terça-feira, 13 de maio de 2014

O arrumador de carros

Pergunta banal que se faz a todas as crianças: o que queres ser quando fores grande? Da resposta podemos inferir como é que a criança se projecta no futuro, como olha para os pais e para o que a rodeia.
Certo dia fiz esta pergunta ao Carlitos de cinco anos. A criança estava aos cuidados dos avós paternos. O pai e a mãe, perdidos nos trilhos da droga, avistavam o filho de quando em vez - visitas curtas, controladas pelos avós, sem grande envolvimento afectivo.
Nenhum dos pais sonhou aquela criança e não havia espaço para ela nas suas vidas perdidas. A vida errante da mãe era pouco conhecida; do pai constava que dormia onde calhava e durante o dia arrumava carros no estacionamento do Pingo Doce - Carlitos pouco mais sabia.
Os avós cuidadores, na casa dos sessenta anos, reformados, tinham uma vida organizada - tanto quanto era possível ter a vida organizada quando existia um filho sem-abrigo e na droga, e um neto para cuidar.
Quando procurei perceber que horizonte vislumbrava para o futuro e lhe fiz a pergunta da ordem (que queres ser quando fores grande?), Carlitos respondeu, de forma pronta e determinada: - Quero ser arrumador de carros no Pingo Doce!

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