domingo, 30 de março de 2014

O vendedor de cobertores.

À conversa com uma pessoa esta manhã, a sua expressão vocal fez-me lembrar o vendedor de cobertores e outros trapos para o lar, que aparecia pelo fim da tarde na marginal da praia da minha infância, para leiloar os seus produtos. Aglomeravam-se umas dezenas de pessoas, que se apressavam a sair do areal, para ouvir a arte verborreica necessária para fazer negócio. O homem levantava o encerado, saltava para carroçaria da furgoneta, colocava o microfone ao pescoço e envolvia-o no lenço de algodão que retirava do bolso. Aquele gesto fazia-me pensar se o lenço não teria sido já usado para o que era suposto. O som do micro era roufenho, mas isso não tinha importância nenhuma. 
O espectáculo do leilão começava e eu ficava ali horas a ver o artista que impingia os produtos e que, na maior parte do tempo, arrancava gargalhadas da assistência. A forma como surgia logo uma ou outra pessoa interessada na primeira proposta do vendedor era intrigante. Mais tarde, pensei que seriam uma espécie de indutores que fariam parte do elenco. Quem tinha pouco dinheiro na carteira não se importava de ir num instante a casa buscar mais. Na época não havia multibanco e os bancos aquela hora estavam fechados. Em pleno Verão, as pessoas iam para casa carregadas de cobertores e com um sorriso rasgado, orgulhosas de terem participado no espectáculo.


                                                                                                                                Manuel Campus

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