domingo, 18 de maio de 2014

A hora do pai

Renato era nome de troféu que a mãe ostentava, anos depois do divórcio. A separação trouxera Renato na bagagem da mãe para triunfar numa nova vida na Europa. Aos sete anos ninguém perguntara à criança se concordava com o seu desenraizamento para o lado de cá do Oceano.
Renato cedo revelou a sua discordância do sucedido através de comportamentos rebeldes e provocatórios em relação a todos os que o rodeavam neste seu novo mundo. Reconhecidamente inteligente, revelava ostensivamente uma atitude de rejeição à escola e às regras que a mãe tentava estabelecer.
Sem suporte familiar, a mãe deixava o Renato sozinho em casa durante o período da tarde. Entregue a si próprio e ao computador, Renato começou a desmontar electrodomésticos e a esconder as peças em locais recônditos da casa. Só muito tempo depois a mãe descobriu esta travessura do filho.
As notas da escola e o comportamento agravaram-se, assim como a relação com a mãe. Os castigos e as palmadas para corrigir o Renato passaram a ser regulares.
A mãe não admitia a ideia do Renato poder regressar ao Brasil, para junto do pai. Para ela, se acontecesse, era como abdicar de uma parte de si mesma. Seria entregar o troféu para uma pessoa que supostamente odiava. Desdenhava do pai e do sistema de ensino brasileiro para justificar a permanência do filho junto dela.
Num certo Verão, a mãe autorizou o Renato a passar férias com o pai. De regresso a Portugal, Renato cavou uma trincheira maior num combate para voltar para a companhia do pai.
Umas semanas depois de ter regressado de férias, visitei Renato. A meio da conversa percebi que o relógio de ponteiros marcava onze horas, quando eram quinze. Perguntei: - Tens o relógio parado? Suspirou e respondeu em seguida: - Prefiro saber as horas que são lá, onde está o meu pai.

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