quarta-feira, 30 de abril de 2014

Perdoar

Viveste tempo demais em mim.
Tomei consciência
que carreguei culpa alheia
todos estes anos.
Zanguei-me a sério contigo e
tornei-te numa memória distante.
Talvez agora te possa perdoar.

terça-feira, 29 de abril de 2014

A liberdade de existir

Clausura maior e silenciosa.
Olho-me amorfo, escondido da vida,
amarrado a ti....a mim mesmo.
A tua ausência enredou-me
numa teia de medos.
Apetece-me gritar.
Quero a liberdade de existir.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Para ti

Não me olhaste no tempo certo
e o tempo necessário
para que sossegasse.
Sabias lá, a angústia crescente
nos momentos que dei por tua falta.
Acredito que se soubesses
não te ausentavas.
Não fossem os teus intervalos,
talvez conhecesse o amor.

domingo, 27 de abril de 2014

O lugar da solidão

Percorro caminho improbo
deixando o foguetório para trás.
Chegado ao lugar de partida...da solidão
encontro-me e repouso.
Agora permito-me sentir a dor
dos vazios inscritos em mim.
É hora de desejar o teu abraço.

sábado, 26 de abril de 2014

Mãos trémulas

Não sentia este tremer.
 Ignorava-o.
 O teu olhar fê-lo consciente.
 Talvez seja uma linguagem críptada
 de um mundo por descobrir em mim.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Somos dois em um

Poderemos ser um
no dia em que formos dois.
O amor exige este paradoxo.
Só dois seres livres,
autónomos e crescidos
poderão construir
um amor a dois.
Noutros casos será outra coisa.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O guerreiro

Pedra sobre pedra
construí muralhas
em cima de areia.
Fui guerreiro
contra moinhos de vento.
Como poderia decifrar os medos
duma criança em silêncio?

terça-feira, 22 de abril de 2014

Pais

Pensávamos ser dois vértices
de um triângulo por construir.
O terceiro vértice exigiu de nós
o que não poderíamos dar.
Talvez não soubéssemos
o que era um triângulo.

                                              Manuel Campus

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A Fábrica

Era uma espécie de corpo vivo, dinâmico.  Em fundo ouvia-se sempre o ruído continuo de motores.
Vivia paredes-meias com o pulsar de uma indústria de fiação que empregava mais de dois mil trabalhadores, na sua maioria mulheres. As mudanças de turno correspondiam às horas mais agitadas na rua: às 6, às 14 e às 22 horas.
Conheci a Fábrica já depois de 1974, quando entrara na sua fase descendente. A concorrência dos mercados estrangeiros estava a instalar-se e o tecido ali produzido a perder  terreno. Chegou a ser uma das indústrias mais importante do país. Em tempos mais recuados chegara a ter uma creche, para os filhos dos funcionários, e até uma enfermaria equipada para fazer partos.
A fiação era auto-suficiente em termos energéticos. A electricidade que consumia provinha de uma mini-hídrica construída para o efeito. Fora também construída uma vala de água com cerca de dois quilómetros, onde grande parte dos miúdos da rua aprendeu a nadar, eu incluído.
A Fábrica tinha um aspecto imponente e alguns dos seus edifícios beleza arquitectónica. Marcava de forma indelével a paisagem da zona e a actividade económica da comunidade que se instalara à sua volta.
Sentíamos o pulsar da Fábrica, o seu frenesim transmitia-se ao quotidiano da comunidade, até porque boa parte das pessoas ali trabalhava. Muitas conversas em família giravam em torno da actividade da fábrica: a quantidade de veiculos pesados que entravam e saíam, os acidentes com trabalhadores e a presença da ambulância, avarias das máquinas, histórias acerca de novos e velhos trabalhadores, relações profissionais...
A decadência da Fábrica arrastou quase toda a comunidade. Grande parte do comércio fechou portas, muitas famílias saíram dali e outras enfrentaram situações de pobreza, droga e exclusão social.
Quando ali regresso, observo ainda a Fábrica em escombros, como se fosse uma ferida que teima em não sarar. Os que ficaram dizem-me: “isto aqui morreu com a Fábrica”.

