campus
.
sábado, 19 de abril de 2014
O catecismo
O catolicismo entrava em casa
pela mão da minha mãe. Assumia-se como católica praticante e fez um esforço
para que todos os filhos tivessem uma educação seguindo os cânones da Igreja
Católica. O meu pai mostrava-se um homem de fé, mas tinha desconfiança quanto à
acção dos elementos do clero.
Durante vários anos, acordava na
sexta-feira santa ao ritmo dos êxitos de Frei Hermano da Câmara. A minha mãe,
num fervor de fé, acompanhava os cânticos sem grandes preocupações com a
afinação, enquanto fazia a lida da casa.
A minha avó materna alimentou a
esperança que seria eu o elemento enviado à família para seguir os caminhos da
fé ao serviço da igreja. Gostava de me ouvir cantar. Dizia recorrentemente que
tinha uma voz bonita e que poderia fazer os estudos em Teologia. Uns bons anos
antes, o meu tio tinha andado nos Salesianos, mas desistira a meio do percurso.
A esperança da avó em ter um descendente no Clero ter-se-ia renovado com o meu
aparecimento. Foi talvez uma ilusão que durou até aos meus doze, treze anos.
De toda a fratria fui o elemento
que terá tido uma maior exposição aos ensinamentos da santa igreja. Foram seis
anos de catequese. Fiz a Profissão de Fé graças à perseverança, à bondade e
investimento da catequista “ Lailai”, que nos quinto e sextos anos nos recebeu
em sua casa – a mim e a mais dois os três diabretes. A sua generosidade não
teve limites e talvez por essa razão a recorde sempre com muito carinho.
Era matriarca de uma família
extensa. A “Lailai” vivia sozinha numa casa cheia de recordações de um passado feliz. A sua idade avançada já
lhe colocava limitações físicas, contudo fez questão de estar connosco até ao
sexto ano. Fomos os seus últimos catequizados.
Utilizou as estratégias mais
doces – oferecendo várias guloseimas - para nos manter focados no objectivo. Ela
só pedia uns poucos minutos da nossa atenção aos conteúdos do catecismo, o
tempo restante era utilizado para brincar numa casa que mais parecia cenário de
filme. Guardo ainda os postais que me enviava quando visitava Fátima.
Invariavelmente o texto era: em Fátima rezei por ti. Um beijinho da tua
catequista “Lailai”.
Com a entrada na adolescência, a
educação católica foi muito contestada por mim e arrumada numa gaveta, talvez porque
a fé da minha mãe tenha esmagado a minha tentativa de dar sentido àqueles
mistérios. Entrei em ruptura com a obrigatoriedade da missa todos os domingos:
nos bancos da frente da igreja, junto das viúvas beatas, cheias de verrugas,
que tinha de cumprimentar em determinado momento do ritual eucarístico.
Mais tarde viria a reconhecer para mim próprio
que a educação católica foi um factor estruturante no meu crescimento.
Manuel Campus
Arco Íris
Não quero guardar rancor
nem criar expectativas
em relação aos outros.
No futuro, quero apenas a ilusão necessária
Para distinguir as cores do Arco Íris.
Manuel Campus
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Só queria crescer.
Foste um pôr do sol
que me fez recear a noite.
Não soubeste dar sentido
às minhas primeiras angústias.
Quando caminhei a teu lado,
por vezes olhava e não te via,
como quem olha um espelho
que reflecte o vazio.
Talvez te parecesse estranho,
mas eu só queria crescer.
Manuel Campus
que me fez recear a noite.
Não soubeste dar sentido
às minhas primeiras angústias.
Quando caminhei a teu lado,
por vezes olhava e não te via,
como quem olha um espelho
que reflecte o vazio.
Talvez te parecesse estranho,
mas eu só queria crescer.
Manuel Campus
quinta-feira, 17 de abril de 2014
As histórias
As minhas histórias aqui partilhadas
foram depuradas após serem resgatadas pela memória.
Ao escreve-las sou eu a tomar conta delas.
A tomar conta da criança que as viveu.
Aprendi no divã se não tomasse conta delas
estariam elas a tomar conta de mim,
transformando o futuro num passado imenso.
