quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Olhar a morte, ganhar a vida.

Ao fundo da cama, com olhos que espelhavam o azul do Tejo, espreitava o marido, deitado no leito de morte, num quarto do hospital. Ao ritmo de lágrimas furtivas, entre cortadas com soluços silenciosos, vai desfiando o balanço da vida em comum: - Era um bom homem. Bebia e fumava muito e às vezes tratava-me mal. Dizia-me que andava com outros a troco de dinheiro. Isso ofendia-me. Nos últimos meses já se arrastava. Andava sempre com cara de sofrimento. Deixou de ser aquilo que era. Não esperava ter de passar por isto, mas toda a gente passa e eu não podia ser diferente. Não posso esperar muito mais da vida. Gozei muito. Tive uma vida boa. Deus também não me vai condenar. Não roubei nem matei. Trabalhei muito para ganhar a vida - disse




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