A derrocada acontecera há poucos minutos. No prédio só vivia
o Sr. Carvalheiro. - Será que estava em casa? – Perguntavam uns. Outros mais
aflitos gritavam: - ai que o Carvalheiro ficou lá debaixo! Os bombeiros
chegaram e começaram as buscas para perceber se havia alguém debaixo dos
escombros.
Pouco tempo depois, foram encontrar o Senhor sentado na sanita
em estado de choque. A casa de banho era a única divisão da casa que ficara de
pé. A necessidade de se aliviar naquele instante tinha-o salvo da tragédia –
Milagre! - Comentavam os mirones que por
ali se juntaram a assistir aos trabalhos dos bombeiros.
O Sr. Carvalheiro já se reformara há alguns anos da
papelaria/tabacaria de que era proprietário, numa das ruas mais movimentadas lá
da terra. O estabelecimento era um espaço escuro, taciturno com jornais, livros
papelada diversa amontoada ao longo do balcão e das prateleiras. Talvez não
fosse bem assim. O Sr. Carvalheiro dizia, com
sentido de humor, que a sua loja tinha uma ordem muito própria, o caos
que se observava de fora era apenas a sua forma de organização. Talvez o Sr.
Carvalheiro tivesse lido alguma coisa acerca da teoria do Caos de Nietzsche. A
verdade é que ele sabia sempre onde estava tudo. A começar pelas centenas de
livros de cowboys e de outras histórias de banda desenhada que tinha para venda e troca.
Recordo que ele era um verdadeiro entusiasta da troca de
livros de cowboys. Tinha sempre novidades para nos surpreender. A nós, os mais
pequenos, e até a adultos que também se dedicavam a estas leituras. O Sr.
Carvalheiro projectava a voz de forma descontrolada. Um vozeirão.
Não era fácil
para uma criança da nossa idade entrar naquele espaço sozinho. O medo era
potenciado nas vezes em que não estava nenhum cliente: o Sr. Carvalheiro
emergia do fundo do estabelecimento, da escuridão, e exclamava: - então, o que
vai ser? Quando ali entrávamos parecia que estávamos numa cena de um filme de
suspense . O espaço tinha o seu quê de mágico e fascinante. Cheguei mesmo a
sonhá-lo.
Manuel Campus
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