Os ecos da revolução de Abril ainda se ouviam. Os retratos de Carmona e Salazar já tinham sido retirados das paredes, assim como a Cruz de
Cristo. O Estado tornara-se democrático e laico. Os tiques repressivos em
determinadas áreas mantinham-se. Na escola, a autoridade do professor era em
muitas situações exercida pela força.
Francisco era professor primário há poucos anos. Corpulento,
ar austero, com dificuldade em esboçar sorrisos, óculos que lhe cobriam metade
da face, sendo a outra metade preenchida com as suas enormes patilhas. Apesar
da sua juventude, a fama de disciplinador já se espalhara. Os que tinham irmãos
mais velhos já sabiam os métodos utilizados por Francisco. Materiais
utilizados: uma cana-da-índia e uma régua de pau à qual tinha dado o nome de Palmira.
Fiquei sempre com a curiosidade de perceber a razão daquele nome. Teria ele
tido uma mãe ou madrasta austera e quisera-lhe prestar algum tipo de tributo?
Naquela época, muitos pais entregavam os filhos aos
professores e convidavam-nos a exercer os seus métodos disciplinadores sempre
que houvesse algum mais irrequieto. Francisco, do alto da sua sobranceria, dizia
em tom grave para a minha mãe:
- Fique descansada que ele respeitará as minhas ordens.
Desde início ficaram estabelecidas as premissas da relação
com Francisco. Ele mandava e eu obedeceria sem pestanejar. Caso contrário
haveria de doer alguma parte do corpo.
Não sendo um aluno brilhante não era dos piores, ainda assim
não me livrei de experimentar a Palmira em acção. Terá sido num ditado em que
cheguei aos três erros ortográficos. A palma da mão que tinha levado com a (Palm)Ira ficara incandescente e
deixara de a sentir durante alguns segundos.
Francisco era um homem de sangue quente, na hora de bater
ficava fora de si. Volta e meia relembro as caras de sofrimento dos colegas que
tinham mais dificuldades na aprendizagem e consequentemente apanhavam mais. A
Palmira entrava em acção mesmo que as pequenas mãos se fechassem de medo. Batia
onde fosse possível, menos na cabeça. Hoje são adultos aparentemente saudáveis,
mas quando os revejo recordo aqueles momentos de terror.
O professor não poupava sequer as meninas à sua disciplina
avassaladora. Recordo uma colega que, por ter errado alguns exercícios de
matemática - isto na 2ª classe - fora chamada junto à secretária do professor
para lhe ser infligindo o respectivo castigo. Nesse dia escapou à Palmira: uma poça de chichi junto aos pés livrara-a de apanhar. Francisco ficara
surpreendido com a sucedido, chamando de imediato a Contínua para fazer a
limpeza do chão.
Chegados à 3ª classe, ficámos a saber que Francisco não seria
o nosso professor naquele ano. Seguiu-se um sentimento generalizado de alívio.
Viemos a saber mais tarde que teria ido tratar problemas nervosos - pudera.
Mesmo naquela época, mesmo num meio conservador como aquele, a situação
repressiva de Francisco para com os alunos tornara-se insustentável. Pais mais
atentos terão denunciado a violência praticada por Francisco.
Francisco haveria de voltar a ser nosso Professor na 4ª
classe, mas com métodos disciplinares muito mais moderados.
Até há poucos anos, quando nos encontrávamos na rua,
cumprimentava-me sempre de forma muito afável. Contudo, essa afabilidade não
apagou da memória a dor provocada por Palmira - a régua.

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