O catolicismo entrava em casa
pela mão da minha mãe. Assumia-se como católica praticante e fez um esforço
para que todos os filhos tivessem uma educação seguindo os cânones da Igreja
Católica. O meu pai mostrava-se um homem de fé, mas tinha desconfiança quanto à
acção dos elementos do clero.
Durante vários anos, acordava na
sexta-feira santa ao ritmo dos êxitos de Frei Hermano da Câmara. A minha mãe,
num fervor de fé, acompanhava os cânticos sem grandes preocupações com a
afinação, enquanto fazia a lida da casa.
A minha avó materna alimentou a
esperança que seria eu o elemento enviado à família para seguir os caminhos da
fé ao serviço da igreja. Gostava de me ouvir cantar. Dizia recorrentemente que
tinha uma voz bonita e que poderia fazer os estudos em Teologia. Uns bons anos
antes, o meu tio tinha andado nos Salesianos, mas desistira a meio do percurso.
A esperança da avó em ter um descendente no Clero ter-se-ia renovado com o meu
aparecimento. Foi talvez uma ilusão que durou até aos meus doze, treze anos.
De toda a fratria fui o elemento
que terá tido uma maior exposição aos ensinamentos da santa igreja. Foram seis
anos de catequese. Fiz a Profissão de Fé graças à perseverança, à bondade e
investimento da catequista “ Lailai”, que nos quinto e sextos anos nos recebeu
em sua casa – a mim e a mais dois os três diabretes. A sua generosidade não
teve limites e talvez por essa razão a recorde sempre com muito carinho.
Era matriarca de uma família
extensa. A “Lailai” vivia sozinha numa casa cheia de recordações de um passado feliz. A sua idade avançada já
lhe colocava limitações físicas, contudo fez questão de estar connosco até ao
sexto ano. Fomos os seus últimos catequizados.
Utilizou as estratégias mais
doces – oferecendo várias guloseimas - para nos manter focados no objectivo. Ela
só pedia uns poucos minutos da nossa atenção aos conteúdos do catecismo, o
tempo restante era utilizado para brincar numa casa que mais parecia cenário de
filme. Guardo ainda os postais que me enviava quando visitava Fátima.
Invariavelmente o texto era: em Fátima rezei por ti. Um beijinho da tua
catequista “Lailai”.
Com a entrada na adolescência, a
educação católica foi muito contestada por mim e arrumada numa gaveta, talvez porque
a fé da minha mãe tenha esmagado a minha tentativa de dar sentido àqueles
mistérios. Entrei em ruptura com a obrigatoriedade da missa todos os domingos:
nos bancos da frente da igreja, junto das viúvas beatas, cheias de verrugas,
que tinha de cumprimentar em determinado momento do ritual eucarístico.
Mais tarde viria a reconhecer para mim próprio
que a educação católica foi um factor estruturante no meu crescimento.
Manuel Campus
Sem comentários:
Enviar um comentário