quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os velhos da baixa

Último dia de Julho. As férias a poucas horas de distância. Havia ainda de enfrentar um julgamento no Tribunal, confirmar a entrega da tutela de Paula à velha ama.
Paula, assim a chamo agora, filha de prostituta e alcoólica, refugiava-se em casa da ama, nos fins de tarde, para que a mãe não a levasse para aliciar clientes. Nas vezes em que a levou, contou Paula, a mãe forçava-a a dar beijinhos aos “velhos”, nos cafés da baixa, para que estes lhe pagassem a conta.
Conhecedora da vida, a ama - que sabia que a menina não podia continuar a frequentar aqueles ambientes sob pena de tomar o caminho da mãe - denunciou a situação. Não era a primeira criança que a ama protegia das garras de pais maltratantes.
O processo de protecção de Paula foi célere. A ama enfrentou a mãe por diversas vezes, mesmo quando esta, afogada em álcool, gritava para todo o bairro ouvir: “ dá-me a minha filha sua porca” – a mesma voz, no dia seguinte, já sóbria, era capaz de elogiar a ama que tão bem lhe cuidava da filha.
Sem álcool, a mãe de Paula era uma mulher submissa e evitava contacto com as pessoas. Fechava-se nas suas águas furtadas escuras, imundas, desorganizadas tal como ela. Tivera hábitos de trabalho, uma vida organizada, há uns anos atrás. O desemprego e a falta de retaguarda familiar atiraram-na para a valeta de onde nunca mais se levantou.
O julgamento realizou-se à revelia da mãe - por falta de comparência desta. Escondeu-se, como se escondera todos estes anos, no dia em que a polícia a foi procurar.
 Talvez tenha sido melhor: Paula respirou de alívio, não voltaria aos velhos da baixa


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