segunda-feira, 7 de abril de 2014

Signo fogo.

A época de Estio tinha-se prolongado por Outubro dentro. Na minha terra acredita-se que, tal como o de S. Martinho, há um Verão fora de estação... chamam-lhe o Verão de Santa Iria - a padroeira. Os incêndios não davam tréguas. Tenho memória que sempre houve muitos por aquelas bandas.
Contaram-me que naquele dia um fogo de grandes dimensões rondava a vinha e via-se das habitações. Os bombeiros não tinham mãos a medir. Os populares num corrupio. Uns agarravam em baldes com água, outros em qualquer coisa que desse para travar o avanço das chamas. As mulheres tentavam cuidar da fome e sede de quem enfrentava aquele inferno.
O ambiente de grande aflição, com o fogo às portas do Casal, talvez tenha contribuído para que a minha mãe entrasse em trabalho de parto. De repente surgia outro tipo de preocupação. Havia que ir depressa para a maternidade – hoje transformada em esquadra da Policia – para que eu nascesse. Nascer neste cenário talvez explique parte das inquietações e ansiedades que me têm acompanhando.
A minha mãe foi de boleia com uns tios que viviam perto. O meu pai ficou para proteger os bens. Poucas horas depois, chegava a casa a noticia que nascera o 5º e último da fratria, de parto natural e sem complicações. Nessa altura já o fogo estava extinto. Não se tinham registado prejuízos de maior. Apenas o mato ardera. A vinha tinha sido poupada às chamas.
O pai do bebé nascido quis premiar o esforço dos bombeiros e festejar o nascimento do filho, convidando bombeiros e vizinhos para a adega. Rezam as histórias, que se contaram ao longo dos anos seguintes, que muitos saíram de lá a cambalear.

                                                                                                                                 Manuel Campus

Sem comentários:

Enviar um comentário