sexta-feira, 30 de maio de 2014

O tempo

A vida não se desfia apenas com o tempo, mas só o tempo pode ajudar a tecer, a amadurecer a vida.
Aos 16 anos, filho mal-amado e mal tratado, grita agora por tempo para sarar feridas profundas da infância, mas à sua volta todos, ou quase todos, exigem-lhe que responda de forma adequada e normativa.
Sente-se cansado. A medicação de anos tornou-se pesada. Hoje pediu ao pai para o deixar ficar a descansar na cama. O pai anuiu e ele abraçou-o. O pai surpreendido sentiu o abraço, mas estava preocupado com a falta à escola.
Na próxima audiência do Tribunal, quando a Juíza lhe perguntar porque não foi à escola, alguém levantar-se-á e dirá em voz alta: - Ele não foi à escola, mas já é capaz de abraçar o pai!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Desalinho

Desatino,
sou menino,
desalinho na procura
do meu caminho.
De dia junto cacos,
na noite sonho de restos.
Ligo-me à vida.
É minha.
Tenho pressa
de abraçar devagar.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Solidão

Estarei sempre aqui
para receber a tua verdade.
Só ela importa,
só com ela existirás,
enfrentarás
o frio, o escuro
da solidão.

In a bar

The mystic light, the choir of smoke
The smell of wood, the pose, the joke
The dirty little world inside
That needs to come out
Needs to come out
I wanna meet a friend
In a bar tonight
The evening is long
If only I had that strength
To see those people,
All so lonely as me
 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Abandono-me

Abandono-me.
De novelo próprio
teço a trama
que não me permite
voltar.
O futuro deixar-me-à
saudades.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os olhos de Márcia

- Ela está a escrever um livro - dizia-me a mãe em surdina, como se estivesse alguém a assistir à conversa.
- Só o vai mostrar quando estiver pronto - disparou logo depois. Márcia prepara-se para revelar mais uma parte do seu mundo interno, pensei.
Com catorze franzinos anos, vividos num ambiente familiar violento, fechara-se para o mundo e só os olhos falavam. Muito pouco para quem tinha tanto para dizer. Olhos de um azul imenso, o Tejo em dia de sol radioso. Deixara de ir à escola pois tudo se tornara assustador. Pela manhã havia sempre uma dor como pretexto para as dores que não se viam.
Qualquer "porquê?" era suficiente para arregalar os olhos como quem quisesse dizer: - Estou aqui, mas não perguntes sobre o que não consigo pensar e muito menos falar. Se insistíssemos, a sua aflição tornava o seu azul ainda mais brilhante, com uma lágrima a querer soltar-se.
Era impossível resistir aos apelos aflitos daqueles olhos. Mergulhei no Tejo.
Dois anos depois, Márcia já mostrava algumas das situações que lhe provocaram sofrimento, através da banda desenhada. O pai abandonara o lar e Márcia parecia sentir-se mais aliviada, apesar de se manter apática e triste. A mãe, mais sensível às suas fragilidades e às da filha, procurou-me ávida de contar a boa nova: - Ela está a escrever um livro.
Márcia parecia pronta para tomar conta da sua história.















sexta-feira, 23 de maio de 2014

Vergonha

Passo a passo, dorida dos saltos, encontra o seu lugar. O comboio vai cheio.
Desajeitada, distribui toda a tralha que carrega consigo pelos lugares vagos. E senta-se. Sozinha, sempre sozinha. Encosta-se e descai a cabeça sobre o vidro imundo.
 As lágrimas, corajosamente contidas na noite, acordam. Os olhos vão fitando os habitantes do céu e cá em baixo, apenas as correrias humanas. Que buscam eles?
Não se quer dar mais ao sofrimento e obriga-se a parar.
Lembra-se da conversa da noite passada. Descia a rua a pique. A calçada é traiçoeira e era tempo de se apressar. Esperavam por ela, como sempre. Ela queria a conversa. Procurava, finalmente, libertar-se. Naquela noite, no mesmo espaço de sempre. Não sabia como dizer que estava ali para reclamar a liberdade. Só queria que a reconhecessem.
A conversa não corria bem. As palavras desviavam-se, uma e outra, tantas vezes. Dentro de si, em ricochete. Sentia-se mais presa do que nunca. Muda, até. Só queria fugir daquele espaço, outrora seu.
E aquele homem, quem seria? Já não sabia. A vergonha tomava conta dela. Como ousou querer tanto?
Abandona o espaço. Os olhos seguem a calçada - é tempo de a subir.
Não ouve o barulho da rua. Ouve, apenas, a destruição do desejo.
Tomba a cabeça de encontro ao vidro. A viagem já vai a meio. Que importa isso? Deixou-se envergonhar pelo sonho. Fecha os olhos ao destino.
Agora, sente-se imunda.