                                                                                                                         Manuel Campus

domingo, 20 de abril de 2014

A minha escrita.

Descobri a urgência de escrever.
Tornei-me dependente da minha escrita
e ela amante da minha solidão.
Só escrevo porque me convém
e por uma razão justa.
Percebi que escrevendo
crio um movimento alado,
transformador e libertador
de uma parte da vida
que ficou lá atrás.                   Manuel Campus
.

sábado, 19 de abril de 2014

O catecismo

O catolicismo entrava em casa pela mão da minha mãe. Assumia-se como católica praticante e fez um esforço para que todos os filhos tivessem uma educação seguindo os cânones da Igreja Católica. O meu pai mostrava-se um homem de fé, mas tinha desconfiança quanto à acção dos elementos do clero.
Durante vários anos, acordava na sexta-feira santa ao ritmo dos êxitos de Frei Hermano da Câmara. A minha mãe, num fervor de fé, acompanhava os cânticos sem grandes preocupações com a afinação, enquanto fazia a lida da casa.
A minha avó materna alimentou a esperança que seria eu o elemento enviado à família para seguir os caminhos da fé ao serviço da igreja. Gostava de me ouvir cantar. Dizia recorrentemente que tinha uma voz bonita e que poderia fazer os estudos em Teologia. Uns bons anos antes, o meu tio tinha andado nos Salesianos, mas desistira a meio do percurso. A esperança da avó em ter um descendente no Clero ter-se-ia renovado com o meu aparecimento. Foi talvez uma ilusão que durou até aos meus doze, treze anos.
De toda a fratria fui o elemento que terá tido uma maior exposição aos ensinamentos da santa igreja. Foram seis anos de catequese. Fiz a Profissão de Fé graças à perseverança, à bondade e investimento da catequista “ Lailai”, que nos quinto e sextos anos nos recebeu em sua casa – a mim e a mais dois os três diabretes. A sua generosidade não teve limites e talvez por essa razão a recorde sempre com muito carinho.
Era matriarca de uma família extensa. A “Lailai” vivia sozinha numa casa cheia de recordações  de um passado feliz. A sua idade avançada já lhe colocava limitações físicas, contudo fez questão de estar connosco até ao sexto ano. Fomos os seus últimos catequizados.
Utilizou as estratégias mais doces – oferecendo várias guloseimas - para nos manter focados no objectivo. Ela só pedia uns poucos minutos da nossa atenção aos conteúdos do catecismo, o tempo restante era utilizado para brincar numa casa que mais parecia cenário de filme. Guardo ainda os postais que me enviava quando visitava Fátima. Invariavelmente o texto era: em Fátima rezei por ti. Um beijinho da tua catequista “Lailai”.
Com a entrada na adolescência, a educação católica foi muito contestada por mim e arrumada numa gaveta, talvez porque a fé da minha mãe tenha esmagado a minha tentativa de dar sentido àqueles mistérios. Entrei em ruptura com a obrigatoriedade da missa todos os domingos: nos bancos da frente da igreja, junto das viúvas beatas, cheias de verrugas, que tinha de cumprimentar em determinado momento do ritual eucarístico.

 Mais tarde viria a reconhecer para mim próprio que a educação católica foi um factor estruturante no meu crescimento.

                                                                                                               Manuel Campus 

Arco Íris

Não quero guardar rancor
nem criar expectativas
em relação aos outros.
No futuro, quero apenas a ilusão necessária
Para distinguir as cores do Arco Íris.
                                                           Manuel Campus

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Só queria crescer.