Manuel Campus
foram depuradas após serem resgatadas pela memória.
Ao escreve-las sou eu a tomar conta delas.
A tomar conta da criança que as viveu.
Aprendi no divã se não tomasse conta delas
estariam elas a tomar conta de mim,
transformando o futuro num passado imenso.
Manuel Campus
terça-feira, 15 de abril de 2014
Calo-me
Dizem-me que está tudo bem, desde que o filho não seja "um gay".
Calo-me e disfarço a decepção.
Calo-me e prevejo o que aí vem.
Não está tudo bem.
A falta que dói.
Nunca imaginaste a tua falta.
Estavas lá, ausente.
Absorvi a tua dor.
Ignoraste como eras importante.
Viveste morto por dentro,
com emoções emparedadas
numa cripta
isolado do que te rodeava.
Para ti é tarde. Não faz mal.
Por mim reinvento-te todos os dias.
Manuel Campus
Estavas lá, ausente.
Absorvi a tua dor.
Ignoraste como eras importante.
Viveste morto por dentro,
com emoções emparedadas
numa cripta
isolado do que te rodeava.
Para ti é tarde. Não faz mal.
Por mim reinvento-te todos os dias.
Manuel Campus
segunda-feira, 14 de abril de 2014
A cabra
O leite jorrava quente e espesso das
tetas da cabra que a minha avó materna ordenhava, com as suas mãos grandes,
fortes e vigorosas, mãos de quem trabalhava o campo de sol a sol. Era quase
impossível beber o leite assim directo da ordenha. Tinha um sabor forte e
intenso. Para cortar o sabor, a minha avó colocava um pouco de café da
cafeteira. Aquele café era feito de manhã no lume da lareira, numa cafeteira de
dois litros e que dava para o dia inteiro. Quando lá passava alguns dias das
férias escolares, sobretudo no verão, adorava assistir aquele momento que era
de uma ternura assinalável para mim. Nunca me foi permitido ordenhar a cabra. A
minha integridade física ficava em risco.
A cabra assumia-se como muito
independente, pouco submissa, bonita, ágil e só a dona tinha permissão para
ordenhar, mais ninguém ousava tal acção. Porquê? Porque a pessoa que o fizesse
estaria à mercê de um coice violento ou uma marrada.
O animal assumia um papel preponderante
na economia do agregado: alimentava-se do pasto que cobria as terras, o estrume
que produzia era o único fertilizante utilizado na terra para fazer horta, o
leite, e o queijo daí derivado, fazia parte da alimentação diária. A cabra era
fonte de riqueza. Juntamente com a burra, tinha os seus aposentos na loja da
casa, paredes meias com a habitação – tão próximas
de nós que quase as ouvíamos respirar no silêncio da noite.
Pela manhã serviam de despertador,
com o seu momento de exaltação, quando a minha avó entrava na loja para as
alimentar.
Habituei-me a olhar a cabra como
um animal elegante e asseado. Não tinha dificuldades em ajudar a minha avó a
fazer a limpeza da loja, removendo o estrume.
O que perpassou com intensidade
na minha memória, nestes anos, foi o sabor do leite com café, acompanhado de
pão caseiro quente recheado com azeite e açúcar. Muitas vezes ia lanchar para
junto da cabra como se quisesse compartilhar com ela aqueles sabores
transformados em afectos, que ainda hoje guardo com carinho. Esses afectos fazem
parte de mim, são íntimos.
Dizem os mais sábios que a vida é
uma roda, voltamos sempre ao ponto de partida. Seguindo este princípio é
provável que venha a encontrar a cabra e voltar a lanchar junto dela.
Manuel Campus
domingo, 13 de abril de 2014
Só quero saber de mim.
Não posso querer saber dos outros.
Chamem-me egoísta, auto centrado, distraído.
Procuro-me. Procuro o meu lugar.
De que perspectiva, de que lugar
poderia olhar os outros, saber deles?
Mesmo que me procurem,
como me poderão encontrar
se ainda não sei onde estou. Manuel Campus
Chamem-me egoísta, auto centrado, distraído.
Procuro-me. Procuro o meu lugar.
De que perspectiva, de que lugar
poderia olhar os outros, saber deles?
