segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os olhos de Márcia

- Ela está a escrever um livro - dizia-me a mãe em surdina, como se estivesse alguém a assistir à conversa.
- Só o vai mostrar quando estiver pronto - disparou logo depois. Márcia prepara-se para revelar mais uma parte do seu mundo interno, pensei.
Com catorze franzinos anos, vividos num ambiente familiar violento, fechara-se para o mundo e só os olhos falavam. Muito pouco para quem tinha tanto para dizer. Olhos de um azul imenso, o Tejo em dia de sol radioso. Deixara de ir à escola pois tudo se tornara assustador. Pela manhã havia sempre uma dor como pretexto para as dores que não se viam.
Qualquer "porquê?" era suficiente para arregalar os olhos como quem quisesse dizer: - Estou aqui, mas não perguntes sobre o que não consigo pensar e muito menos falar. Se insistíssemos, a sua aflição tornava o seu azul ainda mais brilhante, com uma lágrima a querer soltar-se.
Era impossível resistir aos apelos aflitos daqueles olhos. Mergulhei no Tejo.
Dois anos depois, Márcia já mostrava algumas das situações que lhe provocaram sofrimento, através da banda desenhada. O pai abandonara o lar e Márcia parecia sentir-se mais aliviada, apesar de se manter apática e triste. A mãe, mais sensível às suas fragilidades e às da filha, procurou-me ávida de contar a boa nova: - Ela está a escrever um livro.
Márcia parecia pronta para tomar conta da sua história.















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