Chega o Natal.
Regresso impossível
ao ponto de partida.
Desconheço tanta gente.
Reconheço casas,
o rosto de um ou outro velho
entre rugas mais vincadas.
São as pessoas
que fazem os lugares.
O tempo passa.
O tempo corre
como a água do Nabão
debaixo da ponte.
Eu sabia!.. Suspiro sussurrado
do António, com um sorriso do tamanho do mundo, quando me viu chegar esta manhã com o
embrulho debaixo do braço. No presente iam tantos afectos quantos os que senti naquela expressão.
Natal de tantos nadas,
lá atrás na infância
não eram só prendas e rabanadas.
No centro da eira
noite dentro
ardiam troncos de oliveira,
aqueciam a consoada ao relento.
Em redor da fogueira
agitavam-se crianças felizes
com o avô atento
às fagulhas incandescentes
que tocavam o céu
empurradas pelo vento.
Afectos perdidos,
desligados, sem lugar
nem rosto.
Tornaram-se agressivos,
não os reconheço
Confinaram-me.
Enfrento-os em duelo desigual,
não sei quem pareço.
Não me aflijo.
Repouso o olhar
num deserto
vestido de branco,
onde ficou por nascer
um menino.
Na linha do horizonte
observo uma luz
grávida de esperança.
Não me lembrava do teu rosto,
nem do teu sorriso liberto
de dias cinzentos e frios.
Fecharas-te num castelo
cheio de fantasmas
e deixaste-me à deriva
no fosso sombrio.
Envolvi a dor em palavras
à procura de nós. Encontrei-nos em dia de sol.
Levava-te pela mão
a passear na minha rua.
Nesta noite fria fui abraçado por uma música que ecoou nessa caixa vazia que me deixaste. Tons sublimes sobre um feixe de memória que me arrastaram para a emoção.
Regresso sempre àquela praia
cheia de gente
onde me perdi de ti.
Caminho naquele areal
à beira do abismo.
Olhos aflitos procuram-te
em todo o lado,
não vêem o porto de abrigo,
lá ao fundo,
junto ao molhe.
Ano após ano os sonhos revelam-me um eterno regresso à rádio nas mais rocambolescas circunstâncias. O último regresso aconteceu por estes dias. Ao acordar a memória reteve o momento da primeira alocução onde me saiu a frase: O segredo para a felicidade é a persistência, bem vindos a esta frequência.
Saímos os dois
numa noite de tempestade
à procura um do outro.
Com perseverança,
encontrámo-nos, ao fim da tarde,
numa linha imaginária
entre o amor e ódio,
o bem e o mal
a desilusão e a esperança.
Estou só no meio de gente. Fala-se em voz alta de tudo ou de nada. Conversas vãs de circunstância. Oiço gargalhadas esganiçadas. Todos parecem gritar para ninguém reparar. Já não me distraio com o ruído. Tenho encontro sem hora marcada com a dor: lá, onde se funda o afecto.
Ao fundo da cama, com olhos que espelhavam o azul do Tejo, espreitava o marido, deitado no leito de morte, num quarto do hospital. Ao ritmo de lágrimas furtivas, entre cortadas com soluços silenciosos, vai desfiando o balanço da vida em comum: - Era um bom homem. Bebia e fumava muito e às vezes tratava-me mal. Dizia-me que andava com outros a troco de dinheiro. Isso ofendia-me. Nos últimos meses já se arrastava. Andava sempre com cara de sofrimento. Deixou de ser aquilo que era. Não esperava ter de passar por isto, mas toda a gente passa e eu não podia ser diferente. Não posso esperar muito mais da vida. Gozei muito. Tive uma vida boa. Deus também não me vai condenar. Não roubei nem matei. Trabalhei muito para ganhar a vida - disse
Sinto o cansaço,
quase desfaleço.
Esgota-se a fuga,
esfuma-se a fantasia.
Repouso.
Entendo agora
merecer este lugar.
Transporto tudo
que fui capaz de sonhar.
Desorganizou-se no tempo. Não sabe que dia é daqui a três dias. Abandonado pelo pai na infância, pela mãe na adolescência. Começou a dormir nas ruas da cidade porque não aceita regras que não respeitam a sua dor. A droga é único porto seguro. Sobrevive preso ao imediato.
Desde sempre
carente, dependente.
Tenho estrutura,
tenho peso, estatura,
mas falta-me espessura.
Não odeio
com bravura,
na mesma medida
em que não amo
com doçura,
falta-me espessura.
Passaram tantos anos.
Como poderia encontrar
teus olhos cabisbaixos?
O medo deu lugar ao cansaço.
Teria sido tudo mais fácil
se não me tivesses
aprisionado na tua dor.
No fundo dos teus olhos,
confronto-me com a nudez
da minha fragilidade.
Neles adquiri
dimensão infinita.
Pura fantasia, ilusão!
Afinal nunca foste capaz
de me desiludir.
A memória não alcança
o corpo não descansa.
Sinto o seu vai e vem
numa repetição incessante.
Raios partam este medo!
Será soma de outros medos?
Talvez sua matriz
esteja inculcada na raiz.
De onde vem a força desta menina que em segredo conta gostar muito de ler e falo à luz de uma pequena lanterna, debaixo dos cobertores, para não aborrecer os pais e incomodar o irmão que dorme no mesmo quarto?
