segunda-feira, 30 de março de 2015

Não con (fundir)

A tua ausência provocava em mim a angústia que sente um bebé quando deixa de ver a mãe durante um curto espaço de tempo. O facto de não estares perto já não me é insuportável. Já não me deixa mergulhada no abismo do desamparo.
Uma noite destas sonhei que estavas longe e um telefonema deixou-me preocupada com o teu bem estar. Fiquei feliz por perceber que já não me confundo contigo, que existes fora de mim. 
Não achas que estou mais crescida?


                                         Diego Velasquez




sexta-feira, 27 de março de 2015

quinta-feira, 26 de março de 2015

Descrever e compreender.

A mim não me interessa apenas que sejas capaz de  descrever a tua verdade, trabalho afincadamente a teu lado para que um dia consigas explicá-la.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Tempestade.

A terminar a conversa pedi-lhe que me falasse de uma qualquer memória de infância. Descreveu-me os jantares em família.
- Éramos sete à mesa. A refeição terminava sempre da mesma maneira. Ficávamos todos encharcados. A minha mãe castigava a nossa irrequietude com gritos e o arremesso da água que tinha no copo. Até o meu pai, que na maior parte das vezes cochilava a ouvir o tagarelar dela, era engolido pela tempestade.

terça-feira, 24 de março de 2015

A lambreta da Hello Kitty.


Quão difícil é crescer!...São dezasseis anos e uma desenvoltura física impressionante. Trata a mãe como igual numa simetria doentia. É repetente pela terceira vez. No seu estilo de maria-rapaz diz que os colegas do sexto ano são pequenos e poderiam ser seus filhos.
Perspectivando a entrada no mundo adulto realça o desejo de ter uma lambreta, mas com decoração da Hello Kitty: - Mãe, tu sabes que eu gosto muito da Hello Kitty!

segunda-feira, 23 de março de 2015

Velhas conhecidas.

Passei a noite a tentar agarrar-me a estruturas metálicas que cediam facilmente criando uma sensação
de vertigem. Quando acordei, hirto e estremunhado, concluí que estas velhas conhecidas já não servem para me amparar.



quinta-feira, 19 de março de 2015

De um filho...

Lembras-te da tampa do chão da arrecadação? Em certa altura na minha infância acreditei que era a porta secreta de uma entrada para um mundo fantástico, onde existiriam pessoas felizes,
bem parecidas com fatos brilhantes, como no circo que nos visitava por altura da feira anual.
Tive tanta curiosidade em espreitar.
As minhas pequenas mãos não tinham força para a remover.
Muitos anos mais tarde sonhei que a tinhas retirado para que eu pudesse entrar e deslumbrar-me com aquele cenário majestoso. Tudo era novo e reluzente. Todas as pessoas tinham sorrisos largos e mostravam-se dispostas a abraçar-me.
Afinal, estava tudo ali na arrecadação da nossa casa.


                                P. Picasso

quarta-feira, 18 de março de 2015

Omnipotência

Regressas pela calada da noite,
mostras-me o teu sorriso.
Absorvo-o.
Com ele expando-me,
transbordo de felicidade,
torno-me palco omnipotente.
Ao raiar do dia dissipas-te,
eu acordo no meu corpo.

                                         Claude Monet - soleil levant
                               

terça-feira, 17 de março de 2015

Separar

Parecias tudo o que
desejava ser e ter.
A tua presença
inebriava-me.
Morei em ti,
longe de imaginar
que quando partisses
me condenasses
a esculpir a solidão.



domingo, 15 de março de 2015

Escutar

Podes ainda não saber, mas sinto-te agora mais tranquila. Aprendi a escutar
-te mesmo quando não falas para mim, mesmo quando estás longe.




quinta-feira, 12 de março de 2015

Regresso à escola.

Talvez não volte a sonhar com aquele eterno regresso ao primeiro dia de escola, onde  experimentara o desamparo de quem levava apenas por companhia o filho do taberneiro. Neste último regresso apresentei-me sozinho. Antes de entrar, disse para mim mesmo que já tinha concluído a escolaridade.

terça-feira, 10 de março de 2015

Despertar

Este divã não é para dormir,
pelo contrário,
é para desassombrar,
experimentar,
conhecer,
despertar.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Tu e eu.

Por estes dias apeteceu-me escrever sobre as tuas histórias de criança que me contavas quando eu era menino. Instantes depois percebi que isso era escrever sobre mim.


sábado, 7 de março de 2015

For(matar)

Tentam for(matar-me)
numa tabela
e exigem-me resultados,
sem saberem quem sou.
Zanguei-me com a excelência.
Para mim um suficiente
é suficiente.




quinta-feira, 5 de março de 2015

Primários.

Seremos sociedade primária?
Por vezes penso que sobra dimensão infantil que nos tolhe, que nos deixa-nos passivos, de braços no ar, à espera do colo de um Dom Sebastião qualquer.



quarta-feira, 4 de março de 2015

Sonhei contigo.

Esta noite sonhei contigo. Estavas deitada numa cama onde senti o teu perfume a as tuas formas redondas. Olhar decidido, de cara levantada, pegaste em mim e levaste-me pela mão para enfrentar o mundo.







terça-feira, 3 de março de 2015

Escolhas.

Consciente de ser,
neste caminho finito,
condeno-me
à liberdade de escolher,
sabendo que ganhar
implica perder.


domingo, 1 de março de 2015

A herança

Os filhos competiam por afectos que não existiam.
Vida madrasta envolvera a mãe num buraco negro,
afastando-a da realidade que gritava por ela.
O pai há muito que se escondera nas tabernas.
Os anos passaram...
As crias seguiram o azimute da sobrevivência
levando consigo aquele abismo.