Regresso sempre àquela praia
cheia de gente
onde me perdi de ti.
Caminho naquele areal
à beira do abismo.
Olhos aflitos procuram-te
em todo o lado,
não vêem o porto de abrigo,
lá ao fundo,
junto ao molhe.
Ano após ano os sonhos revelam-me um eterno regresso à rádio nas mais rocambolescas circunstâncias. O último regresso aconteceu por estes dias. Ao acordar a memória reteve o momento da primeira alocução onde me saiu a frase: O segredo para a felicidade é a persistência, bem vindos a esta frequência.
Saímos os dois
numa noite de tempestade
à procura um do outro.
Com perseverança,
encontrámo-nos, ao fim da tarde,
numa linha imaginária
entre o amor e ódio,
o bem e o mal
a desilusão e a esperança.
Estou só no meio de gente. Fala-se em voz alta de tudo ou de nada. Conversas vãs de circunstância. Oiço gargalhadas esganiçadas. Todos parecem gritar para ninguém reparar. Já não me distraio com o ruído. Tenho encontro sem hora marcada com a dor: lá, onde se funda o afecto.
Ao fundo da cama, com olhos que espelhavam o azul do Tejo, espreitava o marido, deitado no leito de morte, num quarto do hospital. Ao ritmo de lágrimas furtivas, entre cortadas com soluços silenciosos, vai desfiando o balanço da vida em comum: - Era um bom homem. Bebia e fumava muito e às vezes tratava-me mal. Dizia-me que andava com outros a troco de dinheiro. Isso ofendia-me. Nos últimos meses já se arrastava. Andava sempre com cara de sofrimento. Deixou de ser aquilo que era. Não esperava ter de passar por isto, mas toda a gente passa e eu não podia ser diferente. Não posso esperar muito mais da vida. Gozei muito. Tive uma vida boa. Deus também não me vai condenar. Não roubei nem matei. Trabalhei muito para ganhar a vida - disse
Sinto o cansaço,
quase desfaleço.
Esgota-se a fuga,
esfuma-se a fantasia.
Repouso.
Entendo agora
merecer este lugar.
Transporto tudo
que fui capaz de sonhar.