Mesmo que me procurem,
como me poderão encontrar
se ainda não sei onde estou. Manuel Campus
sábado, 12 de abril de 2014
O sétimo i.
Corria o ano
lectivo de 1983/84. O 7º i tinha uma equipa espectacular a jogar futebol.
Chegamos mesmo à final do torneio escolar. O mesmo já não se podia dizer em
relação ao rendimento escolar. Era a turma i, a última do 7º ano a ser
constituída. Nela couberam os repetentes e aqueles cujos pais não regatearam a
entrada dos filhos para turmas com letras antes do i. Penso que ainda hoje este tipo de situação acontece nas escolas.
Ganhamos aos oitavos, nonos, décimos
e décimos primeiros anos. Eu era o mais novo da turma e da equipa com 13 anos.
Os restantes elementos tinham 14, 16 e até 17 anos.
Malta com várias
repetências. A vontade de jogar à bola era inversamente proporcional à vontade
de estudar. Nesse ano, os casos de indisciplina sucediam-se a um ritmo
vertiginoso. Era rara a semana que não houvesse um conselho de turma. Tenho uma
vaga ideia que só não ganhamos a final do torneio porque o nosso melhor jogador
estava suspenso das aulas.
Era um craque
fabuloso, mas com manifestas dificuldades emocionais. Não aceitava ser
contrariado. Tinha uma baixa resistência à frustração. Provavelmente por essa razão não conseguiu ter uma carreira futebolística num clube importante.
Uma vez na aula ameaçou
bater na professora de Inglês - que tinha a pouca abonatória alcunha de Cavalo
de Tróia. A senhora era feia, falava muito alto, num tom estridente e irritante,
dando vários indícios que ouvia muito mal. Temi pela sua integridade física.
Alguém terá convencido o M. a sair da sala para que não chegasse a vias de
facto com a professora.
O M. tinha carapinha farta até aos ombros, num estilo próprio dos
anos oitenta do século passado. A nossa preocupação nos jogos era passar-lhe a
bola que ele resolvia a nosso favor. Deixou de aparecer na escola ainda antes
do ano lectivo acabar. Só voltei a ouvir falar dele uns bons anos mais tarde.
Disseram-me que tinha morrido a trabalhar ao volante de um camião.
Manuel Campus
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Do naufrágio ao divã
O divã é uma espécie de bote salva vidas que nos conduz até terra firme quando parecemos sucumbir aos naufrágios da vida. Construído à nossa medida enfrentaremos as tormentas necessárias à superação de nós mesmos.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
O Timex azul
Os tios haviam chegado de Lisboa.
À época o ar condicionado nos automóveis não existia, pelo que chegaram
sequiosos por uma bebida fresca. Corriam os primeiros dias de um Junho quente.
Tinha terminado a 1ª classe e naquele dia iria receber um dos sacramentos da
igreja católica - a 1ª comunhão.
Estava todo janota. Camisa
branca, jaqueta e calções em azul-escuro, meias brancas e sapatos pretos. Pouco tempo antes da
cerimónia os tios abordaram-me e ofereceram-se o Timex azul. Condizia com a
vestimenta e era muito bonito. Disse para mim – o meu relógio. Acho que passei parte da cerimónia a ver as horas.
Ao longo dos anos afeiçoei-me ao Timex de fundo azul, raramente saía do pulso. Deixei de o usar já na adolescência - nesta fase da vida queremos estar o mais longe possível da infância. Gritamos ao mundo que já somos crescidos e não aceitamos ser confundidos com uma criança.
Era um relógio com ponteiros das horas, dos minutos e dos segundos. Dizia-me também o dia da semana e do mês. Quando encostava o ouvido perscrutava um suave tic tac sempre sem
parar. Era como se ouvisse o seu coração. Talvez desejasse que fosse um ser
vivo…um amigo. Fazia-me companhia e permitia que organizasse e controlasse mais
o meu dia. Talvez sentisse essa necessidade. A verdade é que o Timex azul
permitia-me um estranho bem-estar. Preservei-o sempre das brincadeiras mais
violentas e capazes de o danificar. Cuidei-o de tal forma que o suave tic tac
nunca parou de bater.
