sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

De Madrid a Lisboa

Manhã de Natal soalheira.
Absorto, leio o que um escritor escreveu sobre as suas memórias escorridas num divã em Madrid. Por instantes penso que de Madrid a Lisboa é um saltinho. Quando regresso da viagem sinto a companhia dos bichanos que em silêncio se juntaram a distender os seus corpos ao Sol de Inverno. Ao longe ouve-se alvoroço num galinheiro do outro lado do vale.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Pobres de Estimação

Não raras vezes, observam-se por aí  benfeitorias de pessoas pretensamente magnânimas que clamam de imediato visibilidade da sua dádiva.
- Vejam como sou boa pessoa, organizei um almoço de Natal para mil idosos carenciados. - Pensou de certo o autarca enquanto falava excitado para os microfones da televisão.
Fico sempre a pensar que tipo de gente será esta que arregimenta pobres de estimação como figurantes de um filme de acção de graças aos bondosos heróis?






quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Rosto

A loucura não tem rosto,
não se apresenta com monstruosas formas
nem como excepção a regras e convenções.

A loucura veste-se de normalidade,
enfeita-se com o pão nosso de cada dia
e toma a forma do rosto de qualquer um entre nós.

                            H. Bosh - "Extração da Pedra da Loucura"

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O Calor da Praça

A manhã está demasiado húmida e fria para que os homens, que se reúnem todos os dias na pequena praça da rua, se sentem no banco deles.
A conversa, hoje, segue animada. Estão de pé. Fizeram um circulo à volta da fogueira que só eles vêem.
Conheço-os todos daqui.
Ao levantar o braço para os cumprimentar, sinto o calor da conversa e recebo o sorriso de quem está ali para dar.
A manhã está demasiado húmida e fria. Apeteceu-me entrar na roda.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Terror Legado

É terror transgeracional que corroí e destrói os que crescem mergulhados ausência de quem deveria ter cuidado da sua dor.
É terror que se desvela nos vazios de vínculos que ficaram por acontecer.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Fome

A mãe sai de casa para trabalhar todos os dias às cinco e meia da madrugada, mesmo assim ele não abdica de um beijo de bons dias. Aos catorze anos percebe que os afectos não abundam e é preciso lutar, competir pelos poucos mimos que a mãe revela capacidade de dar.
Fico intrigado.
Saberá ele que ninguém cresce numa relação onde existe fome de afectos?