Foste um pôr do sol
que me fez recear a noite.
Não soubeste dar sentido
às minhas primeiras angústias.
Quando caminhei a teu lado,
por vezes olhava e não te via,
como quem olha um espelho
que  reflecte o vazio.
Talvez te parecesse estranho,
mas eu só queria crescer.
                                                                         
Manuel Campus

quinta-feira, 17 de abril de 2014

As histórias

As minhas histórias aqui partilhadas
foram depuradas após serem resgatadas pela memória.
Ao escreve-las sou eu a tomar conta delas.
A tomar conta da criança que as viveu.
Aprendi no divã se não tomasse conta delas
estariam elas a tomar conta de mim,
transformando o futuro num passado imenso.
                                                                                   Manuel Campus

terça-feira, 15 de abril de 2014

Calo-me

Dizem-me que está tudo bem, desde que o filho não seja "um gay".
Calo-me e disfarço a decepção.
Calo-me e prevejo o que aí vem.
 Não está tudo bem.
 
 

A falta que dói.

Nunca imaginaste a tua falta.
Estavas lá, ausente.
Absorvi a tua dor.
Ignoraste como eras importante.
Viveste morto por dentro,
com emoções emparedadas
numa cripta
isolado do que te rodeava.
Para ti é tarde. Não faz mal.
Por mim reinvento-te todos os dias.

                                                         Manuel Campus

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A cabra

O leite jorrava quente e espesso das tetas da cabra que a minha avó materna ordenhava, com as suas mãos grandes, fortes e vigorosas, mãos de quem trabalhava o campo de sol a sol. Era quase impossível beber o leite assim directo da ordenha. Tinha um sabor forte e intenso. Para cortar o sabor, a minha avó colocava um pouco de café da cafeteira. Aquele café era feito de manhã no lume da lareira, numa cafeteira de dois litros e que dava para o dia inteiro. Quando lá passava alguns dias das férias escolares, sobretudo no verão, adorava assistir aquele momento que era de uma ternura assinalável para mim. Nunca me foi permitido ordenhar a cabra. A minha integridade física ficava em risco.
A cabra assumia-se como muito independente, pouco submissa, bonita, ágil e só a dona tinha permissão para ordenhar, mais ninguém ousava tal acção. Porquê? Porque a pessoa que o fizesse estaria à mercê de um coice violento ou uma marrada.
O animal assumia um papel preponderante na economia do agregado: alimentava-se do pasto que cobria as terras, o estrume que produzia era o único fertilizante utilizado na terra para fazer horta, o leite, e o queijo daí derivado, fazia parte da alimentação diária. A cabra era fonte de riqueza. Juntamente com a burra, tinha os seus aposentos na loja da casa, paredes meias com a habitação – tão próximas de nós que quase as ouvíamos respirar no silêncio da noite.
Pela manhã serviam de despertador, com o seu momento de exaltação, quando a minha avó entrava na loja para as alimentar.
Habituei-me a olhar a cabra como um animal elegante e asseado. Não tinha dificuldades em ajudar a minha avó a fazer a limpeza da loja, removendo o estrume.
O que perpassou com intensidade na minha memória, nestes anos, foi o sabor do leite com café, acompanhado de pão caseiro quente recheado com azeite e açúcar. Muitas vezes ia lanchar para junto da cabra como se quisesse compartilhar com ela aqueles sabores transformados em afectos, que ainda hoje guardo com carinho. Esses afectos fazem parte de mim, são íntimos.
Dizem os mais sábios que a vida é uma roda, voltamos sempre ao ponto de partida. Seguindo este princípio é provável que venha a encontrar a cabra e voltar a lanchar junto dela.
                                                Manuel Campus                                                                    

domingo, 13 de abril de 2014

Só quero saber de mim.

Não posso querer saber dos outros.
Chamem-me egoísta, auto centrado, distraído.
Procuro-me. Procuro o meu lugar.
De que perspectiva, de que lugar
poderia olhar os outros, saber deles?
Mesmo que me procurem,
como me poderão encontrar
se ainda não sei onde estou.                          Manuel Campus

sábado, 12 de abril de 2014

O sétimo i.

