O vendedor de cobertores.
À conversa com uma pessoa esta manhã, a sua expressão vocal
fez-me lembrar o vendedor de cobertores e outros trapos para o lar, que
aparecia pelo fim da tarde na marginal da praia da minha infância, para leiloar
os seus produtos. Aglomeravam-se umas dezenas de pessoas, que se apressavam a
sair do areal, para ouvir a arte verborreica necessária para fazer negócio. O
homem levantava o encerado, saltava para carroçaria da furgoneta, colocava o
microfone ao pescoço e envolvia-o no lenço de algodão que retirava do bolso.
Aquele gesto fazia-me pensar se o lenço não teria sido já usado para o que era
suposto. O som do micro era roufenho, mas isso não tinha importância
nenhuma.
O espectáculo do leilão começava e eu ficava ali horas a ver
o artista que impingia os produtos e que, na maior parte do tempo, arrancava gargalhadas
da assistência. A forma como surgia logo uma ou outra pessoa interessada na
primeira proposta do vendedor era intrigante. Mais tarde, pensei que seriam uma
espécie de indutores que fariam parte do elenco. Quem tinha pouco dinheiro
na carteira não se importava de ir num instante a casa buscar mais. Na época
não havia multibanco e os bancos aquela hora estavam fechados. Em pleno
Verão, as pessoas iam para casa carregadas de cobertores e com um sorriso
rasgado, orgulhosas de terem participado no espectáculo.
Manuel Campus
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