Pergunta banal que se faz a todas
as crianças: o que queres ser quando fores grande? Da resposta podemos inferir
como é que a criança se projecta no futuro, como olha para os pais e
para o que a rodeia.
Certo dia fiz esta pergunta ao
Carlitos de cinco anos. A criança estava aos cuidados dos avós paternos. O pai
e a mãe, perdidos nos trilhos da droga, avistavam o filho de quando em vez - visitas curtas, controladas pelos avós, sem grande envolvimento afectivo.
Nenhum dos pais sonhou aquela
criança e não havia espaço para ela nas suas vidas perdidas. A vida errante da mãe era pouco conhecida; do pai constava que dormia onde calhava e
durante o dia arrumava carros no estacionamento do Pingo Doce - Carlitos pouco mais sabia.
Os avós cuidadores, na casa dos
sessenta anos, reformados, tinham uma vida organizada - tanto
quanto era possível ter a vida organizada quando existia um filho sem-abrigo e
na droga, e um neto para cuidar.
Quando procurei perceber que horizonte vislumbrava para o futuro e lhe fiz a pergunta da ordem (que queres ser quando fores grande?), Carlitos respondeu, de forma pronta e determinada: - Quero ser arrumador de carros no Pingo Doce!

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