quarta-feira, 2 de abril de 2014

O último combatente

Chamavam-lhe Bandarra porque exercera pacientemente a profissão de Sapateiro toda a vida. A sua oficina tinha funcionado num anexo, nas traseiras de sua casa, durante dezenas de anos. Conheci-o já muito velho. Nas manhãs ensolaradas de Inverno sentava-se numa cadeira muito pequena junto à soleira da porta, para desfolhar o jornal diário.
Um dia, o Ti Jerónimo, nome pelo qual carinhosamente o tratavam, resolveu interpelar-me quando seguia a caminho da escola. Perguntou-me em que classe eu andava e se gostava de ler. Confesso que fiquei um pouco atónico com a abordagem, até porque passava ali todos os dias e não reparava nele, talvez dissesse bom dia como diziam todas as pessoas lá da rua quando se cruzavam. Balbuciei as respostas. Disse-lhe que andava na 4ª classe e que gostava de ler. Ti Jerónimo sorriu e parece que descansou com aquilo que lhe dissera.
Depois fiquei a perceber que ele queria dizer-me algo mais. De repente olhou-me fixamente e atirou com a voz cansada:
- Sabes, combati na 1ª Guerra Mundial, em França. Vivos só estou eu e um outro camarada. Vemo-nos todos os anos nas comemorações do Armistício, junto à estátua do Soldado Desconhecido. Do grupo de sobreviventes já quase todos tombaram – sorriu e não disse mais nada.
Era uma espécie de confissão sussurrada tal era baixo o tom de voz. Intrigado, retomei o caminho da escola e ao longo de muitos anos guardei esta interrogação: porque me terá contado aquilo?
Fui tentando encontrar respostas. A certa altura fiquei convencido que tinha sido escolhido por ele para o ajudar a perpetuar aquela memória tão importante, pois a sua morte estaria próxima. A estupefacção deu lugar a um sentimento de orgulho. Afinal fora ele o herói que me escolhera para o escutar. Fi-lo com todo o prazer, de tal modo que me parece estar ainda a ouvi-lo.

  
                                                                                                                                        Manuel Campus

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