terça-feira, 30 de junho de 2015

Porqué é que os aviões não voam para o interior da Terra?

Aos catorze anos tem um olhar daqueles que não olha para lado nenhum. Quando me perguntou: -Porque é que os aviões não voam para o interior da Terra?
Apeteceu-me perguntar a alguém porque é que não houve ninguém para responder a esta pergunta, há dez anos atrás.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Com sentido.

Quando se aconchega
 a dor em palavras
 ela adormece,
 permitindo que o sonho
 dê sentido à história
 e nos mostre o caminho.


domingo, 28 de junho de 2015

A rocha

Conhecera-o há poucas semanas em casa da avó, com quem vivia. Preenchera o vazio comendo alarvemente . Tornou-se um menino de corpo balofo, mas com alma empedernida. Talvez pouco avisado, faço detonar um vomito e uma zanga incomensurável. 
- Tens estado com os pais? - pergunto-lhe.
- Tem alguma coisa a ver com isso? reponde irado de imediato.
Naquele momento estávamos conversados. 
Haveremos de voltar ao assunto com tempo para a dor escoar lentamente.







 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Frequências Modeladas

Parece já não haver lugar ao arrependimento
aos poucos entranha-se uma certa serenidade
povoam-se ideias de desprendimento.

Parece já não haver lugar à omnipotência
aos poucos entranha-se  uma certa esperança
conquista-se espaço com decência.

Parece já não haver lugar à perfeição
aos poucos modela-se um certo imaginário
toleram-se pensamentos de oposição.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Emplastros

O café não tem momentos de silêncio. Há um ruído de fundo permanente assegurado pela televisão. Era hora do lanche e o balcão enchera-se de gente.
De repente solta-se um bruaá vindo de quem estava com um olho no que comia e outro na televisão.
-Olha lá está o gajo!
O mais assumido e conhecido dos emplastros tomara conta do ecrã promovendo uma reacção calorosa.
Fiquei a pensar se não teremos todos um pouco de emplastro. Desejamos que nos vejam, que nos admirem, que reconheçam a nossa existência, o nosso lugar.




segunda-feira, 22 de junho de 2015

Leveza

Porque reparara eu naquela pena que se desprendera de um pombo, inquilino de um edifício da baixa pombalina? 
Vi-a flutuar, rodopiar sobre si mesma.
Leve e ao sabor de uma brisa quase imperceptível, desafiando a lei da gravidade, gozando divertida aquele voo. 
Acompanhei-a com o olhar rua abaixo.
Sei que momentos antes fora presentado com o sorriso de um jovem que se mostrara profundamente zangado com aqueles que o abandonaram ainda criança, talvez por não terem sido capazes de o sonhar.





quarta-feira, 17 de junho de 2015

Tudo ou nada.

Não constava no Cartão de Cidadão, mas eu sabia que o Pedro, de 13 anos,era descendente da droga. Compareceu diante de mim acompanhado pela avó que o tem criado desde os primeiros anos de vida. Pedro mostrava cara de poucos amigos, corpo volumoso de quem come demais para compensar o que há de menos, mãos delicadas e inquietas.
A avó, com sorriso de circunstância, começou desde logo a matraquear  sobre as dificuldades e esforço que tem feito para cuidar do neto. Foi dizendo que o menino não lhe obedece e que tem más notas na escola. A cada imprecisão da história contada pela avó, Pedro reagia irado. Às páginas tantas, a avó exclama em tom convencido: - Olhe que ele tem tudo. 
Por mim a conversa terminara.

                                          Ron Mueck- Escultor

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Poesia

Traço da escrita,
palavras sinuosas
percorrem e discorrem
continente desconhecido.

Sonhos acordados,
entusiasmo renovado,
tentativas repetidas
de regresso a casa.

António Dacosta

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Revolta

O vazio é frio.
a revolta é quente,
quando volta
sai incandescente.

"Era uma vez um menino que queria andar na barriga da mãe, mas a mãe não deixava porque já tinha idade de ser um rapazinho para andar sem a mãe a agarrar pela mão, a dar colo. Esse menino devia ser castanho porque outro dia quando a mãe estava grávida e qaundo foi à casa de banho o filho nasceu pelo rabo e  assim acaba a história e feliz ano novo."
Marco 13 anos.

In Crescer Vazio; Pedro Strecht



terça-feira, 9 de junho de 2015

Reparar

Não é simular,
é voltar atrás
é regredir,
elaborar
para reparar.

Sigo sozinho,
com testemunha,
para viver
o que faltou
em pequenino.






segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sair do deserto.

Durante uns meses procuramos preparar juntos a viagem. A verdade é que, embora me tenha constituindo como tua companhia, sabia que terias de a fazer na mais profunda solidão, sob pena de ficares amarrado ao que não existia.
Aos dezasseis anos perceberas que as ganzas eram pequenos intervalos de uma dor permanente. Pensavas e bem que no deserto a sobrevivência estava ameaçada.
Segui a teu lado com esperança que pudesses sentir algum conforto. Naquele dia, em poucas horas, terás sentido o desamparo de quem de repente se vê despojado do seu pequeno mundo.  


quinta-feira, 4 de junho de 2015

terça-feira, 2 de junho de 2015

Trouxe mouxe

Uns aos solavancos e repelões,
outros em aceleradas reacções
Dos prontamente medicados
aos que se acostumam domesticados.
Dos engraxadores
aos coitados desajeitados.
É uma animação de palco
com pobres de estimação.
Por cá se vai andado
em modo trouxe mouxe.