Chamavam-lhe Bandarra porque
exercera pacientemente a
profissão de Sapateiro toda a vida. A sua oficina tinha funcionado num anexo,
nas traseiras de sua casa, durante
dezenas de anos. Conheci-o já muito velho. Nas manhãs ensolaradas de Inverno
sentava-se numa cadeira muito pequena junto à soleira da porta, para desfolhar
o jornal diário.
Um dia, o Ti Jerónimo, nome pelo qual carinhosamente o
tratavam, resolveu interpelar-me quando seguia a caminho da escola.
Perguntou-me em que classe eu andava e se gostava de ler. Confesso que fiquei
um pouco atónico com a abordagem, até porque passava ali todos os dias e não
reparava nele, talvez dissesse bom dia como diziam todas as pessoas lá da rua
quando se cruzavam. Balbuciei as respostas. Disse-lhe que andava na 4ª classe e
que gostava de ler. Ti Jerónimo sorriu e parece que descansou com aquilo que
lhe dissera.
Depois fiquei a perceber que ele
queria dizer-me algo mais. De repente olhou-me fixamente e atirou com a voz
cansada:
- Sabes, combati na 1ª Guerra
Mundial, em França. Vivos só estou eu e um outro camarada. Vemo-nos todos os
anos nas comemorações do Armistício, junto à estátua do Soldado Desconhecido.
Do grupo de sobreviventes já quase todos tombaram – sorriu e não disse mais
nada.
Era uma espécie de confissão
sussurrada tal era baixo o tom de voz. Intrigado, retomei o caminho da escola e
ao longo de muitos anos guardei esta interrogação: porque me terá contado aquilo?
Fui tentando encontrar respostas.
A certa altura fiquei convencido que tinha sido escolhido por ele para o ajudar
a perpetuar aquela memória tão importante, pois a sua morte estaria próxima. A
estupefacção deu lugar a um sentimento de orgulho. Afinal fora ele o herói que
me escolhera para o escutar. Fi-lo com todo o prazer, de tal modo que me parece estar ainda a ouvi-lo.
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