Num contexto familiar e social adverso ela acredita que lendo poderá mudar o mundo...o seu mundo.
Arrasta-se no tempo a dor no peito
que ainda te trás em mim.
O coração apertado e cansado
já reconhece essa dor que dói.
Dor suave como são as memórias
agora mais longínquas de ti.
Foram anos de tentativas vãs
a atulhar vazios com palavras.
Foram anos de palavras despovoadas,
fúteis, frívolas, sem sentido.
Apesar de tudo, insisto nelas,
ponto de encontro apaziguador,
talvez seja forma de encontrar o amor.
No esvoaçar dos dias dou por mim a pensar na mediania. Estarão a tentar fazer de nós constituintes de uma média, sendo que tudo o que sai desse registo médio torna-se ameaçador?
A representação que seremos números encarreirados e emparedados numa qualquer grelha de excel faz-me sentir agrilhoado.
É no Inverno das coisas que me observo melhor.
Há menos luz exterior, afiro a minha luminescência.
Sinto o amadurecimento longe da dispersão do Verão,
numa reflexão que faz emergir em mim
a justaposição entre uma e outra estação.
Nos nossos dias até o tempo revela
problemas de ansiedade. O inverno e o frio já não chegam a estas latitudes de
forma suave. Sinto que perderam elegância, revelam-se abrutalhados, vêm com
trombas e fazem-se anunciar através de alertas de várias cores incutindo-nos receio. O tempo perdeu tranquilidade, assim como muitos de nós.
Às portas da adolescência, abandonado pelo pai, entranhou as dores da mãe e não entende o que se passa. O seu discurso é um contínuo acto de contrição por existir. A culpa que carrega é-lhe insuportável. Apeteceu-me abraçá-lo e dizer-lhe que são os pais que não o merecem. Espero que um dia chegue a essa conclusão.
Algures durante a viagem,
ao contrário do que pensara antes,
concluí que o mais importante
não é chegar, mas partir.
Percebi que se não tivesse partido,
não chegaria a lugar nenhum.
São férteis os sonhos quando o sono se espraia pela manhã. Guardei aquele que me devolveu o meu primeiro carro. Não conseguia estacioná-lo onde pretendia. Subitamente perdi os travões, o carro seguiu desgovernado rua abaixo comigo numa aflição tremenda. Instantes depois aparcou num lugar melhor, mesmo à medida do que procurava. Ao acordar recordei uma frase que ouvira no dia anterior:"Muitas vezes é necessário perder-mo-nos para nos encontra-mos verdadeiramente."
Voltei a sonhar que partiras, mas desta vez não me senti desamparado à beira do abismo. Não acordei com o coração aos pulos. Não foi necessário acender a luz da cabeceira. O sonho não terminara abruptamente. Pela manhã estava orgulhoso de mim próprio por ter suportado a angústia da nossa separação.
O tempo nem é cronológico nem
linear. Não me lembro dos dias todos por igual. Tenho ideia que o tempo da
infância foi mais longo. Se assim não fosse como poderia ter memória minudente de
tantos dias, tantas horas e tantas coisas que fiz?
Discorro lembranças
em compassos livres.
A cada repetição
tons diferentes
na emoção.
Neste processo
expande-se a razão
desvanece-se a aflição,
de forma indelével
dou tréguas ao coração.
Apareço agora
diante de mim.
Sinto que me habita
algo de novo.
Talvez seja um espelho,
construído e não achado
no trilho da dor
que se foi fazendo
presente.
Foram teus olhos
que me paralisaram,
meninas do meu desamparo.
Fiquei circunscrito
a esse espelho
de indiferença,
prossegui temerário,
destituído de confiança.
Os seus dias terão ficado lá
atrás dos bancos de nevoeiros que povoam a memória. Arrastados pela vertigem da
modernidade, os dois velhos sentados no banco do jardim denunciavam estados de
espirito diferentes. Um, mais sereno, quase que dormitava a aproveitar o calor
dos raios de sol outonais que penetravam por entre a folhagem da borracheira. O
outro parecia mais agitado, procurava algo com o olhar.
Quando percebeu que alguém se aproximava
interpelou de forma educada e num tom coloquial e profético: - Por favor, gostava de chamar
a sua atenção para o facto de Deus ser luz, pai e amor – após um compasso de
espera silencioso irrompeu com uma pergunta: - sabe qual das três dimensões é a
primeira? O homem surpreendido olhou para o relógio dando a entender que estava
com pressa, no entanto decidiu responder sem grande convicção para fazer a vontade ao
velho: - Talvez seja a do amor. O velho triunfante disse que não é o amor, mas
sim a luz; - Sem ela o senhor não veria nem o pai nem o amor - rematou com ar
de gozo.
Não são tontas as tonturas,
porfio com a memória,
oiço os sentidos
dou fio à história.
Artífice de palavras,
faço delas as varas
dos meus instáveis
equilíbrios.
Nesta condição,
estou só
e não sinto a solidão.
Repouso nela
como se levitasse
sobre um campo
vestido de manto branco,
longe das aflições
de outrora.
Gosto de estar a meu lado,
espreitar aquele prado,
pelos rigores do inverno,
transformado.
Porque hás-de
querer entender-me
se eu próprio
tenho tamanhas
dificuldades em fazê-lo?
Ficarei feliz
se um dia concluíres
que fui capaz
de me entregar.