O leite jorrava quente e espesso das
tetas da cabra que a minha avó materna ordenhava, com as suas mãos grandes,
fortes e vigorosas, mãos de quem trabalhava o campo de sol a sol. Era quase
impossível beber o leite assim directo da ordenha. Tinha um sabor forte e
intenso. Para cortar o sabor, a minha avó colocava um pouco de café da
cafeteira. Aquele café era feito de manhã no lume da lareira, numa cafeteira de
dois litros e que dava para o dia inteiro. Quando lá passava alguns dias das
férias escolares, sobretudo no verão, adorava assistir aquele momento que era
de uma ternura assinalável para mim. Nunca me foi permitido ordenhar a cabra. A
minha integridade física ficava em risco.
A cabra assumia-se como muito
independente, pouco submissa, bonita, ágil e só a dona tinha permissão para
ordenhar, mais ninguém ousava tal acção. Porquê? Porque a pessoa que o fizesse
estaria à mercê de um coice violento ou uma marrada.
O animal assumia um papel preponderante
na economia do agregado: alimentava-se do pasto que cobria as terras, o estrume
que produzia era o único fertilizante utilizado na terra para fazer horta, o
leite, e o queijo daí derivado, fazia parte da alimentação diária. A cabra era
fonte de riqueza. Juntamente com a burra, tinha os seus aposentos na loja da
casa, paredes meias com a habitação – tão próximas
de nós que quase as ouvíamos respirar no silêncio da noite.
Pela manhã serviam de despertador,
com o seu momento de exaltação, quando a minha avó entrava na loja para as
alimentar.
Habituei-me a olhar a cabra como
um animal elegante e asseado. Não tinha dificuldades em ajudar a minha avó a
fazer a limpeza da loja, removendo o estrume.
O que perpassou com intensidade
na minha memória, nestes anos, foi o sabor do leite com café, acompanhado de
pão caseiro quente recheado com azeite e açúcar. Muitas vezes ia lanchar para
junto da cabra como se quisesse compartilhar com ela aqueles sabores
transformados em afectos, que ainda hoje guardo com carinho. Esses afectos fazem
parte de mim, são íntimos.
Dizem os mais sábios que a vida é
uma roda, voltamos sempre ao ponto de partida. Seguindo este princípio é
provável que venha a encontrar a cabra e voltar a lanchar junto dela.
Manuel Campus

"Aquele café era feito de manhã no lume da lareira, numa cafeteira de dois litros e que dava para o dia inteiro."
ResponderEliminarEu faço deste café. Cá em casa bebe-se deste café e sempre que vivi sozinho, mesmo como estudante, eu sempre fiz deste café. O "café de borra" :) ...adoro. Já leite... nem por isso...
Pão com azeite e açúcar nunca comi, confesso que sou um bocado esquisito, mas caseiro - sempre que posso e neste último ano, tem sido Todos os Dias!
:)