quinta-feira, 27 de março de 2014

A morte chegou cedo demais.

Estava a brincar no corredor da casa com um primo, pouco mais velho, que só via, de quando em vez, em momentos marcantes da história familiar. Naquele fim-de-semana, os meus pais tinham recebido um telefonema desesperado, da minha tia paterna, anunciando que a avó estava a morrer lá em casa. Sim, em casa. As pessoas naquela época morriam em casa. A aflição da minha tia ao telefone transferiu-se para a minha mãe, anunciando-me em seguida que teríamos de ir para Lisboa de imediato se queríamos ver ainda a avó viva.
Da viagem de comboio recordo apenas que tínhamos a companhia do garrafão de vinho que o meu pai preparara com todo o cuidado, não fosse em Lisboa estarem as tabernas fechadas ao fim de semana. O garrafão era um elemento essencial nas nossas deslocações em família.
Horas depois, a família encontrava-se em Lisboa para um último adeus à minha avó paterna que resistia ao último suspiro. A entrada no prédio, na baixa pombalina, era feita através de um portão enorme. Escadas de madeira velha e carunchosa até ao 4º andar. Com 4 anos de idade era elementar que aquela deslocação representava para mim ir brincar com o meu primo. Sabia lá alguma coisa dos mistérios da morte.
Não foi necessário esperar muito tempo para que no corredor da casa as crianças brincassem alheando-se do ambiente de pesar. Não sei ao certo a hora da morte da avó, mas ao fim da tarde, saturados da irrequietude das crianças e mergulhados na dor, os adultos irrompem na brincadeira mandando-nos sentar nas cadeiras, no quarto, junto ao leito de morte da avó, ali seguramente não faríamos barulho por respeito à defunta.
De repente fez-se silêncio. Olhei para o que tinha pela frente. Senti-me só, embora estivessem mais pessoas no quarto a velar o corpo. Ali estava a avó, deitada, com mãos sobrepostas, de olhos fechados, vestida de preto e com um ar sereno. Recordo olhar fixamente para a sua face para tentar perceber o que se estava a passar. No fundo não se passava nada… era a morte. Sim, porque os adultos teimavam em dizer qua a avó tinha morrido naquelas horas, mas para mim ela estava apenas a dormir, caso contrário porque nos tinham mandado calar quando brincávamos no corredor.
Na manhã seguinte estava frio e chovia copiosamente. Lembro-me de estar confortavelmente aconchegado no automóvel dos meus padrinhos seguindo no cortejo fúnebre para o alto S. João. Uma das tias, que não estivera connosco no dia anterior, disponibilizou-se para ficar comigo à porta do cemitério para me resguardar das imagens do caixão a baixar à terra. Muitos anos depois senti-me aliviado e agradecido a esta tia por ter sido poupado a outro contacto precoce com a morte.
O meu avô materno faleceu 5 anos depois, no final de um Janeiro gélido, tinha eu 9 anos. Era um homem doente há vários anos. Sofrera um acidente numa pedreira que lhe retirou parte da visão. Não era uma figura afável para as crianças. Passava horas a fio ao lume. Acendia os cigarros com  uma brasa incandescente prensada na ponta da tenaz. Lembro-me que para mim era um homem rude e estranho que se deixava adormecer, ali mesmo, sentado à lareira, com o cigarro, meio desfeito, sempre ao canto da boca. A melhor prenda que se lhe podia oferecer era um pacote de maços de cigarros Provisórios ou Definitivos. Não me deixava aproximar da lareira, resmungando de forma quase imperceptível, fazendo em simultâneo um movimento brusco com os braços, talvez porque sentisse que era um local perigoso para uma criança.
 Durante esse tempo não estabeleci nenhuma relação entre a doença e a proximidade da morte, pelo que a notícia do seu falecimento chegou de forma inesperada e também por telefone. Nesse dia um dos meus primos fazia anos. Recordo o embaraço dos adultos em relação ao que fazer com o bolo de aniversário. Fiquei triste porque não cantamos os parabéns. Não era possível, o avô estava a ser velado num dos quartos da casa.


                                                                                                                 Manuel Campus

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