domingo, 31 de agosto de 2014

Vazios

Tenho medo de alturas.
Como poderei provar
o meu heroísmo
se receio olhar o abismo.

São vazios, matéria densa.
Não os consigo definir.
Estão na base da angústia
como se estivesse numa prensa.

Um dia despertarei,
manhã sorridente e calma,
sem as dores
que me sangram a alma.






sábado, 30 de agosto de 2014

Hoje havia festa.

Sabia que estavas aqui
numa campa rasa,
sem pedras nem adornos.
Hoje havia festa.
Talvez nos tenhamos
conseguido despedir
na tua última casa.


T













sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Cascata

Nas veredas da serra
oiço a cascata,
num canto permanente
de água corrente.

(Noite de sono insuficiente,
não adormece o consciente,
numa insónia que não mente.)

Aquela água,
cuja melodia apazigua,
corre obstáculos na nascente,
num sonho premente,
porque a vida continua.

sábado, 23 de agosto de 2014

Norma sintomática

Sou incompatível
com fardas e formas.
Sinto mau estar
aprisionam-me as normas.

São aborrecidas
as coisas e pessoas normais.
Vivo bem sem elas,
não as procuro mais.

Neste caminho
deformo a forma,
fora do comum
congemino a norma.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Sentir

Quero sentir
o que sente
o pescador,
depois da faina,
quando abraça
a sua gente.

Quero sentir
o que sente
o agricultor
quando põe na terra
a semente.

Quero sentir
o que sente
o escultor
quando dá forma
à matéria insolente.

Quero sentir
o que sente
o menino
quando reencontra
o pai ausente.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

Agora vou.

Nasceste em mim anos depois de morreres. Percebi-o na noite em que sonhei contigo. Nunca acontecera.
Estávamos sentados na mesa de num café. Sorridente, pediste-me que fosse ao balcão comprar uma cautela da lotaria. Deste-me confiança para ir naquele espaço escuro. Agora vou.



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Escrever

Escrever
representa
a ambição
para descobrir
a razão.

Escrever
para combater
ruídos e dores
de silêncios
ensurdecedores.

Escrever.
Jogo ou recreio
preenche vazios
dá cor à falta
do que não veio.

domingo, 17 de agosto de 2014

Trechos de Sonhos

Fervilham em mim
trechos de sonhos,
energia de vivência,
parte de inconsciência.

Dos que me lembro
registo-os em pormenor.
Trepam à consciência,
constituem jurisprudência.

Restos promotores
de reconciliação e tolerância.
Abandonam a decadência,
cuidam a inocência.

Peças soltas
de puzzle truncado
feito de paciência
em modo de ciência.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Processo.

Fiz-me cimento.
Comigo fui violento,
inverno feito
de desconhecimento.

No divã recupero
interrompido desenvolvimento,
num processo sem retrocesso
de amadurecimento

O crescimento
tem segredo dos sábios;
a espera do benefício
do tempo.

Sem limites o conhecimento.
Ganho confiança.
No sintoma percebo
melhoramento.








quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Raizes

Devo servir
o meu tempo,
nesse continente
desconhecido, intemporal.
Quero-te olhar e sorrir.

Respondes
com teu sorriso
que desperta
e acelera
o meu relógio.

No meu tempo
crio raízes,
repouso
e ouso crescer
para sermos felizes.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Jogo de Areia

A areia fina do Carvalhal sai e entra na embalagem de iogurte sob o comando do menino louro que se alheia do mundo que à sua volta. Assume o controlo daquela brincadeira. Decide quando a areia sai e entra na embalagem. Naquele momento quer ser o dono da brincadeira, daquele jogo de entra e sai. Prepara-se para as decisões que a vida exige a cada momento.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Explosão Adolescente

Empurrado pela adolescência efervescente da descendência rumei ao Sudoeste. Festival de música que abandonou o conceito do desfile de grandes bandas mundiais e apostou na música electrónica com Djs de renome à escala planetária.
David Guetta, só no centro do palco gigante, qual furacão pirotécnico de luz, imagem e som que colocou  mais de cem mil almas em êxtase.
Na sua mesa de trabalho misturou grandes êxitos pop/rock do momento com ritmos electrónicos estonteantes em espiral ensurdecedora e explosiva. Os adolescentes chamam-lhe Drop. É um instante silencioso sucedido de uma explosão louca de ritmos.
Depois do espectáculo fiquei a pensar se não viveremos já numa sociedade tendencialmente explosiva, num mundo de ritmo acelerado que desemboca em frequentes explosões, numa espécie de ruptura com a realidade promovendo um estado de alienação da mente, próximo de um comportamento aditivo. Uma vertigem adolescente, ânsia de um orgasmo permanente.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Procura

Procurei a dor
que outrora não senti.
Talvez tenha sido aí
que me perdi.

Tornei-me
um ser aflito.
Escapar a dor
Sem dar um grito.

Evitei viver
para não sentir.
Foi com palavras
e silêncios
que me fiz ouvir.

No outro
procurei conforto
para enfrentar
o que me fez
morto.



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A ausência

A ausência,
não é intervalo,
sinto o meu lugar,
em permanência.

A ausência
é estar só
numa luz
que me seduz.

A ausência
traz-me a saudade
ajuda-me a crescer
na minha verdade.









terça-feira, 5 de agosto de 2014

Tempo da dor

Não há volta
a dar à dor,
aceite-mo-la
Sem temor.

Sem pressas
saberemos viver,
Se a dor
aceitarmos acolher.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Caminho

Esperaste por mim
o tempo que precisei.
Caminhaste a meu lado
por trilhos ínvios.
Deste-me serenidade
e ensinaste-me a tolerância.
Agora sinto que
continuamos a caminhar.




domingo, 3 de agosto de 2014

Escrevo

Não me chegam
as palavras ditas.
Preciso também
delas escritas.

Pergunto-me
porque escrevo?
Talvez para definir
os contornos do medo.

Quero conhece-lo,
buscar, utilizar
todas as palavras
até me cansar.

Insisto.
Quero enfrentá-lo
para criar
o meu lugar.

Se assim for,
não pararei de escrever,
medo não deixarei de ter
até morrer.







sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Afectos

Dá quem recebe.
Quem não deu
não recebeu e
de afectos
nada percebe.

Como poderia dar
se desconhecia receber?
Importa abrir a porta
que fechou com estrondo
quando queria viver.