terça-feira, 1 de abril de 2014

A primeira pescaria


Na noite anterior quase não preguei olho, tal era o estado de ansiedade. No dia seguinte iria acompanhar o grupo dos jovens mais velhos numa pescaria e a custo terminara de construir uma cana rudimentar – uma cana-da-índia, um fio de pesca, uma pequena bóia e um anzol. O isco seria retirado de um naco de pão: pequenas bolinhas feitas de migalhas que espetaria no anzol.
A minha cana de pesca! Disse para mim mesmo vezes sem conta.
 À revelia de todos, guardeia-a debaixo da cama naquela noite. Estavam reunidas as condições para tentar pescar o primeiro peixe, tal como faziam os mais velhos. Como seria ter o prazer de pescar um peixe só meu? Será que conseguiria apanhar algum? Entre o prazer de pescar e o medo de não conseguir ficou uma noite mal dormida. Afinal, o sonho estava prestes a acontecer, mas não durante o sono.
O Verão ia firme e seguro e havia promessa de dia quente. Preparei o farnel e coloquei na mochila também calções que haveriam de servir para um banho retemperador no rio, quando o sol estivesse a pino.
Procurámos a margem onde o rio tivesse maior corrente. A maioria dos peixes gosta de nadar contra a corrente. Só quem nada contra a corrente sabe a sua força. Os peixes sabem-no. É ali que a vida tem mais sabor. A água é mais saudável e traz os alimentos mais ricos.
Poucos minutos depois, a pescaria haveria de ser interrompida abruptamente. Um Barbo com cerca de um quilo resolveu abocanhar o meu anzol. A pressão exercida na cana foi de tal ordem que quase me atirou para dentro do rio, não fora a ajuda pronta do Azeitona, um dos mais experientes nestas andanças.
Naquele momento foi crucial dar um pouco de fio para a presa se cansar e para que a cana não se partisse. Ao fim de alguns minutos, conseguimos tirar o peixe da água. Parecia-me enorme. Batia as barbatanas ferozmente. Acho que receei o animal. O balde que levara era pequeno. Com um balde de empréstimo consegui levá-lo para o tanque lá de casa.
Depois a questão que se colocou foi o que fazer com o peixe, que começou a definhar de dia para dia. Percebera que ele não conseguia alimentar-se por causa da ferida provocada pelo anzol. Com o decorrer dos dias experimentei de tudo para o salvar. No dia em que apareceu à tona de água fiquei numa tristeza imensa. O afecto que desenvolvi pelo peixe durante a sua agonia foi de tal ordem que haveria de lhe fazer um funeral com direito a covato na horta ao lado. Acho que lhe pedi desculpa pela estupidez uma dezena de vezes.
Depois destes acontecimentos, nunca mais regressaria à pesca.

                                                                                                                                         Manuel Campus

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