Por vezes dou por mim a pensar
como fui capaz de fazer aquelas coisas. Submeter ao sacrifício animais de
pequeno porte, tais como rãs, moscas e moscardos. De facto, a imaginação não
tem limites e a crueldade também não. Naqueles anos, entre a infância e a
adolescência, as brincadeiras atingiam patamares de grande crueldade. O prazer
trazia um lado mórbido com o sofrimento daqueles bichos.
Quando brincávamos aos médicos,
eram as rãs, que existiam no rio ou em pequenos charcos das redondezas, as cobaias
das cirurgias com bisturis em madeira e outros materiais cirúrgicos muito
rudimentares. O pior de tudo era a cirurgia não ser precedida de qualquer
anestesia. Eu e outros carniceiros lá da rua ignorávamos por completo o
sofrimento que estávamos a infligir. Se neste caso até poderei ter alguma
desculpa, dizendo que era influenciado pelo grupo e tal…no sacrifício das
moscas actuava sozinho, não precisava de companhia. Neste caso, o meu
sadismo não tem qualquer perdão.
Nas tardes de Verão menos
interessantes dava por mim a apanhar moscas, a arrancar-lhe as asas e a projectar
os pobres dos insectos contra teias de aranha suficientemente robustas para as
aparar e segurar. Até me custa dizer, mas gostava de ver a aranha, sentindo o
estremecer da teia, a sair do esconderijo construído numa das franjas e
habilmente a dirigir-se para a presa tecendo-a numa espécie de mortalha para
se alimentar dela mais tarde. Como fui capaz de retirar algum prazer disto?
No caso dos moscardos, a tirania
era também efectuada em grupo. No Verão, junto ao rio, enquanto nos banhávamos apareciam
uns gigantes. Chegavam mesmo a picar-nos quando estávamos a secar ao sol. Para
gáudio de todos, um de nós apanhava um bicho daqueles, detentor de asas
grandes, espetava uma palhiço no rabo e era vê-lo voar… Sadismo em estado
bruto. Que crianças imaturas e insensíveis aquelas. Não era possível exprimir
qualquer sentimento em relação aqueles actos bárbaros sob pena de ficarmos com o
epíteto de mariquinhas. Como era possível, não haver por ali um adulto ou outro
a censurar aquelas brincadeiras. A supervisão era muito larga naquele tempo. Estávamos
entregues a nós. Havia apenas uma espécie de check-points à hora das refeições.
Ao longo dos anos, acho que
acompanhei o percurso de evolução e crescimento da espécie. Hoje sou incapaz de
matar uma mosca. Na verdade, talvez mesmo formigas, a não ser que esteja muito
irritado com elas.
Manuel
Campus
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