Na noite anterior quase não
preguei olho, tal era o estado de ansiedade. No dia seguinte iria acompanhar o
grupo dos jovens mais velhos numa pescaria e a custo terminara de construir uma
cana rudimentar – uma cana-da-índia, um fio de pesca, uma pequena bóia e um
anzol. O isco seria retirado de um naco de pão: pequenas bolinhas feitas de
migalhas que espetaria no anzol.
A minha cana de pesca! Disse para
mim mesmo vezes sem conta.
À revelia de todos, guardeia-a debaixo da cama
naquela noite. Estavam reunidas as condições para tentar pescar o primeiro
peixe, tal como faziam os mais velhos. Como seria ter o prazer de pescar um
peixe só meu? Será que conseguiria apanhar algum? Entre o prazer de pescar e o
medo de não conseguir ficou uma noite mal dormida. Afinal, o sonho estava
prestes a acontecer, mas não durante o sono.
O Verão ia firme e seguro e havia
promessa de dia quente. Preparei o farnel e coloquei na mochila também calções
que haveriam de servir para um banho retemperador no rio, quando o sol
estivesse a pino.
Procurámos a margem onde o rio
tivesse maior corrente. A maioria dos peixes gosta de nadar contra a corrente.
Só quem nada contra a corrente sabe a sua força. Os peixes sabem-no. É ali que
a vida tem mais sabor. A água é mais saudável e traz os alimentos mais ricos.
Poucos minutos depois, a pescaria
haveria de ser interrompida abruptamente. Um Barbo com cerca de um quilo
resolveu abocanhar o meu anzol. A pressão exercida na cana foi de tal ordem que
quase me atirou para dentro do rio, não fora a ajuda pronta do Azeitona, um dos
mais experientes nestas andanças.
Naquele momento foi crucial dar
um pouco de fio para a presa se cansar e para que a cana não se partisse. Ao fim
de alguns minutos, conseguimos tirar o peixe da água. Parecia-me enorme. Batia
as barbatanas ferozmente. Acho que receei o animal. O balde que levara era
pequeno. Com um balde de empréstimo consegui levá-lo para o tanque lá de casa.
Depois a questão que se colocou
foi o que fazer com o peixe, que começou a definhar de dia para dia. Percebera
que ele não conseguia alimentar-se por causa da ferida provocada pelo anzol.
Com o decorrer dos dias experimentei de tudo para o salvar. No dia em que
apareceu à tona de água fiquei numa tristeza imensa. O afecto que desenvolvi
pelo peixe durante a sua agonia foi de tal ordem que haveria de lhe fazer um
funeral com direito a covato na horta ao lado. Acho que lhe pedi desculpa pela
estupidez uma dezena de vezes.
Depois destes acontecimentos,
nunca mais regressaria à pesca.
Manuel Campus
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