terça-feira, 8 de abril de 2014

Francisco, o professor.


Os ecos da revolução de Abril ainda se ouviam. Os retratos de Carmona e Salazar já tinham sido retirados das paredes, assim como a Cruz de Cristo. O Estado tornara-se democrático e laico. Os tiques repressivos em determinadas áreas mantinham-se. Na escola, a autoridade do professor era em muitas situações exercida pela força.
Francisco era professor primário há poucos anos. Corpulento, ar austero, com dificuldade em esboçar sorrisos, óculos que lhe cobriam metade da face, sendo a outra metade preenchida com as suas enormes patilhas. Apesar da sua juventude, a fama de disciplinador já se espalhara. Os que tinham irmãos mais velhos já sabiam os métodos utilizados por Francisco. Materiais utilizados: uma cana-da-índia e uma régua de pau à qual tinha dado o nome de Palmira. Fiquei sempre com a curiosidade de perceber a razão daquele nome. Teria ele tido uma mãe ou madrasta austera e quisera-lhe prestar algum tipo de tributo?
Naquela época, muitos pais entregavam os filhos aos professores e convidavam-nos a exercer os seus métodos disciplinadores sempre que houvesse algum mais irrequieto. Francisco, do alto da sua sobranceria, dizia em tom grave para a minha mãe:
- Fique descansada que ele respeitará as minhas ordens.
Desde início ficaram estabelecidas as premissas da relação com Francisco. Ele mandava e eu obedeceria sem pestanejar. Caso contrário haveria de doer alguma parte do corpo.
Não sendo um aluno brilhante não era dos piores, ainda assim não me livrei de experimentar a Palmira em acção. Terá sido num ditado em que cheguei aos três erros ortográficos. A palma da mão que tinha levado com a (Palm)Ira ficara incandescente e deixara de a sentir durante alguns segundos.
Francisco era um homem de sangue quente, na hora de bater ficava fora de si. Volta e meia relembro as caras de sofrimento dos colegas que tinham mais dificuldades na aprendizagem e consequentemente apanhavam mais. A Palmira entrava em acção mesmo que as pequenas mãos se fechassem de medo. Batia onde fosse possível, menos na cabeça. Hoje são adultos aparentemente saudáveis, mas quando os revejo recordo aqueles momentos de terror.
O professor não poupava sequer as meninas à sua disciplina avassaladora. Recordo uma colega que, por ter errado alguns exercícios de matemática - isto na 2ª classe - fora chamada junto à secretária do professor para lhe ser infligindo o respectivo castigo. Nesse dia escapou à Palmira: uma poça de chichi junto aos pés livrara-a de apanhar. Francisco ficara surpreendido com a sucedido, chamando de imediato a Contínua para fazer a limpeza do chão.
Chegados à 3ª classe, ficámos a saber que Francisco não seria o nosso professor naquele ano. Seguiu-se um sentimento generalizado de alívio. Viemos a saber mais tarde que teria ido tratar problemas nervosos - pudera. Mesmo naquela época, mesmo num meio conservador como aquele, a situação repressiva de Francisco para com os alunos tornara-se insustentável. Pais mais atentos terão denunciado a violência praticada por Francisco.
Francisco haveria de voltar a ser nosso Professor na 4ª classe, mas com métodos disciplinares muito mais moderados.
Até há poucos anos, quando nos encontrávamos na rua, cumprimentava-me sempre de forma muito afável. Contudo, essa afabilidade não apagou da memória a dor provocada por Palmira - a régua.
                                                                                                                       
                                           Manuel Campus                                                              
 
                                                                                                                        




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