sábado, 19 de abril de 2014

O catecismo

O catolicismo entrava em casa pela mão da minha mãe. Assumia-se como católica praticante e fez um esforço para que todos os filhos tivessem uma educação seguindo os cânones da Igreja Católica. O meu pai mostrava-se um homem de fé, mas tinha desconfiança quanto à acção dos elementos do clero.
Durante vários anos, acordava na sexta-feira santa ao ritmo dos êxitos de Frei Hermano da Câmara. A minha mãe, num fervor de fé, acompanhava os cânticos sem grandes preocupações com a afinação, enquanto fazia a lida da casa.
A minha avó materna alimentou a esperança que seria eu o elemento enviado à família para seguir os caminhos da fé ao serviço da igreja. Gostava de me ouvir cantar. Dizia recorrentemente que tinha uma voz bonita e que poderia fazer os estudos em Teologia. Uns bons anos antes, o meu tio tinha andado nos Salesianos, mas desistira a meio do percurso. A esperança da avó em ter um descendente no Clero ter-se-ia renovado com o meu aparecimento. Foi talvez uma ilusão que durou até aos meus doze, treze anos.
De toda a fratria fui o elemento que terá tido uma maior exposição aos ensinamentos da santa igreja. Foram seis anos de catequese. Fiz a Profissão de Fé graças à perseverança, à bondade e investimento da catequista “ Lailai”, que nos quinto e sextos anos nos recebeu em sua casa – a mim e a mais dois os três diabretes. A sua generosidade não teve limites e talvez por essa razão a recorde sempre com muito carinho.
Era matriarca de uma família extensa. A “Lailai” vivia sozinha numa casa cheia de recordações  de um passado feliz. A sua idade avançada já lhe colocava limitações físicas, contudo fez questão de estar connosco até ao sexto ano. Fomos os seus últimos catequizados.
Utilizou as estratégias mais doces – oferecendo várias guloseimas - para nos manter focados no objectivo. Ela só pedia uns poucos minutos da nossa atenção aos conteúdos do catecismo, o tempo restante era utilizado para brincar numa casa que mais parecia cenário de filme. Guardo ainda os postais que me enviava quando visitava Fátima. Invariavelmente o texto era: em Fátima rezei por ti. Um beijinho da tua catequista “Lailai”.
Com a entrada na adolescência, a educação católica foi muito contestada por mim e arrumada numa gaveta, talvez porque a fé da minha mãe tenha esmagado a minha tentativa de dar sentido àqueles mistérios. Entrei em ruptura com a obrigatoriedade da missa todos os domingos: nos bancos da frente da igreja, junto das viúvas beatas, cheias de verrugas, que tinha de cumprimentar em determinado momento do ritual eucarístico.

 Mais tarde viria a reconhecer para mim próprio que a educação católica foi um factor estruturante no meu crescimento.

                                                                                                               Manuel Campus 

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