segunda-feira, 21 de abril de 2014

A Fábrica

Era uma espécie de corpo vivo, dinâmico.  Em fundo ouvia-se sempre o ruído continuo de motores.
Vivia paredes-meias com o pulsar de uma indústria de fiação que empregava mais de dois mil trabalhadores, na sua maioria mulheres. As mudanças de turno correspondiam às horas mais agitadas na rua: às 6, às 14 e às 22 horas.
Conheci a Fábrica já depois de 1974, quando entrara na sua fase descendente. A concorrência dos mercados estrangeiros estava a instalar-se e o tecido ali produzido a perder  terreno. Chegou a ser uma das indústrias mais importante do país. Em tempos mais recuados chegara a ter uma creche, para os filhos dos funcionários, e até uma enfermaria equipada para fazer partos.
A fiação era auto-suficiente em termos energéticos. A electricidade que consumia provinha de uma mini-hídrica construída para o efeito. Fora também construída uma vala de água com cerca de dois quilómetros, onde grande parte dos miúdos da rua aprendeu a nadar, eu incluído.
A Fábrica tinha um aspecto imponente e alguns dos seus edifícios beleza arquitectónica. Marcava de forma indelével a paisagem da zona e a actividade económica da comunidade que se instalara à sua volta.
Sentíamos o pulsar da Fábrica, o seu frenesim transmitia-se ao quotidiano da comunidade, até porque boa parte das pessoas ali trabalhava. Muitas conversas em família giravam em torno da actividade da fábrica: a quantidade de veiculos pesados que entravam e saíam, os acidentes com trabalhadores e a presença da ambulância, avarias das máquinas, histórias acerca de novos e velhos trabalhadores, relações profissionais...
A decadência da Fábrica arrastou quase toda a comunidade. Grande parte do comércio fechou portas, muitas famílias saíram dali e outras enfrentaram situações de pobreza, droga e exclusão social.
Quando ali regresso, observo ainda a Fábrica em escombros, como se fosse uma ferida que teima em não sarar. Os que ficaram dizem-me: “isto aqui morreu com a Fábrica”.

                                                                                                                         Manuel Campus

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