quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preso ao imediato

Desorganizou-se no tempo. Não sabe que dia é daqui a três dias. Abandonado pelo pai na infância, pela mãe na adolescência. Começou a dormir nas ruas da cidade porque não aceita regras que não respeitam a sua dor. A droga é único porto seguro. Sobrevive preso ao imediato.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Corpo estranho.

Corpo estranho
este que me habita.
É estrangeiro.
Usurpou-me a ilusão.
Deixou-me suspenso,
sem palavras
para o descrever.




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Espessura

Desde sempre
carente, dependente.
Tenho estrutura,
tenho peso, estatura,
mas falta-me espessura.
Não odeio
com bravura,
na mesma medida
em que não amo
com doçura,
falta-me espessura.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Do medo ao cansaço

Passaram tantos anos.
Como poderia encontrar
teus olhos cabisbaixos?
O medo deu lugar ao cansaço.
Teria sido tudo mais fácil
se não me tivesses
aprisionado na tua dor.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Desilusão

No fundo dos teus olhos,
confronto-me com a nudez
da minha fragilidade.
Neles adquiri
dimensão infinita.
Pura fantasia, ilusão!
Afinal nunca foste capaz
de me desiludir.






domingo, 19 de outubro de 2014

Soma

A memória não alcança
o corpo não descansa.
Sinto o seu vai e vem
numa repetição incessante.
Raios partam este medo!
Será soma de outros medos?
Talvez sua matriz
esteja inculcada na raiz.





quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Mudar o mundo.

De onde vem a força desta menina que em segredo conta gostar muito de ler e falo à luz de uma pequena lanterna, debaixo dos cobertores, para não aborrecer os pais e incomodar o irmão que dorme no mesmo quarto?
Num contexto familiar e social adverso ela acredita que lendo poderá mudar o mundo...o seu mundo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dor que dói.

Arrasta-se no tempo a dor no peito
que ainda te trás em mim.
O coração apertado e cansado
já reconhece essa dor que dói.
Dor suave como são as memórias
agora mais longínquas de ti.







terça-feira, 14 de outubro de 2014

Só palavras

Foram anos de tentativas vãs
a atulhar vazios com palavras.
Foram anos de palavras despovoadas,
fúteis, frívolas, sem sentido.
Apesar de tudo, insisto nelas,
ponto de encontro apaziguador,
talvez seja forma de encontrar o amor.







segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Médias

No esvoaçar dos dias dou por mim a pensar na mediania. Estarão a tentar fazer de nós constituintes de uma média, sendo que tudo o que sai desse registo médio torna-se ameaçador?
A representação que seremos números encarreirados e emparedados numa qualquer grelha de excel faz-me sentir agrilhoado.





domingo, 12 de outubro de 2014

No Inverno das coisas.

É no Inverno das coisas que me observo melhor.
Há menos luz exterior, afiro a minha luminescência.
Sinto o amadurecimento longe da dispersão do Verão,
numa reflexão que faz emergir em mim
a justaposição entre uma e outra estação.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Inverno?


Nos nossos dias até o tempo revela problemas de ansiedade. O inverno e o frio já não chegam a estas latitudes de forma suave. Sinto que perderam elegância, revelam-se abrutalhados, vêm com trombas e fazem-se anunciar através de alertas de várias cores incutindo-nos receio. O tempo perdeu tranquilidade, assim como muitos de nós.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Desculpem, mas existo!

Às portas da adolescência, abandonado pelo pai, entranhou as dores da mãe e não entende o que se passa. O seu discurso é um contínuo acto de contrição por existir. A culpa que carrega é-lhe insuportável. Apeteceu-me abraçá-lo e dizer-lhe que são os pais que não o merecem. Espero que um dia chegue a essa conclusão.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Viagem

Algures durante a viagem,
ao contrário do que pensara antes,
concluí que o mais importante
não é chegar, mas partir.
Percebi que se não tivesse partido,
não chegaria a lugar nenhum.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Existência

No sonho choro
o desamparo e solidão
de quem ficou à deriva
ao soltar-se do rochedo.
São as dores da criação
de uma existência
prestes a acontecer.








domingo, 5 de outubro de 2014

Perder e Encontrar

São férteis os sonhos quando o sono se espraia pela manhã. Guardei aquele que me devolveu o meu primeiro carro. Não conseguia estacioná-lo onde pretendia. Subitamente perdi os travões, o carro seguiu desgovernado rua abaixo comigo numa aflição tremenda. Instantes depois aparcou num lugar melhor, mesmo à medida do que procurava. Ao acordar recordei uma frase que ouvira no dia anterior:"Muitas vezes é necessário perder-mo-nos para nos encontra-mos verdadeiramente."



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Separação

Voltei a sonhar que partiras, mas desta vez não me senti desamparado à beira do abismo. Não acordei com o coração aos pulos. Não foi necessário acender a luz da cabeceira. O sonho não terminara abruptamente. Pela manhã estava orgulhoso de mim próprio por ter suportado a angústia da nossa separação.



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Tempo da infância.


O tempo nem é cronológico nem linear. Não me lembro dos dias todos por igual. Tenho ideia que o tempo da infância foi mais longo. Se assim não fosse como poderia ter memória minudente de tantos dias, tantas horas e tantas coisas que fiz?