A solidão radica na incapacidade de estar só. Sem consciência de sermos sós, seremos apenas uma espécie de hologramas da vida de outros.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Desventura.
Encarei noites aterradoras,
pensamentos tenebrosos,
abismos de suster a respiração,
num altar omnipotente,
para não perder o amor
que afinal nunca tivera.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Socorro!!! Tenho um adolescente de férias.
Pelos interesses que revela
parece que há três ou quatro gerações entre nós. Bem sei que existe nesta
geração um suporte básico de vida constituído por telemóvel com Wi Fi, PC e/ou TV.
Sei também que sem um destes elementos a insegurança aumenta drasticamente no
jovem e todas as propostas de actividades alternativas, que se lhe possam fazer,
correm risco sério de serem rejeitadas.
Socorro-me do Google, de amigos,
colegas e familiares para procurar actividades que promovam o contacto pessoal
com outros seres da mesma espécie e de preferência em locais ao ar livre, em
comunhão com a natureza.
Esfalfo-me para convencer o
jovem, dizendo-lhe que é bom estar com os outros, que a experiência do contacto
pessoal é insubstituível, nos torna mais fortes e permite-nos crescer. Tento
também sensibilizar para o facto do contacto com a natureza promover a
criatividade em x por cento, lançando até dados científicos sobre o assunto.
De forma seca, levo com a
resposta de que os amigos estão quase todos on line e à distância de um clique.
Tenso e de alguma forma frustrado, caio com relativa rapidez no último argumento
que consiste em informá-lo que a nossa relação é assimétrica e a última palavra
é minha.
Olho-me a fazer cálculos em voz
baixa sobre as semanas que faltam para o início das aulas. Ora, duas semanas de
colónias pagas com o meio subsídio de férias recebido, mais duas semanas no
campo em casa dos avós, desde que esteja garantido pelo menos o Wi Fi, mais
outras duas semanas coincidentes com as minhas férias…
Bolas! Pelas minhas contas estão
asseguradas apenas metade das férias. Na outra metade, ficam a descoberto
várias semanas que ele - e provavelmente muitos como ele - aproveitarão para se
enterrarem no sofá, em comunhão plena com os ecrãs.
domingo, 26 de julho de 2015
História por contar.
Jamais poderia contar a história
Que envolvi em nevoeiro,
Lacrei com selo de medo,
Desliguei da corrente da memória,
Sendo até para mim um segredo.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
Heroína
Vasculham o lixo
procuram a heroína.
Corpos frágeis
mentes mirradas
infâncias roubadas
gritam por uma mãe.
procuram a heroína.
Corpos frágeis
mentes mirradas
infâncias roubadas
gritam por uma mãe.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Momento
Não sei se é
ponto de partida
ou de chegada.
É um aqui e agora.
Sinto-o serenamente,
como nunca sentira
por um instante
na minha história.
ponto de partida
ou de chegada.
É um aqui e agora.
Sinto-o serenamente,
como nunca sentira
por um instante
na minha história.
Paula Costa Alves
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Filhos e cadilhos.
Desta vez a zaragata terminou de
forma diferente: a mulher fez queixa e ele foi afastado de casa pelas
autoridades.
Dorme na rua, já que nenhum
familiar quer saber dele - contou, em tom de arrependimento.
«Naquela noite, o meu filho
chegou a casa de gatas, completamente bêbedo. Fiquei furioso e gritei-lhe que
naquela casa já chegava um bêbedo. A partir daí entornou-se o caldo...
Só me procuravam enquanto
trabalhava e ainda tinha dinheiro...
Eu e a mulher demo-nos sempre
bem... até aparecerem os filhos» - concluiu.
quarta-feira, 15 de julho de 2015
O Santo
Com os olhos de quem há muito se esgotou numa vida
de corre corre, entre as agruras da adolescência do neto (que, com dois
anos de idade, lhe caiu nos braços) e o serviço à casa e ao marido (que insiste
em viver mais por fora que por dentro, pois há que fazer uns biscates que as
pensões de ambos não chegam para as despesas), concentrou-se como pôde para demonstrar
a importante função do seu senhor no agregado: “Sabe, eu sou o homem e a mulher
cá de casa, mas não tenho nada a apontar ao meu marido; é um santo!”.
-
segunda-feira, 13 de julho de 2015
O Beijo
Hoje, quando nos despedimos, já não saíste porta fora, como das outras vezes, em que nem te ouvia pronunciar um até à próxima. Não foi preciso esperar muitas semanas para que tu percebesses que cumprimentar alguém não é assim tão ameaçador.
Hoje, quando nos despedimos, embora ainda receosa, fizeste um compasso de espera para que te pudesse beijar.
Hoje, quando nos despedimos, embora ainda receosa, fizeste um compasso de espera para que te pudesse beijar.
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