segunda-feira, 14 de abril de 2014

A cabra

O leite jorrava quente e espesso das tetas da cabra que a minha avó materna ordenhava, com as suas mãos grandes, fortes e vigorosas, mãos de quem trabalhava o campo de sol a sol. Era quase impossível beber o leite assim directo da ordenha. Tinha um sabor forte e intenso. Para cortar o sabor, a minha avó colocava um pouco de café da cafeteira. Aquele café era feito de manhã no lume da lareira, numa cafeteira de dois litros e que dava para o dia inteiro. Quando lá passava alguns dias das férias escolares, sobretudo no verão, adorava assistir aquele momento que era de uma ternura assinalável para mim. Nunca me foi permitido ordenhar a cabra. A minha integridade física ficava em risco.
A cabra assumia-se como muito independente, pouco submissa, bonita, ágil e só a dona tinha permissão para ordenhar, mais ninguém ousava tal acção. Porquê? Porque a pessoa que o fizesse estaria à mercê de um coice violento ou uma marrada.
O animal assumia um papel preponderante na economia do agregado: alimentava-se do pasto que cobria as terras, o estrume que produzia era o único fertilizante utilizado na terra para fazer horta, o leite, e o queijo daí derivado, fazia parte da alimentação diária. A cabra era fonte de riqueza. Juntamente com a burra, tinha os seus aposentos na loja da casa, paredes meias com a habitação – tão próximas de nós que quase as ouvíamos respirar no silêncio da noite.
Pela manhã serviam de despertador, com o seu momento de exaltação, quando a minha avó entrava na loja para as alimentar.
Habituei-me a olhar a cabra como um animal elegante e asseado. Não tinha dificuldades em ajudar a minha avó a fazer a limpeza da loja, removendo o estrume.
O que perpassou com intensidade na minha memória, nestes anos, foi o sabor do leite com café, acompanhado de pão caseiro quente recheado com azeite e açúcar. Muitas vezes ia lanchar para junto da cabra como se quisesse compartilhar com ela aqueles sabores transformados em afectos, que ainda hoje guardo com carinho. Esses afectos fazem parte de mim, são íntimos.
Dizem os mais sábios que a vida é uma roda, voltamos sempre ao ponto de partida. Seguindo este princípio é provável que venha a encontrar a cabra e voltar a lanchar junto dela.
                                                Manuel Campus                                                                    

1 comentário:

  1. "Aquele café era feito de manhã no lume da lareira, numa cafeteira de dois litros e que dava para o dia inteiro."

    Eu faço deste café. Cá em casa bebe-se deste café e sempre que vivi sozinho, mesmo como estudante, eu sempre fiz deste café. O "café de borra" :) ...adoro. Já leite... nem por isso...

    Pão com azeite e açúcar nunca comi, confesso que sou um bocado esquisito, mas caseiro - sempre que posso e neste último ano, tem sido Todos os Dias!

    :)

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