Esteja onde estiver o Timex azul nunca deixou de fazer
tic tac. Por vezes, procuro-o nas montras no meio de outros relógios. Procuro o Timex talvez para recuperar uma certa infância em tons de azul. Apetecia-me vê-lo e encostar o ouvido.
Manuel Campus
terça-feira, 8 de abril de 2014
Francisco, o professor.
Os ecos da revolução de Abril ainda se ouviam. Os retratos de Carmona e Salazar já tinham sido retirados das paredes, assim como a Cruz de
Cristo. O Estado tornara-se democrático e laico. Os tiques repressivos em
determinadas áreas mantinham-se. Na escola, a autoridade do professor era em
muitas situações exercida pela força.
Francisco era professor primário há poucos anos. Corpulento,
ar austero, com dificuldade em esboçar sorrisos, óculos que lhe cobriam metade
da face, sendo a outra metade preenchida com as suas enormes patilhas. Apesar
da sua juventude, a fama de disciplinador já se espalhara. Os que tinham irmãos
mais velhos já sabiam os métodos utilizados por Francisco. Materiais
utilizados: uma cana-da-índia e uma régua de pau à qual tinha dado o nome de Palmira.
Fiquei sempre com a curiosidade de perceber a razão daquele nome. Teria ele
tido uma mãe ou madrasta austera e quisera-lhe prestar algum tipo de tributo?
Naquela época, muitos pais entregavam os filhos aos
professores e convidavam-nos a exercer os seus métodos disciplinadores sempre
que houvesse algum mais irrequieto. Francisco, do alto da sua sobranceria, dizia
em tom grave para a minha mãe:
- Fique descansada que ele respeitará as minhas ordens.
Desde início ficaram estabelecidas as premissas da relação
com Francisco. Ele mandava e eu obedeceria sem pestanejar. Caso contrário
haveria de doer alguma parte do corpo.
Não sendo um aluno brilhante não era dos piores, ainda assim
não me livrei de experimentar a Palmira em acção. Terá sido num ditado em que
cheguei aos três erros ortográficos. A palma da mão que tinha levado com a (Palm)Ira ficara incandescente e
deixara de a sentir durante alguns segundos.
Francisco era um homem de sangue quente, na hora de bater
ficava fora de si. Volta e meia relembro as caras de sofrimento dos colegas que
tinham mais dificuldades na aprendizagem e consequentemente apanhavam mais. A
Palmira entrava em acção mesmo que as pequenas mãos se fechassem de medo. Batia
onde fosse possível, menos na cabeça. Hoje são adultos aparentemente saudáveis,
mas quando os revejo recordo aqueles momentos de terror.
O professor não poupava sequer as meninas à sua disciplina
avassaladora. Recordo uma colega que, por ter errado alguns exercícios de
matemática - isto na 2ª classe - fora chamada junto à secretária do professor
para lhe ser infligindo o respectivo castigo. Nesse dia escapou à Palmira: uma poça de chichi junto aos pés livrara-a de apanhar. Francisco ficara
surpreendido com a sucedido, chamando de imediato a Contínua para fazer a
limpeza do chão.
Chegados à 3ª classe, ficámos a saber que Francisco não seria
o nosso professor naquele ano. Seguiu-se um sentimento generalizado de alívio.
Viemos a saber mais tarde que teria ido tratar problemas nervosos - pudera.
Mesmo naquela época, mesmo num meio conservador como aquele, a situação
repressiva de Francisco para com os alunos tornara-se insustentável. Pais mais
atentos terão denunciado a violência praticada por Francisco.
Francisco haveria de voltar a ser nosso Professor na 4ª
classe, mas com métodos disciplinares muito mais moderados.
Até há poucos anos, quando nos encontrávamos na rua,
cumprimentava-me sempre de forma muito afável. Contudo, essa afabilidade não
apagou da memória a dor provocada por Palmira - a régua.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Signo fogo.
A época de Estio tinha-se
prolongado por Outubro dentro. Na minha terra acredita-se que, tal como o de S.
Martinho, há um Verão fora de estação... chamam-lhe o Verão de Santa Iria - a padroeira. Os incêndios não davam
tréguas. Tenho memória que sempre houve muitos por aquelas bandas.
