segunda-feira, 12 de maio de 2014

Filha da droga

Os comportamentos de rebeldia e oposição que a adolescência trouxera foram esmagados por um pai rígido, austero e sem nada para dar em termos de afectos. A mãe, submissa, não se atrevera a dizer o que quer que fosse para que, em casa, a rebeldia de Susana pudesse ser compreendida.
As matérias ensinadas na escola não lhe entravam na cabeça, cheia de ausências e vazios. Grande parte do dia vagueava pelo bairro, com outros de igual sorte.
Aos 14 anos entrara no consumo de heroína. Uma noite chegou a casa fora de horas: o pai, de cabeça perdida, sovou-a e pô-la na rua.
Viveu meses a fio em barracas construídas nas imediações do bairro e habitadas por toxicodependentes. Fez tudo por dinheiro, para consumir: roubou, traficou, prostituiu-se… Por vezes via-se enredada em confusões do negócio que davam pancadaria.
Três anos depois batera no fundo. Fisicamente era um esqueleto em movimento. Acabara relação com um homem que lhe prometera protecção, mas que a engravidou e abandonou.
Em desespero procurou a casa dos pais, mas a porta não se abriu. Em nome do filho que haveria de nascer fez desintoxicação a frio.
As pancadas que levara naqueles anos tornaram-na numa mulher em alerta permanente, defensiva, com garras de fora à mínima ameaça. No dia em que nos encontrámos, a conversa começou tensa, mas Susana haveria de ter espaço para vomitar a raiva acumulada pelo sofrimento que lhe fora infligido.
Pouco tempo depois, Susana daria entrada num centro de acolhimento para jovens grávidas.

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