Passo a passo, dorida dos saltos,
encontra o seu lugar. O comboio vai cheio.
Desajeitada, distribui toda a tralha
que carrega consigo pelos lugares vagos. E senta-se. Sozinha, sempre sozinha.
Encosta-se e descai a cabeça sobre o vidro imundo.
As lágrimas, corajosamente contidas na noite,
acordam. Os olhos vão fitando os habitantes do céu e cá em baixo, apenas as
correrias humanas. Que buscam eles?
Não se quer dar mais ao
sofrimento e obriga-se a parar.
Lembra-se da conversa da noite
passada. Descia a rua a pique. A calçada é traiçoeira e era tempo de se
apressar. Esperavam por ela, como sempre. Ela queria a conversa. Procurava,
finalmente, libertar-se. Naquela noite, no mesmo espaço de sempre. Não sabia
como dizer que estava ali para reclamar a liberdade. Só queria que a
reconhecessem.
A conversa não corria bem. As
palavras desviavam-se, uma e outra, tantas vezes. Dentro de si, em ricochete. Sentia-se
mais presa do que nunca. Muda, até. Só queria fugir daquele espaço, outrora seu.
E aquele homem, quem seria? Já
não sabia. A vergonha tomava conta dela. Como ousou querer tanto?
Abandona o espaço. Os olhos
seguem a calçada - é tempo de a subir.
Não ouve o barulho da rua. Ouve, apenas,
a destruição do desejo.
Tomba a cabeça de encontro ao
vidro. A viagem já vai a meio. Que importa isso? Deixou-se envergonhar pelo
sonho. Fecha os olhos ao destino.

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