segunda-feira, 31 de março de 2014

Negócio com o Dr. Nini

O dia de trabalho começou com uma aterragem na minha infância. A avenida D. Rodrigo da Cunha, ali perto do bairro de Alvalade, é ladeada por dezenas de Tílias, árvores de grande porte, poderosas, exuberantes e bonitas. A memória trouxe-me então os dias de Junho em que subia a frondosa Tília, junto à minha casa, para apanhar a flôr. A recolha fazia-se em grandes quantidades de maneira que houvesse chá para a família no inverno e para vender na Farmácia Central do Dr. Nini. Naquela idade já tínhamos arte e engenho para fazer com que a Tília seca ficasse por cima e a menos seca ficasse por baixo. Desta forma, ficava a ideia que toda a Tília que estava no saco era seca e consequentemente mais leve. A verdade é que o negócio fazia-se ao peso e nós não queríamos perder muito tempo com a secagem. O dinheiro da venda serviria para comprar gelados no Verão que estava a começar.
 O Dr. Nini era o director da Farmácia, mas a sua avançada idade fazia com que passasse grande parte do dia numa cadeira, junto ao balcão. Era homem de elevada estatura, mas o facto de estar sentado permitia que ficasse do tamanho da nossa altura. Como se fizesse de propósito para chegar mais perto de nós. Todos os que ali entravam faziam conversa com ele. Era um homem dedicado à terra e influente no meio social, cultural e político. Para todos, um homem generoso e de afectos. Fiquei sempre com a ideia que muitas pessoas iam à farmácia, não apenas para comprar medicamentos. Uma palavra do Dr. Nini faria tão bem como qualquer analgésico ou anti-inflamatório.
 Recebia-nos sempre com um sorriso largo exclamando: - então seus malandros deixaram secar bem a Tília?
 - Claro que sim - respondíamos em coro, cruzando olhares cúmplices.
O Dr. Nini pedia ao empregado para fazer a pesagem e pagar a quantia justa. Naquela época, uma nota de cem escudos a cada um era muito dinheiro. Subíamos a rua felizes da vida, com o azimute tirado ao mini mercado do Sr. Luís
Claro que estes negócios seriam impossíveis nos dias de hoje. O Dr. Nini seria condenado por estar a comprar um produto sem certificação de qualidade, de origem, sem IVA e sem código de barras a pingentos de onze ou doze anos. Nós seriamos sinalizados à Comissão de Protecção de Crianças mais próxima.
Nini, não era apelido, nem nome próprio, talvez fosse o diminutivo pelo qual a mãe o chamava quando era criança. Acredito que manteve ao longo da vida um contacto privilegiado com a sua infância.                                                                                                                                         

                                                                                                                                                                                                                             Manuel Campus

1 comentário:

  1. Dr. Nini...consigo gostar dele através da tua descrição.
    E a tília nunca mais terá o mesmo sabor... :)

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