terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Magia

Os passos de magia soçobraram. 
Sinto-me despido
da ilusão de outrora.
Percebo que amar
não é dimensão
permitida a preguiçosos.





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Memória ilusória

Chega o Natal.
Regresso impossível
ao ponto de partida.
Desconheço tanta gente.
Reconheço casas,
o rosto de um ou outro velho
entre rugas mais vincadas.
São as pessoas
que fazem os lugares.
O tempo passa.
O tempo corre
como a água do Nabão
debaixo da ponte.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eu sabia!


Eu sabia que eras homem de compromissos.
Eu sabia que era especial para ti.
Eu sabia que podia confiar.
Eu sabia que voltaria a ser Natal.
Eu sabia!.. Suspiro sussurrado do António, com um sorriso do tamanho do mundo, quando me viu chegar esta manhã com o embrulho debaixo do braço.  No presente iam tantos afectos quantos os que senti naquela expressão. 
Ambos dissemos Feliz Natal.
 

domingo, 21 de dezembro de 2014

A fogueira

Natal de tantos nadas,
lá atrás na infância
não eram só prendas e rabanadas.
No centro da eira
noite dentro
ardiam troncos de oliveira,
aqueciam a consoada ao relento.
Em redor da fogueira
agitavam-se crianças felizes
com o avô atento
às fagulhas incandescentes
que tocavam o céu
empurradas pelo vento.



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Perdidos

Afectos perdidos,
desligados, sem lugar
nem rosto.
Tornaram-se agressivos,
não os reconheço
Confinaram-me.
Enfrento-os em duelo desigual,
não sei quem pareço.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Natal

Não me aflijo.
Repouso o olhar
num deserto
vestido de branco,
onde ficou por nascer
um menino.
Na linha do horizonte
observo uma luz
grávida de esperança.






segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Encontrei-nos

Não me lembrava do teu rosto,
nem do teu sorriso liberto
de dias cinzentos e frios.
Fecharas-te num castelo
cheio de fantasmas
e deixaste-me à deriva
no fosso sombrio.
Envolvi a dor em palavras
à procura de nós.
Encontrei-nos em dia de sol.
Levava-te pela mão
a passear na minha rua.



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ondas

Preciso de escrever
na areia da praia
junto das ondas
que lavam palavras.
Tenho esperança
que lavem os vazios
nelas inscritos
a tinta da china.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Encontro.

Perscruto-me.
Trago-me pela mão
até ponto de encontro
de dois caminhos.
Experimento emoção da criança
capaz de sonhar o pai.



quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Viver

Viver sem dor
é viver sem amor.
Nascer sem ter nascido,
viver sem ter vivido.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Abraço

Nesta noite fria fui abraçado por uma música que ecoou nessa caixa vazia que me deixaste. Tons sublimes sobre um feixe de memória que me arrastaram para a emoção.



domingo, 30 de novembro de 2014

Regresso

Regresso sempre àquela praia
cheia de gente
onde me perdi de ti.
Caminho naquele areal
à beira do abismo.
Olhos aflitos procuram-te
em todo o lado,
não vêem o porto de abrigo,
lá ao fundo,
junto ao molhe.
Lázaro Lozano - Gente da Nazaré

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Não chega.

A escrita não chega
onde desejo chegar.
Vasculho palavras,
rabisco mil pensamentos,
mas não chega.
Sabendo-o resta-me
ir escrevendo.



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Inaceitável

Calquei o inaceitável.
Procurei conforto
em casa desabitada,
com janelas fechadas.
Vivi ao lado da dor,
num lugar
que não era o meu.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ódio necessário

Cercado por dois perigosos carteiristas,
e manietado pelo mais gigantesco,
lutei pela libertação
até desferir um violento soco na cabeceira .
Acordei,
Acordei, com a dor que me invadiu a carne
gesto de legítima defesa: deles e de mim.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Lusco fusco

Foram tempos
de interminável
lusco fusco.
Dissimuladas sombras,
fantasmas oriundos
de continente desconhecido
onde o sol não foi rei.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Eterno regresso

Ano após ano os sonhos revelam-me um eterno regresso à rádio nas mais rocambolescas circunstâncias. O último regresso aconteceu por estes dias. Ao acordar a memória reteve o momento da primeira alocução onde me saiu a frase: O segredo para a felicidade é a persistência, bem vindos a esta frequência.



domingo, 16 de novembro de 2014

À procura.

Saímos os dois
numa noite de tempestade
à procura um do outro.
Com perseverança,
encontrámo-nos, ao fim da tarde,
numa linha imaginária
entre o amor e ódio,
o bem e o mal
a desilusão e a esperança.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O afecto

Estou só no meio de gente. Fala-se em voz alta de tudo ou de nada. Conversas vãs de circunstância. Oiço gargalhadas esganiçadas. Todos parecem gritar para ninguém reparar. Já não me distraio com o ruído. Tenho encontro sem hora marcada com a dor: lá, onde se funda o afecto.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Sintonia

Muitos anos depois
encontrei teus olhos
naquele olhar sem abrigo.
Estremeci e acolhi
a dor que transportava.
Sintonia numa
frágil sinfonia.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Cai o muro.

