As matérias ensinadas na escola
não lhe entravam na cabeça, cheia de ausências e vazios. Grande parte do dia
vagueava pelo bairro, com outros de igual sorte.
Aos 14 anos entrara no consumo de
heroína. Uma noite chegou a casa fora de horas: o pai, de cabeça perdida,
sovou-a e pô-la na rua.
Viveu meses a fio em barracas
construídas nas imediações do bairro e habitadas por toxicodependentes. Fez
tudo por dinheiro, para consumir: roubou, traficou, prostituiu-se… Por vezes
via-se enredada em confusões do negócio que davam pancadaria.
Três anos depois batera no fundo.
Fisicamente era um esqueleto em movimento. Acabara relação com um homem que lhe
prometera protecção, mas que a engravidou e abandonou.
Em desespero procurou a casa dos
pais, mas a porta não se abriu. Em nome do filho que haveria de nascer fez
desintoxicação a frio.
As pancadas que levara naqueles
anos tornaram-na numa mulher em alerta permanente, defensiva, com garras de
fora à mínima ameaça. No dia em que nos encontrámos, a conversa começou tensa,
mas Susana haveria de ter espaço para vomitar a raiva acumulada pelo sofrimento
que lhe fora infligido.
Pouco tempo depois, Susana daria
entrada num centro de acolhimento para jovens grávidas.
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