Contaram-me que naquele dia um
fogo de grandes dimensões rondava a vinha e via-se das habitações. Os bombeiros
não tinham mãos a medir. Os populares num corrupio. Uns agarravam em baldes com
água, outros em qualquer coisa que desse para travar o avanço das chamas. As
mulheres tentavam cuidar da fome e sede de quem enfrentava aquele inferno.
O ambiente de grande aflição, com
o fogo às portas do Casal, talvez tenha contribuído para que a minha mãe
entrasse em trabalho de parto. De repente surgia outro tipo de preocupação.
Havia que ir depressa para a maternidade – hoje transformada em esquadra da
Policia – para que eu nascesse. Nascer neste cenário talvez explique parte das
inquietações e ansiedades que me têm acompanhando.
A minha mãe foi de boleia com uns
tios que viviam perto. O meu pai ficou para proteger os bens. Poucas horas
depois, chegava a casa a noticia que nascera o 5º e último da fratria, de parto
natural e sem complicações. Nessa altura já o fogo estava extinto. Não se tinham registado prejuízos de maior. Apenas o mato ardera. A vinha tinha sido poupada
às chamas.
O pai do bebé nascido quis premiar o esforço
dos bombeiros e festejar o nascimento do filho, convidando bombeiros e vizinhos
para a adega. Rezam as histórias, que se contaram ao longo dos anos seguintes,
que muitos saíram de lá a cambalear.
Manuel Campus
Release me
Oh, dear dad, can you see me now
I am myself, like you somehow
I am myself, like you somehow
I'll ride the wave where it takes me
I'll hold the pain
I'll hold the pain
Release me
sábado, 5 de abril de 2014
O lado cruel
Por vezes dou por mim a pensar
como fui capaz de fazer aquelas coisas. Submeter ao sacrifício animais de
pequeno porte, tais como rãs, moscas e moscardos. De facto, a imaginação não
tem limites e a crueldade também não. Naqueles anos, entre a infância e a
adolescência, as brincadeiras atingiam patamares de grande crueldade. O prazer
trazia um lado mórbido com o sofrimento daqueles bichos.
Quando brincávamos aos médicos,
eram as rãs, que existiam no rio ou em pequenos charcos das redondezas, as cobaias
das cirurgias com bisturis em madeira e outros materiais cirúrgicos muito
rudimentares. O pior de tudo era a cirurgia não ser precedida de qualquer
anestesia. Eu e outros carniceiros lá da rua ignorávamos por completo o
sofrimento que estávamos a infligir. Se neste caso até poderei ter alguma
desculpa, dizendo que era influenciado pelo grupo e tal…no sacrifício das
moscas actuava sozinho, não precisava de companhia. Neste caso, o meu
sadismo não tem qualquer perdão.
Nas tardes de Verão menos
interessantes dava por mim a apanhar moscas, a arrancar-lhe as asas e a projectar
os pobres dos insectos contra teias de aranha suficientemente robustas para as
aparar e segurar. Até me custa dizer, mas gostava de ver a aranha, sentindo o
estremecer da teia, a sair do esconderijo construído numa das franjas e
habilmente a dirigir-se para a presa tecendo-a numa espécie de mortalha para
se alimentar dela mais tarde. Como fui capaz de retirar algum prazer disto?
No caso dos moscardos, a tirania
era também efectuada em grupo. No Verão, junto ao rio, enquanto nos banhávamos apareciam
uns gigantes. Chegavam mesmo a picar-nos quando estávamos a secar ao sol. Para
gáudio de todos, um de nós apanhava um bicho daqueles, detentor de asas
grandes, espetava uma palhiço no rabo e era vê-lo voar… Sadismo em estado
bruto. Que crianças imaturas e insensíveis aquelas. Não era possível exprimir
qualquer sentimento em relação aqueles actos bárbaros sob pena de ficarmos com o
epíteto de mariquinhas. Como era possível, não haver por ali um adulto ou outro
a censurar aquelas brincadeiras. A supervisão era muito larga naquele tempo. Estávamos
entregues a nós. Havia apenas uma espécie de check-points à hora das refeições.
