Corria o ano
lectivo de 1983/84. O 7º i tinha uma equipa espectacular a jogar futebol.
Chegamos mesmo à final do torneio escolar. O mesmo já não se podia dizer em
relação ao rendimento escolar. Era a turma i, a última do 7º ano a ser
constituída. Nela couberam os repetentes e aqueles cujos pais não regatearam a
entrada dos filhos para turmas com letras antes do i. Penso que ainda hoje este tipo de situação acontece nas escolas.
Ganhamos aos oitavos, nonos, décimos
e décimos primeiros anos. Eu era o mais novo da turma e da equipa com 13 anos.
Os restantes elementos tinham 14, 16 e até 17 anos.
Malta com várias
repetências. A vontade de jogar à bola era inversamente proporcional à vontade
de estudar. Nesse ano, os casos de indisciplina sucediam-se a um ritmo
vertiginoso. Era rara a semana que não houvesse um conselho de turma. Tenho uma
vaga ideia que só não ganhamos a final do torneio porque o nosso melhor jogador
estava suspenso das aulas.
Era um craque
fabuloso, mas com manifestas dificuldades emocionais. Não aceitava ser
contrariado. Tinha uma baixa resistência à frustração. Provavelmente por essa razão não conseguiu ter uma carreira futebolística num clube importante.
Uma vez na aula ameaçou
bater na professora de Inglês - que tinha a pouca abonatória alcunha de Cavalo
de Tróia. A senhora era feia, falava muito alto, num tom estridente e irritante,
dando vários indícios que ouvia muito mal. Temi pela sua integridade física.
Alguém terá convencido o M. a sair da sala para que não chegasse a vias de
facto com a professora.
O M. tinha carapinha farta até aos ombros, num estilo próprio dos
anos oitenta do século passado. A nossa preocupação nos jogos era passar-lhe a
bola que ele resolvia a nosso favor. Deixou de aparecer na escola ainda antes
do ano lectivo acabar. Só voltei a ouvir falar dele uns bons anos mais tarde.
Disseram-me que tinha morrido a trabalhar ao volante de um camião.
Manuel Campus
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