Família de etnia cigana,
organizara-se na mendicidade. Luísa, de 5 anos, era utilizada para convencer o
transeunte a esmolar moeda. Sorriso sedutor numa pele suja e curtida pelo sol.
Foram nómadas, andavam de terra
em terra, de feira em feira. Faziam-se transportar em duas carrinhas que
serviam de alojamento para pai, mãe e cinco filhos. Carrinhas que faziam de
casa: insalubre, pouco digna para ser humano viver.
Fixaram-se na grande cidade. O
pai dedicou-se à recolha de ferro velho. Os filhos e a mãe “iam ganhar a vida”
- como ela nos dizia, quando lhe perguntávamos o que faziam durante o dia. Curiosa ironia, ganhar a vida, numa vida de migalhas.
Com tempo e persistência, os pais
de Luísa concordaram que ela andasse no Jardim de Infância: para brincar e
crescer com outros meninos.
Certo dia, após reunião com
auxiliares e educadores, convidaram-me a visitar a turma de Luísa para ver
como ela se integrara. A menina mostrava-se intranquila, com olhar vivo e vigilante.
A Educadora pedira, aos meninos sentados em roda no chão, para que cada um
fizesse uma pequena descrição da sua casa.
Aguardei com alguma ansiedade
para ouvir o que Luísa iria dizer quando chegasse a sua vez. O menino que a
antecedeu descreveu a sua casa, não me recordo bem o que disse, mas seria uma
casa normal com quartos, sala, casa de banho, cozinha…
Chegara a vez de Luísa. Fiquei
aflito, mas ela, mais tranquila, já tinha encontrado a resposta que lhe
permitia continuar a sobreviver num mundo clivado: “ a minha casa é igual à
dele”.
Luísa mulher, foste guerreira de
palmo e meio, diz-me agora como é a tua casa? 
Sem comentários:
Enviar um comentário