Ao longo dos anos, acho que
acompanhei o percurso de evolução e crescimento da espécie. Hoje sou incapaz de
matar uma mosca. Na verdade, talvez mesmo formigas, a não ser que esteja muito
irritado com elas.
Manuel
Campus
sexta-feira, 4 de abril de 2014
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Livros de cowboys
A derrocada acontecera há poucos minutos. No prédio só vivia
o Sr. Carvalheiro. - Será que estava em casa? – Perguntavam uns. Outros mais
aflitos gritavam: - ai que o Carvalheiro ficou lá debaixo! Os bombeiros
chegaram e começaram as buscas para perceber se havia alguém debaixo dos
escombros.
Pouco tempo depois, foram encontrar o Senhor sentado na sanita
em estado de choque. A casa de banho era a única divisão da casa que ficara de
pé. A necessidade de se aliviar naquele instante tinha-o salvo da tragédia –
Milagre! - Comentavam os mirones que por
ali se juntaram a assistir aos trabalhos dos bombeiros.
O Sr. Carvalheiro já se reformara há alguns anos da
papelaria/tabacaria de que era proprietário, numa das ruas mais movimentadas lá
da terra. O estabelecimento era um espaço escuro, taciturno com jornais, livros
papelada diversa amontoada ao longo do balcão e das prateleiras. Talvez não
fosse bem assim. O Sr. Carvalheiro dizia, com
sentido de humor, que a sua loja tinha uma ordem muito própria, o caos
que se observava de fora era apenas a sua forma de organização. Talvez o Sr.
Carvalheiro tivesse lido alguma coisa acerca da teoria do Caos de Nietzsche. A
verdade é que ele sabia sempre onde estava tudo. A começar pelas centenas de
livros de cowboys e de outras histórias de banda desenhada que tinha para venda e troca.
Recordo que ele era um verdadeiro entusiasta da troca de
livros de cowboys. Tinha sempre novidades para nos surpreender. A nós, os mais
pequenos, e até a adultos que também se dedicavam a estas leituras. O Sr.
Carvalheiro projectava a voz de forma descontrolada. Um vozeirão.
Não era fácil
para uma criança da nossa idade entrar naquele espaço sozinho. O medo era
potenciado nas vezes em que não estava nenhum cliente: o Sr. Carvalheiro
emergia do fundo do estabelecimento, da escuridão, e exclamava: - então, o que
vai ser? Quando ali entrávamos parecia que estávamos numa cena de um filme de
suspense . O espaço tinha o seu quê de mágico e fascinante. Cheguei mesmo a
sonhá-lo.
Manuel Campus
quarta-feira, 2 de abril de 2014
O último combatente
Chamavam-lhe Bandarra porque
exercera pacientemente a
profissão de Sapateiro toda a vida. A sua oficina tinha funcionado num anexo,
nas traseiras de sua casa, durante
dezenas de anos. Conheci-o já muito velho. Nas manhãs ensolaradas de Inverno
sentava-se numa cadeira muito pequena junto à soleira da porta, para desfolhar
o jornal diário.
Um dia, o Ti Jerónimo, nome pelo qual carinhosamente o
tratavam, resolveu interpelar-me quando seguia a caminho da escola.
Perguntou-me em que classe eu andava e se gostava de ler. Confesso que fiquei
um pouco atónico com a abordagem, até porque passava ali todos os dias e não
reparava nele, talvez dissesse bom dia como diziam todas as pessoas lá da rua
quando se cruzavam. Balbuciei as respostas. Disse-lhe que andava na 4ª classe e
que gostava de ler. Ti Jerónimo sorriu e parece que descansou com aquilo que
lhe dissera.
Depois fiquei a perceber que ele
queria dizer-me algo mais. De repente olhou-me fixamente e atirou com a voz
cansada:
- Sabes, combati na 1ª Guerra
Mundial, em França. Vivos só estou eu e um outro camarada. Vemo-nos todos os
anos nas comemorações do Armistício, junto à estátua do Soldado Desconhecido.
Do grupo de sobreviventes já quase todos tombaram – sorriu e não disse mais
nada.