Corria o ano lectivo de 1983/84. O 7º i tinha uma equipa espectacular a jogar futebol. Chegamos mesmo à final do torneio escolar. O mesmo já não se podia dizer em relação ao rendimento escolar. Era a turma i, a última do 7º ano a ser constituída. Nela couberam os repetentes e aqueles cujos pais não regatearam a entrada dos filhos para turmas com letras antes do i. Penso que ainda hoje este tipo de situação acontece nas escolas.
Ganhamos aos oitavos, nonos, décimos e décimos primeiros anos. Eu era o mais novo da turma e da equipa com 13 anos. Os restantes elementos tinham 14, 16 e até 17 anos.
Malta com várias repetências. A vontade de jogar à bola era inversamente proporcional à vontade de estudar. Nesse ano, os casos de indisciplina sucediam-se a um ritmo vertiginoso. Era rara a semana que não houvesse um conselho de turma. Tenho uma vaga ideia que só não ganhamos a final do torneio porque o nosso melhor jogador estava suspenso das aulas.
Era um craque fabuloso, mas com manifestas dificuldades emocionais. Não aceitava ser contrariado. Tinha uma baixa resistência à frustração. Provavelmente por essa razão não conseguiu ter uma carreira futebolística num clube importante.
Uma vez na aula ameaçou bater na professora de Inglês - que tinha a pouca abonatória alcunha de Cavalo de Tróia. A senhora era feia, falava muito alto, num tom estridente e irritante, dando vários indícios que ouvia muito mal. Temi pela sua integridade física. Alguém terá convencido o M. a sair da sala para que não chegasse a vias de facto com a professora.
O M. tinha carapinha farta até aos ombros, num estilo próprio dos anos oitenta do século passado. A nossa preocupação nos jogos era passar-lhe a bola que ele resolvia a nosso favor. Deixou de aparecer na escola ainda antes do ano lectivo acabar. Só voltei a ouvir falar dele uns bons anos mais tarde. Disseram-me que tinha morrido a trabalhar ao volante de um camião.

                                                                                                                                         Manuel Campus

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Do naufrágio ao divã

O divã é uma espécie de bote salva vidas que nos conduz até terra firme quando parecemos sucumbir aos naufrágios da vida. Construído à nossa medida enfrentaremos as tormentas necessárias à superação de nós mesmos.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

O Timex azul

Os tios haviam chegado de Lisboa. À época o ar condicionado nos automóveis não existia, pelo que chegaram sequiosos por uma bebida fresca. Corriam os primeiros dias de um Junho quente. Tinha terminado a 1ª classe e naquele dia iria receber um dos sacramentos da igreja católica - a 1ª comunhão.
Estava todo janota. Camisa branca, jaqueta e calções em azul-escuro, meias brancas e sapatos pretos. Pouco tempo antes da cerimónia os tios abordaram-me e ofereceram-se o Timex azul. Condizia com a vestimenta e era muito bonito. Disse para mim – o meu relógio. Acho que passei parte da cerimónia a ver as horas.
Ao longo dos anos afeiçoei-me ao Timex de fundo azul, raramente saía do pulso. Deixei de o usar já na adolescência - nesta fase da vida queremos estar o mais longe possível da infância. Gritamos ao mundo que já somos crescidos e não aceitamos ser confundidos com uma criança. 
Era um relógio com ponteiros das horas, dos minutos e dos segundos. Dizia-me também o dia da semana e do mês. Quando encostava o ouvido perscrutava um suave tic tac sempre sem parar. Era como se ouvisse o seu coração. Talvez desejasse que fosse um ser vivo…um amigo. Fazia-me companhia e permitia que organizasse e controlasse mais o meu dia. Talvez sentisse essa necessidade. A verdade é que o Timex azul permitia-me um estranho bem-estar. Preservei-o sempre das brincadeiras mais violentas e capazes de o danificar. Cuidei-o de tal forma que o suave tic tac nunca parou de bater.
Esteja onde estiver o Timex azul nunca deixou de fazer tic tac. Por vezes, procuro-o nas montras no meio de outros relógios. Procuro o Timex talvez para recuperar uma certa infância em tons de azul.  Apetecia-me vê-lo e encostar o ouvido. 



                                                                                                                                   Manuel Campus

terça-feira, 8 de abril de 2014

Francisco, o professor.


