sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Lá, na infãncia.


Na margem daquele rio, em cada pedra havia uma mulher a lavar roupa. Os filhos divertiam-se mergulhando, na água meio turva de sabão azul e branco, como se fossem patinhos irrequietos. Ao sabor da leve corrente, por vezes, desciam barcos areeiros que, aos olhos das crianças, pareciam grandes barcos a vapor a cruzarem o Mississípi. Na margem direita, num plano mais alto, avistava-se uma imponente casa Senhorial com grandes janelas, de mil quadradinhos, reflectindo o sol nas copas das árvores que ladeavam o rio.
Numa destas noites, foi a noite inteira a tentar regressar aquele lugar da infância. No trilho da memória estava um lugar que só eu conhecia. Das pessoas que interpelei pelo caminho, por mais indicações que me dessem, nada me conduziu até lá. Olhando-me só e tranquilo percebi que o lugar afinal apenas existia em mim.
 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Édipo

Naquele sonho tudo em ti era ternura e seios enormes prestes a alimentar a nossa fusão. Recordo que de repente o pai surgiu à janela e tive de dissimular as intenções que tinha para nós. No instante seguinte dou por mim, já fora de casa, a vaguear na rua sem perceber o que tinha acontecido.


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Como sangue...

As tonturas que revelam  a incapacidade de pensar o impensável. As vertigens reveladoras dos vazios provocados pelo trauma. Como sentir e pensar o medo quando ele se torna tão natural como o sangue que nos corre nas veias?

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sonhar dá trabalho

O sonho não surge do nada,
dá muito trabalho.
O sonho constrói-se,
tal como o Amor.

                                Roberto Chichorro

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Morrer antes de nascer.

Não terá sido desejada nem sonhada.
Na escuridão do desamparo
revelou-se amparo dos mais pequenos
durante as fugas da mãe.
Foram 13 anos de indiferença,
de olhares que não viram,
de sorrisos tristes que clamaram ajuda em vão.
Nasceu sem ter nascido, morreu sem ter vivido.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Despedidas

Desde a primeira separação,
do primeiro choro ou respiração.
Desde o inicio da viagem,
desde sempre...
é a dor da partida
que assegura o gozo da chegada.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Como um cão...

Os traumas e recalcamentos esgotaram-no.
O medo tomou-lhe conta dos sentidos.
Medo visceral que lhe habita a memória do corpo.
Medo insconciente que lhe rouba o controlo fisico,
que o olhar de outro faz estremecer, ficar zonzo,
baixar o seu olhar como um cão amedrontado.




segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Lá, onde as velas se incendiavam.

Voltei lá. Lá, onde as velas se incendiavam e deixavam a multidão aos gritos. Eu submergia na aflição dos outros. Não me davas a mão nem explicação para me sossegar. Talvez achasses mais importante rezar.
Lá, onde as velas se incendiavam, está diferente, assim como eu e tu.


domingo, 6 de setembro de 2015

Aquém do topo.

Do alto dos seus setenta e tais anos, o velho homem chegara à conclusão que não tinha chegado ao topo da carreira profissional por uma questão emocional, mas ainda assim orgulhoso de ter ficado perto.
- Como poderia ter lá chegado, se aos onze anos fui arrancado de casa para prosseguir estudos num seminário? - afirmou convicto.

sábado, 5 de setembro de 2015

Cuspir o medo

Foram anos a fio a tentar engolir o medo que se acumulara desde que se lembrava. Foram vezes sem conta as que engoliu em seco até a garganta ficar em sangue. Houve um dia em que num acesso de raiva descontrolada foi capaz de cuspir o medo que a paralisava.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Estás bem?

Quando me vês, perguntas se estou bem, mas, mal abro a boca, atropelas-me com as tuas conversas «poucachinhas», sem conteúdo. Quando me perguntas se estou bem, queres é chamar a atenção para a tua reduzida mundividência . Falas de forma incontinente até reparares na minha de cara de enfado e dizes que tens de ir andando.
Um dia dir-te-ei que já não sou colonizável.






quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Vergonha

A cada passo evitavas um olhar, um cumprimento de alguém conhecido. Mudavas de passeio quando ficavas mais aflita, como se te fossem fazer mal. Escondias-te atrás da vergonha, de ti, do teu corpo... Em fuga não houve passeio, não houve lugar de onde te pudesses ver e cumprimentar os outros.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Desamparados

Eternizam a espera daquele que não vem. Agarrados a um outro que não está.  Desesperam na impossibilidade de compreender o mundo a partir de fora.