Os tios haviam chegado de Lisboa.
À época o ar condicionado nos automóveis não existia, pelo que chegaram
sequiosos por uma bebida fresca. Corriam os primeiros dias de um Junho quente.
Tinha terminado a 1ª classe e naquele dia iria receber um dos sacramentos da
igreja católica - a 1ª comunhão.
Estava todo janota. Camisa
branca, jaqueta e calções em azul-escuro, meias brancas e sapatos pretos. Pouco tempo antes da
cerimónia os tios abordaram-me e ofereceram-se o Timex azul. Condizia com a
vestimenta e era muito bonito. Disse para mim – o meu relógio. Acho que passei parte da cerimónia a ver as horas.
Ao longo dos anos afeiçoei-me ao Timex de fundo azul, raramente saía do pulso. Deixei de o usar já na adolescência - nesta fase da vida queremos estar o mais longe possível da infância. Gritamos ao mundo que já somos crescidos e não aceitamos ser confundidos com uma criança.
Era um relógio com ponteiros das horas, dos minutos e dos segundos. Dizia-me também o dia da semana e do mês. Quando encostava o ouvido perscrutava um suave tic tac sempre sem
parar. Era como se ouvisse o seu coração. Talvez desejasse que fosse um ser
vivo…um amigo. Fazia-me companhia e permitia que organizasse e controlasse mais
o meu dia. Talvez sentisse essa necessidade. A verdade é que o Timex azul
permitia-me um estranho bem-estar. Preservei-o sempre das brincadeiras mais
violentas e capazes de o danificar. Cuidei-o de tal forma que o suave tic tac
nunca parou de bater.
Esteja onde estiver o Timex azul nunca deixou de fazer
tic tac. Por vezes, procuro-o nas montras no meio de outros relógios. Procuro o Timex talvez para recuperar uma certa infância em tons de azul. Apetecia-me vê-lo e encostar o ouvido.
Manuel Campus
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