Conheci-o em casa da avó paterna, com quem vivia: o
pai, toxicodependente, morrera de HIV; a mãe refizera a sua vida noutro lugar,
tivera um bebé com outro homem.
Vou chamar-lhe António. Tinha dez anos e uns olhos
imensos, grávidos de pesar, que pareciam ausentar-se do corpo quando a avó o
acusava do inacusável: “és um vadio e um ordinário”. Mulher austera, dura
como a vida que tinha, dividia-se entre a venda no mercado, para onde ia de
madrugada, e aquele neto – único sobejo do filho que a droga tragara.
Entregue a si mesmo, António ia à escola
quando calhava – e, caso calhasse, o comportamento era de tal modo desajustado
e provocatório que pouco aprendia: “um vadio e um ordinário, tal e qual a mãe,
Sôtor!”
Era apenas nesta altura, quando ouvia a
palavra ‘mãe’, que António despertava do lugar onde a sua alma se encobria: o fulgor
conquistava-lhe o olhar, e olhar dele conquistava o nosso.
Procurá-mo-la. Encontrá-mo-la. Percebemos
que misturara o filho com a sogra - que odiava-, e os fechara num quarto do
qual tinha deitado fora a chave. Procurámos abrir a porta, mostrá-los separadamente.
Aceitou-o.
Os primeiros encontros entre uma mãe e um
filho, carregados de ódio, dor e amor, foram de silêncio quase absoluto. Depois,
ele, que aparentemente não tinha quaisquer competências sociais, quis saber do
irmão - e o gelo começou a fundir. Vieram os fins-de-semana: a aproximação corria
melhor que o esperado; “ele é muito carinhoso com o irmão” - dizia a mãe, quase
com orgulho.
Cada vez mais intransigente com a avó, com
quem continuava a viver, António sonhava
todos os dias com o final do ano lectivo, com as férias prometidas em casa da
mãe - e talvez com uma mudança definitiva para lá.
O dia chegou. Em terreno neutro, para que
nora e sogra não se afrontassem, António, de olhar cheio jubiloso, mostrava-se
preparado como nunca para começar a vida. Esperou. Esperou. Esperou.
Depois de muitos telefonemas não
atendidos, a mãe, entre gritos e queixumes, falou do marido, de como estava
entre a espada e a parede: se entrasse o filho mais velho, sairia o mais novo
com o pai; não podia, não podia, nunca mais.
Não há palavras capazes de dizer a uma
criança que sua vida acabara quando parecia prestes a começar: já não sei as
que disse, desfiz-me delas como quem se desfaz da arma de um crime. Recebi a
sua lágrima silenciosa e, mais tarde, acompanhei-o ao Centro de Acolhimento.
Nunca mais o vi. Hoje será adulto, como nós – como será o seu olhar?

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