Cai o muro,
tudo é novo.
Recomeço
despido,
titubeante
absorvendo
minuciosamente
a vida tal como é.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Olhar a morte, ganhar a vida.

Ao fundo da cama, com olhos que espelhavam o azul do Tejo, espreitava o marido, deitado no leito de morte, num quarto do hospital. Ao ritmo de lágrimas furtivas, entre cortadas com soluços silenciosos, vai desfiando o balanço da vida em comum: - Era um bom homem. Bebia e fumava muito e às vezes tratava-me mal. Dizia-me que andava com outros a troco de dinheiro. Isso ofendia-me. Nos últimos meses já se arrastava. Andava sempre com cara de sofrimento. Deixou de ser aquilo que era. Não esperava ter de passar por isto, mas toda a gente passa e eu não podia ser diferente. Não posso esperar muito mais da vida. Gozei muito. Tive uma vida boa. Deus também não me vai condenar. Não roubei nem matei. Trabalhei muito para ganhar a vida - disse




quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Repouso

Sinto o cansaço,
quase desfaleço.
Esgota-se a fuga,
esfuma-se a fantasia.
Repouso.
Entendo agora
merecer este lugar.
Transporto tudo
que fui capaz de sonhar.




domingo, 2 de novembro de 2014

Sem retorno

Caminho sem retorno.
Vislumbro uma
tenebrosa ilusão
de ficar sem chão.
Sinto-me bebé
nos primeiros passos:
receoso, desamparado,
mas determinado.
Carrego uma espécie
de cimento
que liga emoção
ao pensamento.






quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Preso ao imediato

Desorganizou-se no tempo. Não sabe que dia é daqui a três dias. Abandonado pelo pai na infância, pela mãe na adolescência. Começou a dormir nas ruas da cidade porque não aceita regras que não respeitam a sua dor. A droga é único porto seguro. Sobrevive preso ao imediato.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Corpo estranho.

Corpo estranho
este que me habita.
É estrangeiro.
Usurpou-me a ilusão.
Deixou-me suspenso,
sem palavras
para o descrever.




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Espessura

Desde sempre
carente, dependente.
Tenho estrutura,
tenho peso, estatura,
mas falta-me espessura.
Não odeio
com bravura,
na mesma medida
em que não amo
com doçura,
falta-me espessura.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Do medo ao cansaço

Passaram tantos anos.
Como poderia encontrar
teus olhos cabisbaixos?
O medo deu lugar ao cansaço.
Teria sido tudo mais fácil
se não me tivesses
aprisionado na tua dor.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Desilusão

No fundo dos teus olhos,
confronto-me com a nudez
da minha fragilidade.
Neles adquiri
dimensão infinita.
Pura fantasia, ilusão!
Afinal nunca foste capaz
de me desiludir.






domingo, 19 de outubro de 2014

Soma

A memória não alcança
o corpo não descansa.
Sinto o seu vai e vem
numa repetição incessante.
Raios partam este medo!
Será soma de outros medos?
Talvez sua matriz
esteja inculcada na raiz.





quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Mudar o mundo.

De onde vem a força desta menina que em segredo conta gostar muito de ler e falo à luz de uma pequena lanterna, debaixo dos cobertores, para não aborrecer os pais e incomodar o irmão que dorme no mesmo quarto?
Num contexto familiar e social adverso ela acredita que lendo poderá mudar o mundo...o seu mundo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dor que dói.

Arrasta-se no tempo a dor no peito
que ainda te trás em mim.
O coração apertado e cansado
já reconhece essa dor que dói.
Dor suave como são as memórias
agora mais longínquas de ti.







terça-feira, 14 de outubro de 2014

Só palavras

Foram anos de tentativas vãs
a atulhar vazios com palavras.
Foram anos de palavras despovoadas,
fúteis, frívolas, sem sentido.
Apesar de tudo, insisto nelas,
ponto de encontro apaziguador,
talvez seja forma de encontrar o amor.







segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Médias

No esvoaçar dos dias dou por mim a pensar na mediania. Estarão a tentar fazer de nós constituintes de uma média, sendo que tudo o que sai desse registo médio torna-se ameaçador?
A representação que seremos números encarreirados e emparedados numa qualquer grelha de excel faz-me sentir agrilhoado.





domingo, 12 de outubro de 2014

No Inverno das coisas.

É no Inverno das coisas que me observo melhor.
Há menos luz exterior, afiro a minha luminescência.
Sinto o amadurecimento longe da dispersão do Verão,
numa reflexão que faz emergir em mim
a justaposição entre uma e outra estação.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Inverno?