Os ecos da revolução de Abril ainda se ouviam. Os retratos de Carmona e Salazar já tinham sido retirados das paredes, assim como a Cruz de Cristo. O Estado tornara-se democrático e laico. Os tiques repressivos em determinadas áreas mantinham-se. Na escola, a autoridade do professor era em muitas situações exercida pela força.
Francisco era professor primário há poucos anos. Corpulento, ar austero, com dificuldade em esboçar sorrisos, óculos que lhe cobriam metade da face, sendo a outra metade preenchida com as suas enormes patilhas. Apesar da sua juventude, a fama de disciplinador já se espalhara. Os que tinham irmãos mais velhos já sabiam os métodos utilizados por Francisco. Materiais utilizados: uma cana-da-índia e uma régua de pau à qual tinha dado o nome de Palmira. Fiquei sempre com a curiosidade de perceber a razão daquele nome. Teria ele tido uma mãe ou madrasta austera e quisera-lhe prestar algum tipo de tributo?
Naquela época, muitos pais entregavam os filhos aos professores e convidavam-nos a exercer os seus métodos disciplinadores sempre que houvesse algum mais irrequieto. Francisco, do alto da sua sobranceria, dizia em tom grave para a minha mãe:
- Fique descansada que ele respeitará as minhas ordens.
Desde início ficaram estabelecidas as premissas da relação com Francisco. Ele mandava e eu obedeceria sem pestanejar. Caso contrário haveria de doer alguma parte do corpo.
Não sendo um aluno brilhante não era dos piores, ainda assim não me livrei de experimentar a Palmira em acção. Terá sido num ditado em que cheguei aos três erros ortográficos. A palma da mão que tinha levado com a (Palm)Ira ficara incandescente e deixara de a sentir durante alguns segundos.
Francisco era um homem de sangue quente, na hora de bater ficava fora de si. Volta e meia relembro as caras de sofrimento dos colegas que tinham mais dificuldades na aprendizagem e consequentemente apanhavam mais. A Palmira entrava em acção mesmo que as pequenas mãos se fechassem de medo. Batia onde fosse possível, menos na cabeça. Hoje são adultos aparentemente saudáveis, mas quando os revejo recordo aqueles momentos de terror.
O professor não poupava sequer as meninas à sua disciplina avassaladora. Recordo uma colega que, por ter errado alguns exercícios de matemática - isto na 2ª classe - fora chamada junto à secretária do professor para lhe ser infligindo o respectivo castigo. Nesse dia escapou à Palmira: uma poça de chichi junto aos pés livrara-a de apanhar. Francisco ficara surpreendido com a sucedido, chamando de imediato a Contínua para fazer a limpeza do chão.
Chegados à 3ª classe, ficámos a saber que Francisco não seria o nosso professor naquele ano. Seguiu-se um sentimento generalizado de alívio. Viemos a saber mais tarde que teria ido tratar problemas nervosos - pudera. Mesmo naquela época, mesmo num meio conservador como aquele, a situação repressiva de Francisco para com os alunos tornara-se insustentável. Pais mais atentos terão denunciado a violência praticada por Francisco.
Francisco haveria de voltar a ser nosso Professor na 4ª classe, mas com métodos disciplinares muito mais moderados.
Até há poucos anos, quando nos encontrávamos na rua, cumprimentava-me sempre de forma muito afável. Contudo, essa afabilidade não apagou da memória a dor provocada por Palmira - a régua.
                                                                                                                       
                                           Manuel Campus                                                              
 
                                                                                                                        




I live in a hologram with you


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Signo fogo.

