Era
uma espécie de corpo vivo, dinâmico. Em
fundo ouvia-se sempre o ruído continuo de motores.
Vivia
paredes-meias com o pulsar de uma indústria de fiação que empregava mais de
dois mil trabalhadores, na sua maioria mulheres. As mudanças de turno
correspondiam às horas mais agitadas na rua: às 6, às 14 e às 22 horas.
Conheci
a Fábrica já depois de 1974, quando entrara na sua fase descendente. A
concorrência dos mercados estrangeiros estava a instalar-se e o tecido ali
produzido a perder terreno. Chegou a ser
uma das indústrias mais importante do país. Em tempos mais recuados chegara a
ter uma creche, para os filhos dos funcionários, e até uma enfermaria equipada
para fazer partos.
A
Fábrica tinha um aspecto imponente e alguns dos seus edifícios beleza
arquitectónica. Marcava de forma indelével a paisagem da zona e a actividade
económica da comunidade que se instalara à sua volta.
Sentíamos
o pulsar da Fábrica, o seu frenesim transmitia-se ao quotidiano da comunidade,
até porque boa parte das pessoas ali trabalhava. Muitas conversas em família
giravam em torno da actividade da fábrica: a quantidade de veiculos pesados que
entravam e saíam, os acidentes com trabalhadores e a presença da ambulância, avarias
das máquinas, histórias acerca de novos e velhos trabalhadores, relações
profissionais...
A
decadência da Fábrica arrastou quase toda a comunidade. Grande parte do
comércio fechou portas, muitas famílias saíram dali e outras enfrentaram
situações de pobreza, droga e exclusão social.
Quando
ali regresso, observo ainda a Fábrica em escombros, como se fosse uma ferida que
teima em não sarar. Os que ficaram dizem-me: “isto aqui morreu com a Fábrica”.
Manuel Campus
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