domingo, 30 de novembro de 2014

Regresso

Regresso sempre àquela praia
cheia de gente
onde me perdi de ti.
Caminho naquele areal
à beira do abismo.
Olhos aflitos procuram-te
em todo o lado,
não vêem o porto de abrigo,
lá ao fundo,
junto ao molhe.
Lázaro Lozano - Gente da Nazaré

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Não chega.

A escrita não chega
onde desejo chegar.
Vasculho palavras,
rabisco mil pensamentos,
mas não chega.
Sabendo-o resta-me
ir escrevendo.



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Inaceitável

Calquei o inaceitável.
Procurei conforto
em casa desabitada,
com janelas fechadas.
Vivi ao lado da dor,
num lugar
que não era o meu.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ódio necessário

Cercado por dois perigosos carteiristas,
e manietado pelo mais gigantesco,
lutei pela libertação
até desferir um violento soco na cabeceira .
Acordei,
Acordei, com a dor que me invadiu a carne
gesto de legítima defesa: deles e de mim.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Lusco fusco

Foram tempos
de interminável
lusco fusco.
Dissimuladas sombras,
fantasmas oriundos
de continente desconhecido
onde o sol não foi rei.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Eterno regresso

Ano após ano os sonhos revelam-me um eterno regresso à rádio nas mais rocambolescas circunstâncias. O último regresso aconteceu por estes dias. Ao acordar a memória reteve o momento da primeira alocução onde me saiu a frase: O segredo para a felicidade é a persistência, bem vindos a esta frequência.



domingo, 16 de novembro de 2014

À procura.

Saímos os dois
numa noite de tempestade
à procura um do outro.
Com perseverança,
encontrámo-nos, ao fim da tarde,
numa linha imaginária
entre o amor e ódio,
o bem e o mal
a desilusão e a esperança.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O afecto

Estou só no meio de gente. Fala-se em voz alta de tudo ou de nada. Conversas vãs de circunstância. Oiço gargalhadas esganiçadas. Todos parecem gritar para ninguém reparar. Já não me distraio com o ruído. Tenho encontro sem hora marcada com a dor: lá, onde se funda o afecto.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sintonia

Muitos anos depois
encontrei teus olhos
naquele olhar sem abrigo.
Estremeci e acolhi
a dor que transportava.
Sintonia numa
frágil sinfonia.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Cai o muro.

Cai o muro,
tudo é novo.
Recomeço
despido,
titubeante
absorvendo
minuciosamente
a vida tal como é.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Olhar a morte, ganhar a vida.

Ao fundo da cama, com olhos que espelhavam o azul do Tejo, espreitava o marido, deitado no leito de morte, num quarto do hospital. Ao ritmo de lágrimas furtivas, entre cortadas com soluços silenciosos, vai desfiando o balanço da vida em comum: - Era um bom homem. Bebia e fumava muito e às vezes tratava-me mal. Dizia-me que andava com outros a troco de dinheiro. Isso ofendia-me. Nos últimos meses já se arrastava. Andava sempre com cara de sofrimento. Deixou de ser aquilo que era. Não esperava ter de passar por isto, mas toda a gente passa e eu não podia ser diferente. Não posso esperar muito mais da vida. Gozei muito. Tive uma vida boa. Deus também não me vai condenar. Não roubei nem matei. Trabalhei muito para ganhar a vida - disse




quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Repouso

Sinto o cansaço,
quase desfaleço.
Esgota-se a fuga,
esfuma-se a fantasia.
Repouso.
Entendo agora
merecer este lugar.
Transporto tudo
que fui capaz de sonhar.




domingo, 2 de novembro de 2014

Sem retorno

Caminho sem retorno.
Vislumbro uma
tenebrosa ilusão
de ficar sem chão.
Sinto-me bebé
nos primeiros passos:
receoso, desamparado,
mas determinado.
Carrego uma espécie
de cimento
que liga emoção
ao pensamento.