sábado, 5 de abril de 2014

O lado cruel

Por vezes dou por mim a pensar como fui capaz de fazer aquelas coisas. Submeter ao sacrifício animais de pequeno porte, tais como rãs, moscas e moscardos. De facto, a imaginação não tem limites e a crueldade também não. Naqueles anos, entre a infância e a adolescência, as brincadeiras atingiam patamares de grande crueldade. O prazer trazia um lado mórbido com o sofrimento daqueles bichos.
Quando brincávamos aos médicos, eram as rãs, que existiam no rio ou em pequenos charcos das redondezas, as cobaias das cirurgias com bisturis em madeira e outros materiais cirúrgicos muito rudimentares. O pior de tudo era a cirurgia não ser precedida de qualquer anestesia. Eu e outros carniceiros lá da rua ignorávamos por completo o sofrimento que estávamos a infligir. Se neste caso até poderei ter alguma desculpa, dizendo que era influenciado pelo grupo e tal…no sacrifício das moscas actuava sozinho, não precisava de companhia. Neste caso, o meu sadismo não tem qualquer perdão.
Nas tardes de Verão menos interessantes dava por mim a apanhar moscas, a arrancar-lhe as asas e a projectar os pobres dos insectos contra teias de aranha suficientemente robustas para as aparar e segurar. Até me custa dizer, mas gostava de ver a aranha, sentindo o estremecer da teia, a sair do esconderijo construído numa das franjas e habilmente a dirigir-se para a presa tecendo-a numa espécie de mortalha para se alimentar dela mais tarde. Como fui capaz de retirar algum prazer disto?
No caso dos moscardos, a tirania era também efectuada em grupo. No Verão, junto ao rio, enquanto nos banhávamos apareciam uns gigantes. Chegavam mesmo a picar-nos quando estávamos a secar ao sol. Para gáudio de todos, um de nós apanhava um bicho daqueles, detentor de asas grandes, espetava uma palhiço no rabo e era vê-lo voar… Sadismo em estado bruto. Que crianças imaturas e insensíveis aquelas. Não era possível exprimir qualquer sentimento em relação aqueles actos bárbaros sob pena de ficarmos com o epíteto de mariquinhas. Como era possível, não haver por ali um adulto ou outro a censurar aquelas brincadeiras. A supervisão era muito larga naquele tempo. Estávamos entregues a nós. Havia apenas uma espécie de check-points à hora das refeições.
Ao longo dos anos, acho que acompanhei o percurso de evolução e crescimento da espécie. Hoje sou incapaz de matar uma mosca. Na verdade, talvez mesmo formigas, a não ser que esteja muito irritado com elas.


                                                                                                                            Manuel Campus

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