Estava a brincar
no corredor da casa com um primo, pouco mais velho, que só via, de quando em
vez, em momentos marcantes da história familiar. Naquele fim-de-semana, os meus
pais tinham recebido um telefonema desesperado, da minha tia paterna,
anunciando que a avó estava a morrer lá em casa. Sim, em casa. As pessoas
naquela época morriam em casa. A aflição da minha tia ao telefone transferiu-se
para a minha mãe, anunciando-me em seguida que teríamos de ir para Lisboa de
imediato se queríamos ver ainda a avó viva.
Da viagem de
comboio recordo apenas que tínhamos a companhia do garrafão de vinho que o meu
pai preparara com todo o cuidado, não fosse em Lisboa estarem as tabernas
fechadas ao fim de semana. O garrafão era um elemento essencial nas nossas
deslocações em família.
Horas depois, a
família encontrava-se em Lisboa para um último adeus à minha avó paterna que
resistia ao último suspiro. A entrada no prédio, na baixa pombalina, era feita
através de um portão enorme. Escadas de madeira velha e carunchosa até ao 4º
andar. Com 4 anos de idade era elementar que aquela deslocação representava
para mim ir brincar com o meu primo. Sabia lá alguma coisa dos mistérios da morte.
Não foi
necessário esperar muito tempo para que no corredor da casa as crianças
brincassem alheando-se do ambiente de pesar. Não sei ao certo a hora da morte
da avó, mas ao fim da tarde, saturados da irrequietude das crianças e
mergulhados na dor, os adultos irrompem na brincadeira mandando-nos sentar nas
cadeiras, no quarto, junto ao leito de morte da avó, ali seguramente não
faríamos barulho por respeito à defunta.
De repente
fez-se silêncio. Olhei para o que tinha pela frente. Senti-me só, embora estivessem
mais pessoas no quarto a velar o corpo. Ali estava a avó, deitada, com mãos
sobrepostas, de olhos fechados, vestida de preto e com um ar sereno. Recordo
olhar fixamente para a sua face para tentar perceber o que se estava a passar.
No fundo não se passava nada… era a morte. Sim, porque os adultos teimavam em
dizer qua a avó tinha morrido naquelas horas, mas para mim ela estava apenas a
dormir, caso contrário porque nos tinham mandado calar quando brincávamos no
corredor.
Na manhã
seguinte estava frio e chovia copiosamente. Lembro-me de estar confortavelmente
aconchegado no automóvel dos meus padrinhos seguindo no cortejo fúnebre para o
alto S. João. Uma das tias, que não estivera connosco no dia anterior,
disponibilizou-se para ficar comigo à porta do cemitério para me resguardar das
imagens do caixão a baixar à terra. Muitos anos depois senti-me aliviado e
agradecido a esta tia por ter sido poupado a outro contacto precoce com a
morte.
O meu avô
materno faleceu 5 anos depois, no final de um Janeiro gélido, tinha eu 9 anos.
Era um homem doente há vários anos. Sofrera um acidente numa pedreira que lhe
retirou parte da visão. Não era uma figura afável para as crianças. Passava
horas a fio ao lume. Acendia os cigarros com
uma brasa incandescente prensada na ponta da tenaz. Lembro-me que para
mim era um homem rude e estranho que se deixava adormecer, ali mesmo, sentado à
lareira, com o cigarro, meio desfeito, sempre ao canto da boca. A melhor prenda
que se lhe podia oferecer era um pacote de maços de cigarros Provisórios ou
Definitivos. Não me deixava aproximar da lareira, resmungando de forma quase
imperceptível, fazendo em simultâneo um movimento brusco com os braços, talvez
porque sentisse que era um local perigoso para uma criança.
Durante esse tempo não estabeleci nenhuma
relação entre a doença e a proximidade da morte, pelo que a notícia do seu
falecimento chegou de forma inesperada e também por telefone. Nesse dia um dos
meus primos fazia anos. Recordo o embaraço dos adultos em relação ao que fazer
com o bolo de aniversário. Fiquei triste porque não cantamos os parabéns. Não
era possível, o avô estava a ser velado num dos quartos da casa.
Manuel Campus
:)
ResponderEliminarMuito bom!