Último dia de Julho. As férias a poucas horas de distância.
Havia ainda de enfrentar um julgamento no Tribunal, confirmar a entrega da
tutela de Paula à velha ama.
Paula, assim a chamo agora, filha de prostituta e alcoólica,
refugiava-se em casa da ama, nos fins de tarde, para que a mãe não a levasse
para aliciar clientes. Nas vezes em que a levou, contou Paula, a mãe forçava-a
a dar beijinhos aos “velhos”, nos cafés da baixa, para que estes lhe pagassem a
conta.
Conhecedora da vida, a ama - que sabia que a menina não
podia continuar a frequentar aqueles ambientes sob pena de tomar o caminho da
mãe - denunciou a situação. Não era a primeira criança que a ama protegia das
garras de pais maltratantes.
O processo de protecção de Paula foi célere. A ama enfrentou
a mãe por diversas vezes, mesmo quando esta, afogada em álcool, gritava para
todo o bairro ouvir: “ dá-me a minha filha sua porca” – a mesma voz, no dia
seguinte, já sóbria, era capaz de elogiar a ama que tão bem lhe cuidava da
filha.
Sem álcool, a mãe de Paula era uma mulher submissa e evitava
contacto com as pessoas. Fechava-se nas suas águas furtadas escuras, imundas,
desorganizadas tal como ela. Tivera hábitos de trabalho, uma vida organizada,
há uns anos atrás. O desemprego e a falta de retaguarda familiar atiraram-na
para a valeta de onde nunca mais se levantou.
O julgamento realizou-se à revelia da mãe - por falta de
comparência desta. Escondeu-se, como se escondera todos estes anos, no dia em
que a polícia a foi procurar.
Talvez tenha
sido melhor: Paula respirou de alívio, não voltaria aos velhos da baixa
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