quinta-feira, 10 de julho de 2014

Espreitar a Lua

Foram trinta anos de subúrbio. Vígil nas noites longas da rotativa, José lia as noticias primeiro que toda a gente. As noites sucediam-se umas atrás das outras sem intervalos para espreitar a Lua. De dia o sono seguia entre cortado, ao ritmo da vontade de vizinhos ruidosos.
José atravessara um doloroso período de separação. Arrastava-se na ida e na volta do trabalho. Sentia-se num intervalo gigante. Depois de assaltado pela segunda vez na estação do comboio, desfez-se de tudo e partiu. 
Construiu um novo mundo à beira mar. Agora, no Verão, ao sol fora, montado na sua bicicleta, faz umas dezenas de quilómetros seguidos de um mergulho no mar, antes ainda de ir para o volante da carrinha que transporta crianças de um ATL local.
Orgulhoso do seu novo lar, da sua caravana, dos seus vizinhos do parque de campismo, José evoca os momentos em que se deita na cama ao compasso das ondas e a saborear a vista da Lua.

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