 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Os outros

Escuto o que dizem
o que não dizem
e o que gostavam de dizer.
Ouvir é arte nobre
só se predispõe
quem se descobre.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Vertigem

Maldita tontura
trouxeste a vertigem
do desamparo de outrora.
Foste sintoma
de intervalo sem volúpia.
Cobarde. Quando te reconheci
desapareceste.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Ponto de partida

Um por um
vou reconhecendo
os medos que me habitam,
pasto criado pelo vazio
que me deixaste.
Lugar da inexistência
frio, sombrio e sem cor
meu ponto de partida.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

A loucura

Gosto de pessoas que surpreendem
convenções e conveniências.
Interessa-me a loucura daqueles
que não fazem cerimónia,
não pedem licença
para rir, chorar e abraçar.
Despertam-me os que incomodam
a compostura dos outros.




domingo, 18 de maio de 2014

A hora do pai

Renato era nome de troféu que a mãe ostentava, anos depois do divórcio. A separação trouxera Renato na bagagem da mãe para triunfar numa nova vida na Europa. Aos sete anos ninguém perguntara à criança se concordava com o seu desenraizamento para o lado de cá do Oceano.
Renato cedo revelou a sua discordância do sucedido através de comportamentos rebeldes e provocatórios em relação a todos os que o rodeavam neste seu novo mundo. Reconhecidamente inteligente, revelava ostensivamente uma atitude de rejeição à escola e às regras que a mãe tentava estabelecer.
Sem suporte familiar, a mãe deixava o Renato sozinho em casa durante o período da tarde. Entregue a si próprio e ao computador, Renato começou a desmontar electrodomésticos e a esconder as peças em locais recônditos da casa. Só muito tempo depois a mãe descobriu esta travessura do filho.
As notas da escola e o comportamento agravaram-se, assim como a relação com a mãe. Os castigos e as palmadas para corrigir o Renato passaram a ser regulares.
A mãe não admitia a ideia do Renato poder regressar ao Brasil, para junto do pai. Para ela, se acontecesse, era como abdicar de uma parte de si mesma. Seria entregar o troféu para uma pessoa que supostamente odiava. Desdenhava do pai e do sistema de ensino brasileiro para justificar a permanência do filho junto dela.
Num certo Verão, a mãe autorizou o Renato a passar férias com o pai. De regresso a Portugal, Renato cavou uma trincheira maior num combate para voltar para a companhia do pai.
Umas semanas depois de ter regressado de férias, visitei Renato. A meio da conversa percebi que o relógio de ponteiros marcava onze horas, quando eram quinze. Perguntei: - Tens o relógio parado? Suspirou e respondeu em seguida: - Prefiro saber as horas que são lá, onde está o meu pai.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Abraçar o mundo

Nas águas furtadas
da minha existência,
procuro as partes infantis
que soçobraram.
Quero recuperá-las,
sossega-las.
Talvez assim possa abrir janelas
e abraçar o mundo

