A época de Estio tinha-se
prolongado por Outubro dentro. Na minha terra acredita-se que, tal como o de S.
Martinho, há um Verão fora de estação... chamam-lhe o Verão de Santa Iria - a padroeira. Os incêndios não davam
tréguas. Tenho memória que sempre houve muitos por aquelas bandas.
Contaram-me que naquele dia um
fogo de grandes dimensões rondava a vinha e via-se das habitações. Os bombeiros
não tinham mãos a medir. Os populares num corrupio. Uns agarravam em baldes com
água, outros em qualquer coisa que desse para travar o avanço das chamas. As
mulheres tentavam cuidar da fome e sede de quem enfrentava aquele inferno.
O ambiente de grande aflição, com
o fogo às portas do Casal, talvez tenha contribuído para que a minha mãe
entrasse em trabalho de parto. De repente surgia outro tipo de preocupação.
Havia que ir depressa para a maternidade – hoje transformada em esquadra da
Policia – para que eu nascesse. Nascer neste cenário talvez explique parte das
inquietações e ansiedades que me têm acompanhando.
A minha mãe foi de boleia com uns
tios que viviam perto. O meu pai ficou para proteger os bens. Poucas horas
depois, chegava a casa a noticia que nascera o 5º e último da fratria, de parto
natural e sem complicações. Nessa altura já o fogo estava extinto. Não se tinham registado prejuízos de maior. Apenas o mato ardera. A vinha tinha sido poupada
às chamas.
O pai do bebé nascido quis premiar o esforço
dos bombeiros e festejar o nascimento do filho, convidando bombeiros e vizinhos
para a adega. Rezam as histórias, que se contaram ao longo dos anos seguintes,
que muitos saíram de lá a cambalear.
Manuel Campus
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