domingo, 1 de junho de 2014

O anti-militar

Em menino via-os rastejar com a arma sempre apontada para um suposto inimigo que, pelas minhas contas, deveria estar perto da taberna do Correia - onde os clientes habituais emborcavam copos para enfrentar outras guerras. Eram os recrutas do 15 em treino militar a caminho da Carreira de Tiro. 
A curiosidade levava-me a aproximar e a observar aqueles propósitos. A maioria dos mancebos revelava grande descontracção, apesar do inimigo estar por perto e a estrada ser de terra batida inundada por buracos.
Em surdina metiam-se com os miúdos da rua: - qual de vós vai buscar uma mini à taberna? Se tiverem umas manas jeitosas tragam-nas também.
Em resposta fazíamos-lhes um manguito. Danados, ameaçavam que nos davam um tiro. Na frente de batalha o Alferes gritava: - pouco barulho, oh 27, tas aqui tás a encher!
Nos dias de chuva os desgraçados iam em esforço e nem não nos ligavam. Chegava a ter pena deles.
Talvez venha desse tempo o meu anti-militarismo. Detesto armas, fardas, patentes e a organização militar. Mais tarde haveria de chegar a mancebo e, mesmo não gostando, lá fui para o teatro de operações em instrução nocturna. Era inverno e o inimigo estaria algures no cima da Serra. O pelotão rastejava progredindo lentamente em direcção à Serra. O filho da puta do Alferes, quando sentia que estávamos dentro da poça de água fria quase gelada, mandava-nos parar porque o inimigo quase se apercebera da nossa presença. Ficávamos quietinhos, com os testículos de molho a congelar.  
Nunca entendi aquela prepotência, as fantasias sádicas dos que têm patentes mais altas. Sempre ouvira dizer que a tropa fazia homens. Daquele tipo de homens não queria ser. Sou anti-militar e ponto final.








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