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Lara não era dali

A conversa durou o tempo que tinha de durar: discutimos, conversámos, chorámos juntos. Três anos depois do parto aquela jovem mãe não adquirira competências para cuidar da sua menina, nem desenvolvera espaço afectivo para ela – ao contrário do que jurava a pés juntos.
Os sinais de alerta eram evidentes: uma mãe claramente negligente, que largava a filha aos cuidados de outrem com facilidade; uma criança com comportamentos e gestos prematuramente sexualizados.
Na última vez que estivéramos juntos tinha-me prometido que levaria a Lara ao Jardim de Infância, mas mais uma vez a menina não foi. A mãe deitara-se de madrugada, como em muitas outras madrugadas; a menina ficara com o “avô”, homem doente sobre o qual pairavam desconfianças de abuso.
Não havia alternativa: Lara seria retirada a sua mãe. Era agora urgente fazê-lo da melhor forma.
No dia D, apresentaram-se impecavelmente vestidas: mãe de semblante tenso; filha ávida de mundo e de quem a rodeava.
Quando percebeu que a esperança que trazia em reverter a situação era em vão, aquela jovem, que a lei apelida de adulta, escancarou a porta da sua vida desprovida e desvalida, que lhe deixara fortes marcas nas curvas do rosto deprimido.
Confessei-a, mas pedi-lhe absolvição pelo pecado da lei. Pedi-lhe que confiasse a menina; que ficaria bem; que seria a oportunidade da progenitora criar um lar para a sua cria. Percebi-o no seu olhar: não acreditava em si mesma, nem na capacidade de reorientar a vida.
Debaixo de choro intenso, soluçou o amor de mãe que julgava ter - sem perceber que entregar a filha poderia ser o acto de amor mais grandioso.
Depois daquele choro profundo, que lhe borratou a face, recompôs-se, limpou as lágrimas e saiu dizendo de forma seca:
- Faça o que achar melhor.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O arrumador de carros

Pergunta banal que se faz a todas as crianças: o que queres ser quando fores grande? Da resposta podemos inferir como é que a criança se projecta no futuro, como olha para os pais e para o que a rodeia.
Certo dia fiz esta pergunta ao Carlitos de cinco anos. A criança estava aos cuidados dos avós paternos. O pai e a mãe, perdidos nos trilhos da droga, avistavam o filho de quando em vez - visitas curtas, controladas pelos avós, sem grande envolvimento afectivo.
Nenhum dos pais sonhou aquela criança e não havia espaço para ela nas suas vidas perdidas. A vida errante da mãe era pouco conhecida; do pai constava que dormia onde calhava e durante o dia arrumava carros no estacionamento do Pingo Doce - Carlitos pouco mais sabia.
Os avós cuidadores, na casa dos sessenta anos, reformados, tinham uma vida organizada - tanto quanto era possível ter a vida organizada quando existia um filho sem-abrigo e na droga, e um neto para cuidar.
Quando procurei perceber que horizonte vislumbrava para o futuro e lhe fiz a pergunta da ordem (que queres ser quando fores grande?), Carlitos respondeu, de forma pronta e determinada: - Quero ser arrumador de carros no Pingo Doce!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Filha da droga

Os comportamentos de rebeldia e oposição que a adolescência trouxera foram esmagados por um pai rígido, austero e sem nada para dar em termos de afectos. A mãe, submissa, não se atrevera a dizer o que quer que fosse para que, em casa, a rebeldia de Susana pudesse ser compreendida.
As matérias ensinadas na escola não lhe entravam na cabeça, cheia de ausências e vazios. Grande parte do dia vagueava pelo bairro, com outros de igual sorte.
Aos 14 anos entrara no consumo de heroína. Uma noite chegou a casa fora de horas: o pai, de cabeça perdida, sovou-a e pô-la na rua.
Viveu meses a fio em barracas construídas nas imediações do bairro e habitadas por toxicodependentes. Fez tudo por dinheiro, para consumir: roubou, traficou, prostituiu-se… Por vezes via-se enredada em confusões do negócio que davam pancadaria.
Três anos depois batera no fundo. Fisicamente era um esqueleto em movimento. Acabara relação com um homem que lhe prometera protecção, mas que a engravidou e abandonou.
Em desespero procurou a casa dos pais, mas a porta não se abriu. Em nome do filho que haveria de nascer fez desintoxicação a frio.
As pancadas que levara naqueles anos tornaram-na numa mulher em alerta permanente, defensiva, com garras de fora à mínima ameaça. No dia em que nos encontrámos, a conversa começou tensa, mas Susana haveria de ter espaço para vomitar a raiva acumulada pelo sofrimento que lhe fora infligido.
Pouco tempo depois, Susana daria entrada num centro de acolhimento para jovens grávidas.

