quinta-feira, 3 de abril de 2014

Livros de cowboys

A derrocada acontecera há poucos minutos. No prédio só vivia o Sr. Carvalheiro. - Será que estava em casa? – Perguntavam uns. Outros mais aflitos gritavam: - ai que o Carvalheiro ficou lá debaixo! Os bombeiros chegaram e começaram as buscas para perceber se havia alguém debaixo dos escombros.
Pouco tempo depois, foram encontrar o Senhor sentado na sanita em estado de choque. A casa de banho era a única divisão da casa que ficara de pé. A necessidade de se aliviar naquele instante tinha-o salvo da tragédia – Milagre!  - Comentavam os mirones que por ali se juntaram a assistir aos trabalhos dos bombeiros.
O Sr. Carvalheiro já se reformara há alguns anos da papelaria/tabacaria de que era proprietário, numa das ruas mais movimentadas lá da terra. O estabelecimento era um espaço escuro, taciturno com jornais, livros papelada diversa amontoada ao longo do balcão e das prateleiras. Talvez não fosse bem assim. O Sr. Carvalheiro dizia, com   sentido de humor, que a sua loja tinha uma ordem muito própria, o caos que se observava de fora era apenas a sua forma de organização. Talvez o Sr. Carvalheiro tivesse lido alguma coisa acerca da teoria do Caos de Nietzsche. A verdade é que ele sabia sempre onde estava tudo. A começar pelas centenas de livros de cowboys e de outras histórias de banda desenhada que tinha para venda e troca.

Recordo que ele era um verdadeiro entusiasta da troca de livros de cowboys. Tinha sempre novidades para nos surpreender. A nós, os mais pequenos, e até a adultos que também se dedicavam a estas leituras. O Sr. Carvalheiro projectava a voz de forma descontrolada. Um vozeirão.
Não era fácil para uma criança da nossa idade entrar naquele espaço sozinho. O medo era potenciado nas vezes em que não estava nenhum cliente: o Sr. Carvalheiro emergia do fundo do estabelecimento, da escuridão, e exclamava: - então, o que vai ser? Quando ali entrávamos parecia que estávamos numa cena de um filme de suspense . O espaço tinha o seu quê de mágico e fascinante. Cheguei mesmo a sonhá-lo. 

                                                                                                                              Manuel Campus



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