A época de Estio tinha-se prolongado por Outubro dentro. Na minha terra acredita-se que, tal como o de S. Martinho, há um Verão fora de estação... chamam-lhe o Verão de Santa Iria - a padroeira. Os incêndios não davam tréguas. Tenho memória que sempre houve muitos por aquelas bandas.
Contaram-me que naquele dia um fogo de grandes dimensões rondava a vinha e via-se das habitações. Os bombeiros não tinham mãos a medir. Os populares num corrupio. Uns agarravam em baldes com água, outros em qualquer coisa que desse para travar o avanço das chamas. As mulheres tentavam cuidar da fome e sede de quem enfrentava aquele inferno.
O ambiente de grande aflição, com o fogo às portas do Casal, talvez tenha contribuído para que a minha mãe entrasse em trabalho de parto. De repente surgia outro tipo de preocupação. Havia que ir depressa para a maternidade – hoje transformada em esquadra da Policia – para que eu nascesse. Nascer neste cenário talvez explique parte das inquietações e ansiedades que me têm acompanhando.
A minha mãe foi de boleia com uns tios que viviam perto. O meu pai ficou para proteger os bens. Poucas horas depois, chegava a casa a noticia que nascera o 5º e último da fratria, de parto natural e sem complicações. Nessa altura já o fogo estava extinto. Não se tinham registado prejuízos de maior. Apenas o mato ardera. A vinha tinha sido poupada às chamas.
O pai do bebé nascido quis premiar o esforço dos bombeiros e festejar o nascimento do filho, convidando bombeiros e vizinhos para a adega. Rezam as histórias, que se contaram ao longo dos anos seguintes, que muitos saíram de lá a cambalear.

                                                                                                                                 Manuel Campus

Release me

Oh, dear dad, can you see me now
I am myself, like you somehow
 
 
I'll ride the wave where it takes me
I'll hold the pain
Release me

sábado, 5 de abril de 2014

O lado cruel

Por vezes dou por mim a pensar como fui capaz de fazer aquelas coisas. Submeter ao sacrifício animais de pequeno porte, tais como rãs, moscas e moscardos. De facto, a imaginação não tem limites e a crueldade também não. Naqueles anos, entre a infância e a adolescência, as brincadeiras atingiam patamares de grande crueldade. O prazer trazia um lado mórbido com o sofrimento daqueles bichos.
Quando brincávamos aos médicos, eram as rãs, que existiam no rio ou em pequenos charcos das redondezas, as cobaias das cirurgias com bisturis em madeira e outros materiais cirúrgicos muito rudimentares. O pior de tudo era a cirurgia não ser precedida de qualquer anestesia. Eu e outros carniceiros lá da rua ignorávamos por completo o sofrimento que estávamos a infligir. Se neste caso até poderei ter alguma desculpa, dizendo que era influenciado pelo grupo e tal…no sacrifício das moscas actuava sozinho, não precisava de companhia. Neste caso, o meu sadismo não tem qualquer perdão.
Nas tardes de Verão menos interessantes dava por mim a apanhar moscas, a arrancar-lhe as asas e a projectar os pobres dos insectos contra teias de aranha suficientemente robustas para as aparar e segurar. Até me custa dizer, mas gostava de ver a aranha, sentindo o estremecer da teia, a sair do esconderijo construído numa das franjas e habilmente a dirigir-se para a presa tecendo-a numa espécie de mortalha para se alimentar dela mais tarde. Como fui capaz de retirar algum prazer disto?
No caso dos moscardos, a tirania era também efectuada em grupo. No Verão, junto ao rio, enquanto nos banhávamos apareciam uns gigantes. Chegavam mesmo a picar-nos quando estávamos a secar ao sol. Para gáudio de todos, um de nós apanhava um bicho daqueles, detentor de asas grandes, espetava uma palhiço no rabo e era vê-lo voar… Sadismo em estado bruto. Que crianças imaturas e insensíveis aquelas. Não era possível exprimir qualquer sentimento em relação aqueles actos bárbaros sob pena de ficarmos com o epíteto de mariquinhas. Como era possível, não haver por ali um adulto ou outro a censurar aquelas brincadeiras. A supervisão era muito larga naquele tempo. Estávamos entregues a nós. Havia apenas uma espécie de check-points à hora das refeições.
Ao longo dos anos, acho que acompanhei o percurso de evolução e crescimento da espécie. Hoje sou incapaz de matar uma mosca. Na verdade, talvez mesmo formigas, a não ser que esteja muito irritado com elas.


