quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Lara não era dali

A conversa durou o tempo que tinha de durar: discutimos, conversámos, chorámos juntos. Três anos depois do parto aquela jovem mãe não adquirira competências para cuidar da sua menina, nem desenvolvera espaço afectivo para ela – ao contrário do que jurava a pés juntos.
Os sinais de alerta eram evidentes: uma mãe claramente negligente, que largava a filha aos cuidados de outrem com facilidade; uma criança com comportamentos e gestos prematuramente sexualizados.
Na última vez que estivéramos juntos tinha-me prometido que levaria a Lara ao Jardim de Infância, mas mais uma vez a menina não foi. A mãe deitara-se de madrugada, como em muitas outras madrugadas; a menina ficara com o “avô”, homem doente sobre o qual pairavam desconfianças de abuso.
Não havia alternativa: Lara seria retirada a sua mãe. Era agora urgente fazê-lo da melhor forma.
No dia D, apresentaram-se impecavelmente vestidas: mãe de semblante tenso; filha ávida de mundo e de quem a rodeava.
Quando percebeu que a esperança que trazia em reverter a situação era em vão, aquela jovem, que a lei apelida de adulta, escancarou a porta da sua vida desprovida e desvalida, que lhe deixara fortes marcas nas curvas do rosto deprimido.
Confessei-a, mas pedi-lhe absolvição pelo pecado da lei. Pedi-lhe que confiasse a menina; que ficaria bem; que seria a oportunidade da progenitora criar um lar para a sua cria. Percebi-o no seu olhar: não acreditava em si mesma, nem na capacidade de reorientar a vida.
Debaixo de choro intenso, soluçou o amor de mãe que julgava ter - sem perceber que entregar a filha poderia ser o acto de amor mais grandioso.
Depois daquele choro profundo, que lhe borratou a face, recompôs-se, limpou as lágrimas e saiu dizendo de forma seca:
- Faça o que achar melhor.

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