domingo, 11 de maio de 2014

Em modo espera

Esperar pelo que não vem,
por Godot, pelos outros, por ninguém
já não me convém.
Por mim será assim:
construirei o meu lugar,
existirei nele até ao fim.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A minha verdade

Sacudo a espuma
que dissimula o vazio.
Entre medos, fantasias e sonhos,
caminho sozinho
por continente desconhecido
em busca da minha verdade.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os velhos da baixa

Último dia de Julho. As férias a poucas horas de distância. Havia ainda de enfrentar um julgamento no Tribunal, confirmar a entrega da tutela de Paula à velha ama.
Paula, assim a chamo agora, filha de prostituta e alcoólica, refugiava-se em casa da ama, nos fins de tarde, para que a mãe não a levasse para aliciar clientes. Nas vezes em que a levou, contou Paula, a mãe forçava-a a dar beijinhos aos “velhos”, nos cafés da baixa, para que estes lhe pagassem a conta.
Conhecedora da vida, a ama - que sabia que a menina não podia continuar a frequentar aqueles ambientes sob pena de tomar o caminho da mãe - denunciou a situação. Não era a primeira criança que a ama protegia das garras de pais maltratantes.
O processo de protecção de Paula foi célere. A ama enfrentou a mãe por diversas vezes, mesmo quando esta, afogada em álcool, gritava para todo o bairro ouvir: “ dá-me a minha filha sua porca” – a mesma voz, no dia seguinte, já sóbria, era capaz de elogiar a ama que tão bem lhe cuidava da filha.
Sem álcool, a mãe de Paula era uma mulher submissa e evitava contacto com as pessoas. Fechava-se nas suas águas furtadas escuras, imundas, desorganizadas tal como ela. Tivera hábitos de trabalho, uma vida organizada, há uns anos atrás. O desemprego e a falta de retaguarda familiar atiraram-na para a valeta de onde nunca mais se levantou.
O julgamento realizou-se à revelia da mãe - por falta de comparência desta. Escondeu-se, como se escondera todos estes anos, no dia em que a polícia a foi procurar.
 Talvez tenha sido melhor: Paula respirou de alívio, não voltaria aos velhos da baixa


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Escrevo-me

Escrevo-me
escrevendo outros.
Espreito-me através deles.
Torno-me tangível
nas suas histórias.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A minha casa é igual à dele!

Família de etnia cigana, organizara-se na mendicidade. Luísa, de 5 anos, era utilizada para convencer o transeunte a esmolar moeda. Sorriso sedutor numa pele suja e curtida pelo sol.
Foram nómadas, andavam de terra em terra, de feira em feira. Faziam-se transportar em duas carrinhas que serviam de alojamento para pai, mãe e cinco filhos. Carrinhas que faziam de casa: insalubre, pouco digna para ser humano viver.
Fixaram-se na grande cidade. O pai dedicou-se à recolha de ferro velho. Os filhos e a mãe “iam ganhar a vida” - como ela nos dizia, quando lhe perguntávamos o que faziam durante o dia. Curiosa ironia, ganhar a vida, numa vida de migalhas.
Com tempo e persistência, os pais de Luísa concordaram que ela andasse no Jardim de Infância: para brincar e crescer com outros meninos.
Certo dia, após reunião com auxiliares e educadores, convidaram-me a visitar a turma de Luísa para  ver como ela se integrara. A menina mostrava-se intranquila, com olhar vivo e vigilante. A Educadora pedira, aos meninos sentados em roda no chão, para que cada um fizesse uma pequena descrição da sua casa.
Aguardei com alguma ansiedade para ouvir o que Luísa iria dizer quando chegasse a sua vez. O menino que a antecedeu descreveu a sua casa, não me recordo bem o que disse, mas seria uma casa normal com quartos, sala, casa de banho, cozinha…
Chegara a vez de Luísa. Fiquei aflito, mas ela, mais tranquila, já tinha encontrado a resposta que lhe permitia continuar a sobreviver num mundo clivado: “ a minha casa é igual à dele”.
Luísa mulher, foste guerreira de palmo e meio, diz-me agora como é a tua casa? 





domingo, 4 de maio de 2014

O menino que queria ser filho da mãe.