                                                                                                                            Manuel Campus

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Livros de cowboys

A derrocada acontecera há poucos minutos. No prédio só vivia o Sr. Carvalheiro. - Será que estava em casa? – Perguntavam uns. Outros mais aflitos gritavam: - ai que o Carvalheiro ficou lá debaixo! Os bombeiros chegaram e começaram as buscas para perceber se havia alguém debaixo dos escombros.
Pouco tempo depois, foram encontrar o Senhor sentado na sanita em estado de choque. A casa de banho era a única divisão da casa que ficara de pé. A necessidade de se aliviar naquele instante tinha-o salvo da tragédia – Milagre!  - Comentavam os mirones que por ali se juntaram a assistir aos trabalhos dos bombeiros.
O Sr. Carvalheiro já se reformara há alguns anos da papelaria/tabacaria de que era proprietário, numa das ruas mais movimentadas lá da terra. O estabelecimento era um espaço escuro, taciturno com jornais, livros papelada diversa amontoada ao longo do balcão e das prateleiras. Talvez não fosse bem assim. O Sr. Carvalheiro dizia, com   sentido de humor, que a sua loja tinha uma ordem muito própria, o caos que se observava de fora era apenas a sua forma de organização. Talvez o Sr. Carvalheiro tivesse lido alguma coisa acerca da teoria do Caos de Nietzsche. A verdade é que ele sabia sempre onde estava tudo. A começar pelas centenas de livros de cowboys e de outras histórias de banda desenhada que tinha para venda e troca.

Recordo que ele era um verdadeiro entusiasta da troca de livros de cowboys. Tinha sempre novidades para nos surpreender. A nós, os mais pequenos, e até a adultos que também se dedicavam a estas leituras. O Sr. Carvalheiro projectava a voz de forma descontrolada. Um vozeirão.
Não era fácil para uma criança da nossa idade entrar naquele espaço sozinho. O medo era potenciado nas vezes em que não estava nenhum cliente: o Sr. Carvalheiro emergia do fundo do estabelecimento, da escuridão, e exclamava: - então, o que vai ser? Quando ali entrávamos parecia que estávamos numa cena de um filme de suspense . O espaço tinha o seu quê de mágico e fascinante. Cheguei mesmo a sonhá-lo. 

                                                                                                                              Manuel Campus



quarta-feira, 2 de abril de 2014

O último combatente

Chamavam-lhe Bandarra porque exercera pacientemente a profissão de Sapateiro toda a vida. A sua oficina tinha funcionado num anexo, nas traseiras de sua casa, durante dezenas de anos. Conheci-o já muito velho. Nas manhãs ensolaradas de Inverno sentava-se numa cadeira muito pequena junto à soleira da porta, para desfolhar o jornal diário.
Um dia, o Ti Jerónimo, nome pelo qual carinhosamente o tratavam, resolveu interpelar-me quando seguia a caminho da escola. Perguntou-me em que classe eu andava e se gostava de ler. Confesso que fiquei um pouco atónico com a abordagem, até porque passava ali todos os dias e não reparava nele, talvez dissesse bom dia como diziam todas as pessoas lá da rua quando se cruzavam. Balbuciei as respostas. Disse-lhe que andava na 4ª classe e que gostava de ler. Ti Jerónimo sorriu e parece que descansou com aquilo que lhe dissera.
Depois fiquei a perceber que ele queria dizer-me algo mais. De repente olhou-me fixamente e atirou com a voz cansada:
- Sabes, combati na 1ª Guerra Mundial, em França. Vivos só estou eu e um outro camarada. Vemo-nos todos os anos nas comemorações do Armistício, junto à estátua do Soldado Desconhecido. Do grupo de sobreviventes já quase todos tombaram – sorriu e não disse mais nada.
Era uma espécie de confissão sussurrada tal era baixo o tom de voz. Intrigado, retomei o caminho da escola e ao longo de muitos anos guardei esta interrogação: porque me terá contado aquilo?
Fui tentando encontrar respostas. A certa altura fiquei convencido que tinha sido escolhido por ele para o ajudar a perpetuar aquela memória tão importante, pois a sua morte estaria próxima. A estupefacção deu lugar a um sentimento de orgulho. Afinal fora ele o herói que me escolhera para o escutar. Fi-lo com todo o prazer, de tal modo que me parece estar ainda a ouvi-lo.