Nos nossos dias até o tempo revela problemas de ansiedade. O inverno e o frio já não chegam a estas latitudes de forma suave. Sinto que perderam elegância, revelam-se abrutalhados, vêm com trombas e fazem-se anunciar através de alertas de várias cores incutindo-nos receio. O tempo perdeu tranquilidade, assim como muitos de nós.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Desculpem, mas existo!

Às portas da adolescência, abandonado pelo pai, entranhou as dores da mãe e não entende o que se passa. O seu discurso é um contínuo acto de contrição por existir. A culpa que carrega é-lhe insuportável. Apeteceu-me abraçá-lo e dizer-lhe que são os pais que não o merecem. Espero que um dia chegue a essa conclusão.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Viagem

Algures durante a viagem,
ao contrário do que pensara antes,
concluí que o mais importante
não é chegar, mas partir.
Percebi que se não tivesse partido,
não chegaria a lugar nenhum.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Existência

No sonho choro
o desamparo e solidão
de quem ficou à deriva
ao soltar-se do rochedo.
São as dores da criação
de uma existência
prestes a acontecer.








domingo, 5 de outubro de 2014

Perder e Encontrar

São férteis os sonhos quando o sono se espraia pela manhã. Guardei aquele que me devolveu o meu primeiro carro. Não conseguia estacioná-lo onde pretendia. Subitamente perdi os travões, o carro seguiu desgovernado rua abaixo comigo numa aflição tremenda. Instantes depois aparcou num lugar melhor, mesmo à medida do que procurava. Ao acordar recordei uma frase que ouvira no dia anterior:"Muitas vezes é necessário perder-mo-nos para nos encontra-mos verdadeiramente."



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Separação

Voltei a sonhar que partiras, mas desta vez não me senti desamparado à beira do abismo. Não acordei com o coração aos pulos. Não foi necessário acender a luz da cabeceira. O sonho não terminara abruptamente. Pela manhã estava orgulhoso de mim próprio por ter suportado a angústia da nossa separação.



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Tempo da infância.


O tempo nem é cronológico nem linear. Não me lembro dos dias todos por igual. Tenho ideia que o tempo da infância foi mais longo. Se assim não fosse como poderia ter memória minudente de tantos dias, tantas horas e tantas coisas que fiz?

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Repetição

Discorro lembranças
em compassos livres.
A cada repetição
tons diferentes
na emoção.
Neste processo
expande-se a razão
desvanece-se a aflição,
de forma indelével
dou tréguas ao coração.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Algo de novo.

Apareço agora
diante de mim.
Sinto que me habita
algo de novo.
Talvez seja um espelho,
construído e não achado
no trilho da dor
que se foi fazendo
presente.



domingo, 28 de setembro de 2014

Teus olhos.

Foram teus olhos
que me paralisaram,
meninas do meu desamparo.
Fiquei circunscrito
a esse espelho
de indiferença,
prossegui temerário,
destituído de confiança.



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Bolha

Olho para trás,
ainda vejo
aquela bolha,
plena de fantasia,
a revoar nos vazios
daquele precipício
agora dissimulado
pela bruma do tempo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

No Banco do Jardim.


Os seus dias terão ficado lá atrás dos bancos de nevoeiros que povoam a memória. Arrastados pela vertigem da modernidade, os dois velhos sentados no banco do jardim denunciavam estados de espirito diferentes. Um, mais sereno, quase que dormitava a aproveitar o calor dos raios de sol outonais que penetravam por entre a folhagem da borracheira. O outro parecia mais agitado, procurava algo com o olhar.
Quando percebeu que alguém se aproximava interpelou de forma educada e num tom coloquial e profético: - Por favor, gostava de chamar a sua atenção para o facto de Deus ser luz, pai e amor – após um compasso de espera silencioso irrompeu com uma pergunta: - sabe qual das três dimensões é a primeira? O homem surpreendido olhou para o relógio dando a entender que estava com pressa, no entanto decidiu responder sem grande convicção para fazer a vontade ao velho: - Talvez seja a do amor. O velho triunfante disse que não é o amor, mas sim a luz; - Sem ela o senhor não veria nem o pai nem o amor - rematou com ar de gozo.




quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Tonturas

Não são tontas as tonturas,
porfio com a memória,
oiço os sentidos
dou fio à história.
Artífice de palavras,
faço delas as varas
dos meus instáveis
equilíbrios.





segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Ser Só.

Nesta condição,
estou só
e não sinto a solidão.
Repouso nela
como se levitasse
sobre um campo
vestido de manto branco,
longe das aflições
de outrora.
Gosto de estar a meu lado,
espreitar aquele prado,
pelos rigores do inverno,
transformado.








domingo, 21 de setembro de 2014

Entender o Amor.

Porque hás-de
querer entender-me
se eu próprio
tenho tamanhas
dificuldades em fazê-lo?
Ficarei feliz
se um dia concluíres
que fui capaz
de me entregar.