Conheci-o em casa da avó paterna, com quem vivia: o pai, toxicodependente, morrera de HIV; a mãe refizera a sua vida noutro lugar, tivera um bebé com outro homem.
Vou chamar-lhe António. Tinha dez anos e uns olhos imensos, grávidos de pesar, que pareciam ausentar-se do corpo quando a avó o acusava do inacusável: “és um vadio  e um ordinário”. Mulher austera, dura como a vida que tinha, dividia-se entre a venda no mercado, para onde ia de madrugada, e aquele neto – único sobejo do filho que a droga tragara.
Entregue a si mesmo, António ia à escola quando calhava – e, caso calhasse, o comportamento era de tal modo desajustado e provocatório que pouco aprendia: “um vadio e um ordinário, tal e qual a mãe, Sôtor!”
Era apenas nesta altura, quando ouvia a palavra ‘mãe’, que António despertava do lugar onde a sua alma se encobria: o fulgor conquistava-lhe o olhar, e olhar dele conquistava o nosso.
Procurá-mo-la. Encontrá-mo-la. Percebemos que misturara o filho com a sogra - que odiava-, e os fechara num quarto do qual tinha deitado fora a chave. Procurámos abrir a porta, mostrá-los separadamente. Aceitou-o.
Os primeiros encontros entre uma mãe e um filho, carregados de ódio, dor e amor, foram de silêncio quase absoluto. Depois, ele, que aparentemente não tinha quaisquer competências sociais, quis saber do irmão - e o gelo começou a fundir. Vieram os fins-de-semana: a aproximação corria melhor que o esperado; “ele é muito carinhoso com o irmão” - dizia a mãe, quase com orgulho.
Cada vez mais intransigente com a avó, com quem continuava a viver,  António sonhava todos os dias com o final do ano lectivo, com as férias prometidas em casa da mãe - e talvez com uma mudança definitiva para lá.
O dia chegou. Em terreno neutro, para que nora e sogra não se afrontassem, António, de olhar cheio jubiloso, mostrava-se preparado como nunca para começar a vida. Esperou. Esperou. Esperou.
Depois de muitos telefonemas não atendidos, a mãe, entre gritos e queixumes, falou do marido, de como estava entre a espada e a parede: se entrasse o filho mais velho, sairia o mais novo com o pai; não podia, não podia, nunca mais.
Não há palavras capazes de dizer a uma criança que sua vida acabara quando parecia prestes a começar: já não sei as que disse, desfiz-me delas como quem se desfaz da arma de um crime. Recebi a sua lágrima silenciosa e, mais tarde, acompanhei-o ao Centro de Acolhimento. Nunca mais o vi. Hoje será adulto, como nós – como será o seu olhar?


















sábado, 3 de maio de 2014

O abismo

Vivi de expectativas e fantasias.
Foste eterna, deusa, sagrada e fada madrinha.
A ilusão alimentou a longa espera.
Procurei-te no olhar dos outros e senti medo.
Medo que não fosses tu outra vez.
Desisti de cansaço.
Ficou a dor de um abismo.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A despedida

Diante do caixão o jovem chorava a morte do professor.
A dor transformara-se em abundantes lágrimas transparentes.
Colegas também em dificuldade perante a perda tentavam confortá-lo.
Estava na mesma fila duas cadeiras adiante.
Observava-o atentamente.
Entre a admiração e a vontade de o abraçar
perguntei-me porque nunca fora capaz de chorar assim a morte de alguém.
Foi um momento de leveza e simplicidade.
Senti uma lágrima querer soltar-se, respirei fundo e permaneci tranquilo naquele lugar.



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Perdido de mim

Sou menino num corpo de homem.
Escondo-me atrás da aparência.
Não conheço casa nem lugar,
não sinto alegria nem tristeza.
Estou desabitado e em ruína.
Sou corpo sem alma,
incapaz de sonhar.