  
                                                                                                                                        Manuel Campus

Abre olhos do dia

Tu és super especial, mas tenta não ser tão emotiva. Parece-me que crias elevadas expectativas  sobre as pessoas e depois quando te fazem algo desagradável, a tendência é que tenha um grande impacto em ti. Tenta também dar a outra face e compreender que as pessoas têm as suas limitações, sejam ou não maliciosas.
 
 

terça-feira, 1 de abril de 2014

A primeira pescaria


Na noite anterior quase não preguei olho, tal era o estado de ansiedade. No dia seguinte iria acompanhar o grupo dos jovens mais velhos numa pescaria e a custo terminara de construir uma cana rudimentar – uma cana-da-índia, um fio de pesca, uma pequena bóia e um anzol. O isco seria retirado de um naco de pão: pequenas bolinhas feitas de migalhas que espetaria no anzol.
A minha cana de pesca! Disse para mim mesmo vezes sem conta.
 À revelia de todos, guardeia-a debaixo da cama naquela noite. Estavam reunidas as condições para tentar pescar o primeiro peixe, tal como faziam os mais velhos. Como seria ter o prazer de pescar um peixe só meu? Será que conseguiria apanhar algum? Entre o prazer de pescar e o medo de não conseguir ficou uma noite mal dormida. Afinal, o sonho estava prestes a acontecer, mas não durante o sono.
O Verão ia firme e seguro e havia promessa de dia quente. Preparei o farnel e coloquei na mochila também calções que haveriam de servir para um banho retemperador no rio, quando o sol estivesse a pino.
Procurámos a margem onde o rio tivesse maior corrente. A maioria dos peixes gosta de nadar contra a corrente. Só quem nada contra a corrente sabe a sua força. Os peixes sabem-no. É ali que a vida tem mais sabor. A água é mais saudável e traz os alimentos mais ricos.
Poucos minutos depois, a pescaria haveria de ser interrompida abruptamente. Um Barbo com cerca de um quilo resolveu abocanhar o meu anzol. A pressão exercida na cana foi de tal ordem que quase me atirou para dentro do rio, não fora a ajuda pronta do Azeitona, um dos mais experientes nestas andanças.
Naquele momento foi crucial dar um pouco de fio para a presa se cansar e para que a cana não se partisse. Ao fim de alguns minutos, conseguimos tirar o peixe da água. Parecia-me enorme. Batia as barbatanas ferozmente. Acho que receei o animal. O balde que levara era pequeno. Com um balde de empréstimo consegui levá-lo para o tanque lá de casa.
Depois a questão que se colocou foi o que fazer com o peixe, que começou a definhar de dia para dia. Percebera que ele não conseguia alimentar-se por causa da ferida provocada pelo anzol. Com o decorrer dos dias experimentei de tudo para o salvar. No dia em que apareceu à tona de água fiquei numa tristeza imensa. O afecto que desenvolvi pelo peixe durante a sua agonia foi de tal ordem que haveria de lhe fazer um funeral com direito a covato na horta ao lado. Acho que lhe pedi desculpa pela estupidez uma dezena de vezes.
Depois destes acontecimentos, nunca mais regressaria à pesca.

                                                                                                                                         Manuel Campus

Queria tanto uma casa no campo

 
Desfilamos no calendário cheios de contentamento, gritando que somos complexos. Que orgulho é ser complexo. O simples descomplicado jeito de ser está fora de moda. Entediante, até.
Mas depois. Depois, quando o tédio parte e o calendário desfila, na simplicidade do ser, percebemos que não mais podemos viver sem o simples.
 
 
Quero-te, assim, simplesmente. Sendo. Vamos sendo.