Era uma espécie de confissão
sussurrada tal era baixo o tom de voz. Intrigado, retomei o caminho da escola e
ao longo de muitos anos guardei esta interrogação: porque me terá contado aquilo?
Fui tentando encontrar respostas.
A certa altura fiquei convencido que tinha sido escolhido por ele para o ajudar
a perpetuar aquela memória tão importante, pois a sua morte estaria próxima. A
estupefacção deu lugar a um sentimento de orgulho. Afinal fora ele o herói que
me escolhera para o escutar. Fi-lo com todo o prazer, de tal modo que me parece estar ainda a ouvi-lo.
Abre olhos do dia
Tu és super especial, mas tenta não ser tão emotiva. Parece-me que crias elevadas expectativas sobre as pessoas e depois quando te fazem algo desagradável, a tendência é que tenha um grande impacto em ti. Tenta também dar a outra face e compreender que as pessoas têm as suas limitações, sejam ou não maliciosas.
terça-feira, 1 de abril de 2014
A primeira pescaria
Na noite anterior quase não
preguei olho, tal era o estado de ansiedade. No dia seguinte iria acompanhar o
grupo dos jovens mais velhos numa pescaria e a custo terminara de construir uma
cana rudimentar – uma cana-da-índia, um fio de pesca, uma pequena bóia e um
anzol. O isco seria retirado de um naco de pão: pequenas bolinhas feitas de
migalhas que espetaria no anzol.
A minha cana de pesca! Disse para
mim mesmo vezes sem conta.
À revelia de todos, guardeia-a debaixo da cama
naquela noite. Estavam reunidas as condições para tentar pescar o primeiro
peixe, tal como faziam os mais velhos. Como seria ter o prazer de pescar um
peixe só meu? Será que conseguiria apanhar algum? Entre o prazer de pescar e o
medo de não conseguir ficou uma noite mal dormida. Afinal, o sonho estava
prestes a acontecer, mas não durante o sono.
O Verão ia firme e seguro e havia
promessa de dia quente. Preparei o farnel e coloquei na mochila também calções
que haveriam de servir para um banho retemperador no rio, quando o sol
estivesse a pino.
Procurámos a margem onde o rio
tivesse maior corrente. A maioria dos peixes gosta de nadar contra a corrente.
Só quem nada contra a corrente sabe a sua força. Os peixes sabem-no. É ali que
a vida tem mais sabor. A água é mais saudável e traz os alimentos mais ricos.
Poucos minutos depois, a pescaria
haveria de ser interrompida abruptamente. Um Barbo com cerca de um quilo
resolveu abocanhar o meu anzol. A pressão exercida na cana foi de tal ordem que
quase me atirou para dentro do rio, não fora a ajuda pronta do Azeitona, um dos
mais experientes nestas andanças.
Naquele momento foi crucial dar
um pouco de fio para a presa se cansar e para que a cana não se partisse. Ao fim
de alguns minutos, conseguimos tirar o peixe da água. Parecia-me enorme. Batia
as barbatanas ferozmente. Acho que receei o animal. O balde que levara era
pequeno. Com um balde de empréstimo consegui levá-lo para o tanque lá de casa.
Depois a questão que se colocou
foi o que fazer com o peixe, que começou a definhar de dia para dia. Percebera
que ele não conseguia alimentar-se por causa da ferida provocada pelo anzol.
Com o decorrer dos dias experimentei de tudo para o salvar. No dia em que
apareceu à tona de água fiquei numa tristeza imensa. O afecto que desenvolvi
pelo peixe durante a sua agonia foi de tal ordem que haveria de lhe fazer um
funeral com direito a covato na horta ao lado. Acho que lhe pedi desculpa pela
estupidez uma dezena de vezes.
Depois destes acontecimentos,
nunca mais regressaria à pesca.
Manuel Campus
Queria tanto uma casa no campo
Desfilamos no calendário cheios de contentamento, gritando que somos complexos. Que orgulho é ser complexo. O simples descomplicado jeito de ser está fora de moda. Entediante, até.
Mas depois. Depois, quando o tédio parte e o calendário desfila, na simplicidade do ser, percebemos que não mais podemos viver sem o simples.
Quero-te, assim, simplesmente. Sendo. Vamos sendo.
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